Descrição de chapéu

Pessoa com deficiência não é vista como cliente em quem vale a pena investir

Se muitos pisos táteis são inúteis ou perigosos, a culpa é de quem exige que o coloquem?

São Paulo

Em vez de Luciano Hang se vitimizar porque precisa instalar um piso tátil em suas lojas para facilitar a locomoção de clientes com deficiência visual, que tal se o empresário ficasse inconformado toda vez que encontrasse uma calçada esburacada dificultando o caminho até suas vitrines?

Em vídeo divulgado em suas redes sociais nesta sexta (20), Hang critica regras de acessibilidade e as classifica como uma burocracia sem sentido que o governo coloca sobre o empresariado.

Luciano Hang, dono da Havan. - Divulgação

Ele reclama de como um piso tátil incluído na entrada de uma das lojas da sua empresa, a Havan, estraga a beleza que ele vê no espaço.

Não se trata de uma regra inútil. O piso tátil é uma pequena parte do que lhe cabe para tornar a sociedade um pouco mais inclusiva.

Também me incomodam profundamente pisos táteis que levam do nada a lugar nenhum, para continuar com as palavras do empresário.

Na maioria das vezes, o aparato é colocado burocraticamente apenas para cumprir uma obrigação, deixando transparecer que o responsável nunca pensou seriamente que um dia ele seria usado por uma pessoa com deficiência visual.

Que outra explicação haveria para um piso tátil em agência de um grande banco de São Paulo que terminava em uma parede de vidro? Após reclamação, o defeito foi corrigido.

É apenas um exemplo, entre muitos caminhos que já andei, supostamente pensados para cegos que começam e terminam sem fazer sentido, levam até a parede ou possuem obstáculos no meio.

Agora, se muitos pisos táteis são inúteis ou perigosos, a culpa é de quem exige que o coloquem?

Responsabilidade ainda maior deveria cair sobre quem os fez de qualquer jeito, provavelmente sem nunca ter pensado sobre a locomoção de pessoas com deficiência visual. Se caberia exigir algo mais ao poder público, que tal fiscalizar melhor os projetos malfeitos?

Ao assistir o desabafo inflamado de Hang, penso que ele não acredita que pessoas com baixa visão ou cegos possam chegar a suas lojas sozinhos e andar por um piso seguro até encontrar um atendente. Luciano Hang esqueceu que somos clientes e a falta de um piso tátil e de respeito impacta suas próprias vendas.

Filipe Oliveira, repórter da Folha, tem deficiência visual

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