Bolsonaro quer que Brasil seja paraíso turístico, mas não para de insultar todo mundo, diz Washington Post

Número de visitantes estrangeiros caiu em 5% este ano, em meio a saraivada de más notícias

Terrence McCoy
Washington Post

Clovis Dias de Oliveira estava sentado atrás do balcão de sua loja vazia de fregueses e repleta de quinquilharias para turistas, olhando o app do Facebook em seu celular. Ele meneou a cabeça: mais más notícias.

Um par de quadrilhas havia entrado em combate pouco tempo antes. Um homem foi atacado a tiros. Houve prisões. E os incidentes mais recentes de violência haviam acontecido não em uma favela remota, mas lá, no coração do bairro colonial da cidade histórica.

As autoridades vêm dizendo que Salvador, com suas lindas praias, arquitetura colonial e cultura única, com forte influência africana, poderia ajudar a resolver um dos dilemas mais duradouros do Brasil: como atrair turistas. Mas Oliveira, 36, não parecia acreditar nisso.

“Nem eu me sinto seguro por aqui”, ele disse, irritado. “Já vi muitos turistas assaltados aqui. E eles vêm e nunca mais voltam”.

O maior país da América Latina atingiu um ponto crítico de seu longo e conturbado histórico quanto ao turismo. Enquanto muitos dos destinos mais atraentes do planeta desfrutam de booms, e outros países latino-americanos, como o México e a República Dominicana, tiram vantagem disso, o Brasil atraiu apenas 6,6 milhões de visitantes estrangeiros em 2018 — menos que o Irã teocrático, que a Ucrânia em guerra; e menos até que o museu do Louvre, em Paris.

Mas o total foi mais alto —um pouquinho mais alto— que o do ano anterior. Agora o governo brasileiro quer reforçar a tendência e realizar o potencial turístico de um país que tem milhares de quilômetros de praias, a floresta tropical amazônica, cadeias de montanhas e um povo famoso pelo calor humano e receptividade. Até 2022, prometeram as autoridades este ano, o número de visitantes estrangeiros terá dobrado.

Fazê-lo também dobraria os dólares entrando em um país que necessita muito de moeda forte. Prejudicado pelo alto desemprego e pela estagnação da economia, o Brasil só arrecadou US$ 6 bilhões com o turismo internacional em 2018. Os Estados Unidos arrecadaram US$ 210 bilhões e o minúsculo Portugal arrecadou US$ 18 bilhões, de acordo com a Organização Mundial do Turismo, parte da ONU.

As autoridades brasileiras cancelaram a obrigatoriedade de vistos para cidadãos dos Estados Unidos, Canadá, Austrália, Japão. China e Qatar. Lançaram uma campanha mundial de relações públicas chamada “Brazil by Brazil”, que vem veiculando em cidades da Europa e dos Estados Unidos uma série de anúncios ambíguos mas estranhamente atraentes: “Conheça o novo Brasil, moderno e produtivo”. E o presidente brasileiro Jair Bolsonaro fala com frequência sobre turismo – queixando-se, por exemplo, das proteções ambientais que segundo ele inibem o turismo, e expressando um desejo melancólico de criar o equivalente brasileiro de Cancún ou Cozumel.

“[A situação do] nosso turismo é frustrante, se considerarmos que somos os primeiros em beleza natural”, disse Bolsonaro este ano. “Queremos preservar o ambiente, mas se qualquer outro país do mundo tivesse nossas maravilhas, estaria faturando bilhões com o turismo. Mas nós não conseguimos”.

No entanto, determinar se o governo Bolsonaro será capaz de realizar suas aspirações ambiciosas dependerá, em alguma medida, de as autoridades mesmas deixarem de atrapalhar.

O número de visitantes estrangeiros caiu em 5% este ano, em meio a uma saraivada de más notícias e condenações internacionais. Houve as queimadas na floresta amazônica. Depois um derramamento de petróleo devastador. Um número recorde de mortes pela polícia do Rio de Janeiro. E em meio a tudo isso um presidente que adora provocar politicamente e afirma, por exemplo, que preferiria ter um filho morto a um filho gay, apela para que criminosos sejam fuzilados nas ruas “como baratas”, e insulta a aparência da mulher do presidente francês Emmanuel Macron.

“Bolsonaro não é especialmente atraente”, disse Thomas Kohnstamm, autor de um guia Lonely Planet sobre o Brasil e de um livro de memória francas sobre suas experiências no país. “O Brasil atrai mais viajantes independentes, que tendem a ser pessoas mais progressistas. Assim, quando Bolsonaro faz campanha com uma arma de fogo como símbolo e diz que preferia um filho morto a um filho gay, isso não cai muito bem”.

No caso do Brasil, não é só uma coisa que mantém os turistas longe. A Turquia, por exemplo, também tem um líder com tendências autoritárias, o presidente Recep Tayyip Erdogan, mas o número anual de visitantes ao país disparou de 31 milhões para 46 milhões nos 10 últimos anos. O México, outro país debilitado pela violência, recebeu 41 milhões de visitantes em 2018 – quase o dobro do volume de 2010.

O Brasil, posicionado entre os Andes e o Atlântico, a milhares de quilômetros dos Estados Unidos e ainda mais distante da Europa e Ásia, continua remoto – e não apenas geograficamente. O idioma do país é o português. A cultura, com suas muitas influências, é única. E os voos são caros.

“A meta é impossível”, concluiu Luiz Gustavo Barbosa, que pesquisa sobre turismo na Fundação Getúlio Vargas, uma universidade do Rio de Janeiro. “É impossível porque a meta estava errada desde o começo”.

O desafio parece especialmente agudo na cidade litorânea de Salvador. Fundada pelos portugueses como primeira capital do Brasil, ela hoje serve como laboratório para as experiências brasileiras com o turismo.

As autoridades concluíram recentemente a renovação do bairro histórico do Pelourinho, uma das áreas mais extensas de arquitetura colonial na América. O The New York Times selecionou Salvador como um dos 52 destinos que sua seção de turismo recomenda visitar, no ano passado. E de acordo com o aeroporto local, o número de visitantes estrangeiros cresceu em 25% nos seis primeiros meses de 2019.

“Salvador está pronta para os turistas”, declarou Claudio Tinoco Melo de Oliveira, diretor de turismo da cidade. “Estamos falando da primeira capital do Brasil. Nosso potencial é muito maior”.

Mas partes de Salvador, uma das cidades mais violentas de um país violento, têm o ar oprimido de uma cidade sitiada. Há policiais estacionados em cada equina, entrando em ação para deter batedores de carteiras, um dos quais tentou roubar este repórter, certo dia no crepúsculo.

Os lojistas se queixam da ameaça constante do crime. “Há roubos e assaltos, e os turistas depois param de vir”, disse Tabmo Oliveira Júnior, que estava servindo sorvetes em uma sorveteria.

Os turistas têm medo.

“É claro que nos preocupamos”, disse Amavry Menanteu, um visitante vindo da França que estava esperando por um carro da Uber diante de seu hotel, para evitar uma caminhada arriscada. “Temos de verificar aonde podemos ir e onde se pode andar, e ao chegarmos aqui tivemos de perguntar aonde era seguro ir”.

“Se eu estivesse aqui sozinha, não me sentiria segura”, disse uma mulher alemã de 28 anos, que falou sob a condição de que seu nome não fosse citado, por medo de repercussões. “Somos claramente um alvo. Somos as pessoas mais brancas aqui, e é claro que é fácil nos identificar” como turistas.

Mas as coisas estão melhorando, garantiu Gustavo Ribeiro. E precisam melhorar – pelo bem de Salvador e por seu bem pessoal. Ele recentemente adquiriu o elegante restaurante Maria Mata Mouro – que naquela noite havia acabado de registrar movimento fraco mais uma vez, apesar da comida excelente.

“Acredito neste lugar. Tem o maior potencial do país – e acredito em um futuro melhor aqui. Investi minha vida aqui”, ele disse.

The Washington Post, tradução de Paulo Migliacci

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