Glamour de Davos é purgatório para jornalistas

Quem faz esse tipo de cobertura sabe a chance única que é usá-la para explicar o que será notícia no ano que começa

Davos

Minha companheira de cobertura em Davos neste ano, a editora Alexa Salomão, apelidou nossa odisseia pelos cinco dias do encontro anual do Fórum Econômico Mundial de "perrengue chique". 

Tudo muito lindo, tudo muito caro, e é muito empolgante cruzar com o Tony Blair e o Tim Cook ou encontrar a Malala no banheiro (isso foi em outro ano, mas está valendo). 

Quando a jornada de 16 horas acaba e você toma a porta na cara de meia dúzia de restaurantes fechando, fica claro que no meio de todo esse glamour nós, jornalistas, somos só espectadores, mesmo quando subimos na hierarquia dos crachás (sim, Davos tem uma longa escada de crachás de acesso, coloridos para que seu status ou a falta dele fique logo claro).

Meu celular denunciou que estourei a meta de passos em 250%. Uber não era opção —só havia a versão de luxo, e a corrida de 2 km sairia R$ 120. Melhor enfrentar a neve e as ruas escorregadias daquele gelo que fica depois.

​E olha que neste ano o presidente Jair Bolsonaro nem foi, e a delegação acabou reduzida e coesa. Onde ia Paulo Guedes, iam seus secretários especiais e os repórteres brasileiros atrás.

Mas como cobrir um evento dessa magnitude e ainda dar conta de acompanhar as autoridades brasileiras? Afinal, as duas coisas interessam ao leitor: saber o que fez o ministro e sua entourage, além do governador de São Paulo, João Doria, o apresentador Luciano Huck e os executivos nacionais, e também saber o que diz Donald Trump, Greta Thunberg, o venezuelano Juan Guaidó. 

Alexa foi atrás de informações econômicas e conversas exclusivas com a delegação; eu tratei de cobrir o debate ambiental, entrevistar especialistas presentes e ajudar o leitor a ligar os pontos entre Trump, Greta, Al Gore e o que nós temos a ver com isso. Nos intervalos, muitas conversas com os convidados do fórum para saber para que lado o vento sopra e quais debates e mensagens "pegaram" neste ano

Tudo bem, no fim os chefes da Redação só querem as frases mais momentosas, mas quem faz esse tipo de cobertura sabe a chance única que é usá-la para explicar o que será notícia no mundo no ano que começa.

Há um preço para o privilégio. Davos é uma cidadezinha de 11 mil habitantes frequentada como resort de esqui da classe média suíça (não dos ultrarricos). Durante a semana do fórum, preços de hotéis e aluguéis de apartamento decuplicam —não é figura de linguagem, eles realmente ganham um zero extra.

Em anos mais cheios de figurões, como foi 2018, é muito difícil circular. As ruas ficam entupidas de seguranças, vans pretas e carros de luxo. Os bancos, empresas e governos montam casas que servem de stands promocionais e oferecem festas aos frequentadores dos fóruns.

Com a economia global coxeando, neste ano Davos não ferveu. Mas a infinidade de sessões e temas, de neurociência a impressão 3D com resina de alga, passando por política de segurança, finanças e crise climática, segue firme. Ano que vem esqueceremos o frio, os perrengues, o cansaço e começaremos tudo novamente.

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