Descrição de chapéu Coronavírus

Aplicativos anunciam medidas a restaurantes em crise de coronavírus

iFood dá desconto em comissão e Uber Eats e Rappi flexibilizam pagamentos; setor quer mais redução

São Paulo

Os aplicativos de entrega de comida iFood, Uber Eats e Rappi anunciaram medidas nos últimos dias para tentar minimizar o baque econômico que restaurantes cadastrados nessas plataformas vão sofrer durante e após a pandemia de coronavírus. Com salões fechados, os estabelecimentos estão concentrando a totalidade de seus esforços no delivery.

As mudanças atendem a um pleito da Abrasel (Associação Brasileira de Bares e Restaurantes), que endossa as mesmas reivindicações de mais de 300 restaurantes que se articulam em grupos de WhatsApp desde o início da queda do movimento, há pouco mais de dez dias.

O principal pedido às plataformas, que ganham um percentual sobre todas as vendas, é ajuda para flexibilização dos custos.

Na quarta-feira (24), o iFood divulgou que vai reduzir uma média de 20% das comissões cobradas de restaurantes que integram sua plataforma, antecipar recebíveis sem custo adicional e zerar a taxa para o esquema "take away", quando o cliente paga pelo app e busca a comida no local.

Os recursos, segundo o iFood, foram redirecionados do setor de propagandas da empresa.

O desconto na comissão será automático aos cerca de 132 mil restaurantes cadastrados no aplicativo. O auxílio, um total de R$ 50 milhões, varia de acordo com o plano.

No plano básico, que não inclui entrega, se o restaurante pagar uma taxa superior a 9% por pedido, o abate será a diferença entre o valor pago e os 9%. Se o estabelecimento paga 12% de comissão, receberá 3% de desconto, por exemplo.

Já no plano que inclui a entrega pela frota do iFood, o restaurante costuma pagar mais de 20% de comissão por pedido. Nesse caso, se pagar 27% em uma transação, receberá 7%.

A empresa também liberou, junto com a Rede, maquininha de cartão do Itaú, R$ 600 milhões para capital de giro dos restaurantes em abril e maio. Com a medida, os recursos que os empresários receberiam no fim do mês passam a ser antecipados ao longo de quatro semanas.

"É uma injeção de liquidez para que empresários mantenham seus estabelecimentos abertos", diz Diego Barreto, VP de estratégia da marca.

O restaurante deve solicitar a verba em seu cadastro no site do iFood.

Há poucos dias, a Uber Eats deu a opção de recebimento diário dos pagamentos a pequenos restaurantes --o dinheiro caía no final de semana. A empresa também acelerou o processo de inscrição de estabelecimentos ao liberá-los do uso de um tablet.

A Rappi reduziu o prazo de pagamento aos restaurantes de 14 para 7 dias, com início em 1 de abril, a fim de aliviar os caixas. O aplicativo ainda passou a se responsabilizar por um selo de segurança nas embalagens para garantir que não haja manipulação na comida da cozinha à porta dos consumidores.

As duas empresas não anunciaram redução de taxas.

As medidas foram bem recebidas por restaurantes e pela Abrasel, que ainda defende taxa zero no take away em todos os aplicativos.

"A redução de taxa é bem-vinda, se o valor é bom ou ruim, não vale julgar agora. Não é de graça, é desconto de 20%, no caso do iFood. Tão importante ou mais é tirar comissão do take away em todos, porque evita aglomeração e é o que precisamos", diz Celio Salles, conselheiro de administração da Abrasel.

Para o chef Gerson Higuchi, do Apple Wood, rede com duas unidades e 17 funcionários em São Paulo, as medidas aliviam. Em duas semanas, ele suspendeu contratos, deu férias a funcionários e rescindiu contratos de trabalhadores que estavam em experiência.

"São ações positivas, não são suficientes. Esse desconto ajuda a pagar a folha de pagamento", diz.

O iFood, que representava até 40% do seu faturamento há dez dias, hoje responde por 100%.

Já o chef Cesar Costa, do restaurante paulistano Corrutela, recém havia incluído a marca no sistema de delivery quando a crise estourou. O estabelecimento só integra o Rappi, que, segundo ele, está pouco competitivo.

"Perdemos 70% do faturamento de uma hora para outra, estamos apostando no delivery e o take away até aguardar a reabertura. Mas não adianta pensar que vai liberar e vai ter salão cheio. A crise vai acabar e as pessoas não vai voltar ao mesmo ritmo econômico", diz.

Mesmo que todo o foco seja na entrega diante das medidas anunciadas pelos governos estaduais, o aumento da concorrência no delivery derrubou os preços durante o isolamento, de acordo com a consultoria Misturafina, que atende diferentes segmentos de alimentação.

"Somando custos de embalagens e taxas de operadores de cartão e entrega, jogou o CMV [Custo de Mercadoria Vendida] próximo a 60%, 70%, o que em alguns casos está inviabilizando a operação", diz a consultoria.

Além da negociação com aplicativos, há diálogo pela redução de custos com todos os elos da cadeia, de locadoras de carros a fornecedores de insumos e maquininhas de cartão de crédito.

O pleito ao governo federal é que a União assuma o pagamento de funcionários com recursos do seguro-desemprego. A folha de pagamento representa cerca de 30% do custo das operações, segundo Percival Maricato, presidente da Abrasel em São Paulo.

"Se os estabelecimentos continuarem a demitir, aumenta o passivo e cai o faturamento a cada dia. Se for uma crise que durar até setembro e o governo não assumir, quebra mais de 90%, não tem aguentar tantos meses sem nenhuma entrada", diz.

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