Comércio popular já convive com alta de preço, queda no estoque e uso de máscara contra coronavírus

Galeria Pagé, 25 de Março e lojas na região da av. Paulista são pressionadas pelo dólar e sofrem queda nas vendas

São Paulo

Lojas de eletrônicos, de conserto de celular e de produtos importados da Ásia, principalmente da China, já convivem com diferentes efeitos do coronavírus. Há atraso na chegada de mercadorias, aumento de preços de insumos e uma alteração visível no comportamento, tanto de clientes como de funcionários, que adotam o uso de máscaras.

Em pontos de comércio popular da avenida Paulista e do centro de São Paulo, lojistas relatam que, embora não haja desabastecimento, os lançamentos mais recentes –de capinhas de celular a fones de ouvido– não chegam. Quem tem estoque de alguns insumos, já cobra mais.

“O coronavírus atrasou a entrega de algumas mercadorias: capinha, relógio inteligente, caixa de som, película. Já foram lançados vários modelos novos que não chegaram. Ainda estamos nos antigos", diz a comerciante Emília Andrade.

Os vendedores também citam mudanças no comportamento dos clientes.

A percepção é que há queda no movimento; em parte, por um crescente temor dos consumidores em transitar por locais muito movimentados, especialmente naqueles com orientais. Como a doença teve início na China, contam os lojistas, alguns acreditam que o contato com asiáticos é um grande risco, ignorando que a contaminação pode vir de pessoas que estiveram em qualquer país.

Lojas populares de importados, na Galeria Pagé, recebem produtos em atraso devido ao coronavírus
Lojas populares de importados, na Galeria Pagé, recebem produtos em atraso devido ao coronavírus - Gabriel Cabral/Folhapress

No Boulevard Monti Mare, na av. Paulista, que comercializa roupas, cosméticos e eletrônicos, os lojistas destacam que os reajustes mais expressivos ocorrem nas peças de celular e relógios inteligentes, produtos de maior valor.

“Por enquanto, não falta nada, mas o preço subiu. Um smartwatch que custa R$ 170, em outras lojas daqui, já sai por R$ 190. Sabem que há menor quantidade desse produto, e aí cobram mais caro”, diz o vendedor Lucas Gonçalves.

Segundo ele, comerciantes com reserva financeira anteciparam as compras junto a fornecedores, já se preparando para uma eventual escassez na oferta de importados. “O fornecedor percebeu quando esse tipo de coisa acontece, aumenta de R$ 8 a R$ 10 o preço de um smartwatch, por exemplo, e o lojista tem que repassar para o consumidor”, diz Gonçalves.

Um vendedor que não quis ter o nome revelado conta que os reajustes variam muito, de acordo com o tipo de produto. Segundo ele, o preço da tela de um celular foi de R$ 300 para R$ 380. Modelos de tampa de celular (a parte traseira do aparelho), que custavam R$ 15, hoje chegam a R$ 35.

Diferentemente da indústria de celulares, que ainda tem estoques de peças e consegue resistir à alteração do preço final, o comércio que trabalha com compra de itens individuais é mais sensível à variação cambial. Na conjuntura do coronavírus, o dólar apresentou alta de cerca de 16% desde janeiro.

Os lojistas já perceberam também que o número de clientes vem caindo.

“Vejo queda nas vendas há umas três semanas por causa do dólar. Calculo que houve uma queda de uns 20%. Todos os nossos produtos são importados, do Paraguai ou de Miami, e precisamos repassar ao preço final”, diz Murilo Dias, comerciante de uma loja de jogos e videogames.

No centro de São Paulo, pessoas usam máscara em galerias que vendem produtos populares; preços aumentaram por causa da alta do dólar
No centro de São Paulo, pessoas usam máscara em galerias que vendem produtos populares; preços aumentaram por causa da alta do dólar - Gabriel Cabral/Folhapress

O que mais chama a atenção nestas lojas populares é uso da máscara. Virou um acessório comum para quem fica atrás do balcão nas galerias da região central, como Shopping Oriental, Korai e Galeria Pagé, no entorno da 25 de Março.

O acessório foi adotado como uma alternativa para evitar o contágio, mas não há confirmação se os modelos utilizados são os adequados para barrar o vírus.

Nos últimos dias, uma preocupação era confirmar boatos de que dois vendedores teriam voltado da China sem passar pela quarentena. Na dúvida, muitos aderiram às máscaras. Alguns lojistas, porém, desistiram de trabalhar. Já não são vistos pelos colegas de estande.

Funcionária no centro de São Paulo; lojistas usam máscara para conter risco de disseminação
Funcionária no centro de São Paulo; lojistas usam máscara para conter risco de disseminação - Gabriel Cabral/Folhapress

A Abinee, associação que representa grandes empresas da indústria eletrônica, como Dell, LG, Huawei, Samsung e Sony, afirma que 70% de associados reportaram problemas no recebimento de materiais, componentes e insumos da China.

O resultado mostra piora da situação em relação à pesquisa feira em 5 de fevereiro, quando 52% das empresas informaram que tinham problemas. Em 20 de fevereiro, o número subiu para 57%.

Segundo a entidade, a situação de desabastecimento é observada principalmente entre os fabricantes de produtos de tecnologia da informação, como celulares e computadores. A pesquisa contou com a participação de 50 indústrias.

Aumentou, também, a paralisação parcial em fábricas. Foi de 4%, no levantamento anterior, para 6%. "Outras 14% das indústrias já programaram paralisações para os próximos dias, a maior parte delas, também de forma parcial", diz a associação.

Caso a situação se prolongue por mais um mês e meio, a expectativa de 54% das empresas é de risco na entrega do produto final.

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