Cancelamentos em série por coronavírus abalam o transporte aéreo

Companhias aéreas globais buscam sobrevivência diante de restrições a viagens

Paris e São Paulo | AFP e Reuters

A propagação da epidemia do novo coronavírus e o cancelamento em série de voos, primeiro na Ásia e agora na Itália, fazem tremer o setor do transporte aéreo, com o risco de falências e pedidos de ajuda aos governos.

Depois da Ásia, agora é a Itália, onde o número de infecções atingiu 9.000 pessoas e o número de mortes subiu a 460, que sofre com as limitações de deslocamentos em todo o país desde segunda-feira (9).

A preocupação é generalizada no setor, especialmente desde que o verão no hemisfério norte, geralmente bom para o transporte aéreo, começará no início de abril, já sobrecarregado por perdas significativas do tráfego na Ásia, especialmente na China e agora na Itália.

Após o anúncio de confinamento na Itália, a Espanha foi, nesta terça-feira (10), o primeiro país a anunciar a suspensão de todas as conexões aéreas com esse país até 25 de março.

A Air France anunciou a suspensão de todos os seus voos com a Itália de 14 de março a 3 de abril. A companhia espera cancelar 3.600 voos em março, incluindo corte de 25% de sua capacidade europeia.

A Ryanair suspendeu todos as suas conexões com a Itália, assim como a empresa húngara de baixo custo Wizz Air. Norwegian Air, British Airways, easyJet, e El Al Israel Airlines fizeram o mesmo.

A Ryanair cortou previsão de demanda para o ano que se encerra em maio em 3 milhões de passageiros, como resultado direto da suspensão de quase todos os voos para e a partir da Itália em abril.

A Latam Airlines anunciou na semana passada a suspensão de voos entre São Paulo e Milão até 16 de abril, citando baixa demanda.

A Azul está reembolsando passageiros que desistirem de viagens com origem ou destino na Itália e reduziu as frequências de voos internacionais para a Flórida (EUA) e para Porto (Portugal).

Turistas embarcam em voo da Southern Airlines no Aeroporto Internacional de Sanya, na Ilha chinesa de Hainan - Yang Guanyu/Xinhua

Embora não tenha citado números, o presidente-executivo da companhia, John Rodgerson, afirmou que o ajuste tem impacto irrelevante nas operações da companhia, dado que apenas 12 dos mais de 900 voos diários operados pela Azul são internacionais.

De acordo com Rodgerson, as operações domésticas no Brasil estão controladas e não houve reduções de frequências por conta do coronavírus. O executivo alertou, porém, que devido a questões sazonais e também à alta do dólar, a empresa pode reduzir algumas frequências domésticas no segundo trimestre.

"Nossa maior preocupação no momento é a alta do dólar", afirmou.

Já o fundador, principal acionista e presidente do conselho de administração da Azul, David Neeleman, afirmou que o mercado de aviação tende a se estabilizar nos próximos meses à medida que as pessoas entendam melhor a dimensão dos riscos do coronavírus.

"As pessoas logo vão se dar conta de que a dengue é muito pior", disse Neeleman. "Eu peguei 10 voos nos últimos 12 dias, não tive problema nenhum", acrescentou.

A epidemia que começou na China no final de dezembro está causando a mais grave crise do setor de transporte aéreo desde os ataques de 11 de setembro de 2001 nos Estados Unidos e da crise financeira de 2008-2009.

Esta última fez com que o setor despencasse e depois crescesse novamente, em 2010.

Há mais de um mês, as companhias aéreas e os aeroportos enfrentam medidas de confinamento –como na China ou na Itália–, prudência dos turistas que atrasam suas viagens e cancelamentos em cascata de feiras e eventos profissionais.

Aviões no chão

O analista de aviação Mark Simpson, da Goodbody, afirmou que outra grande preocupação da indústria é se a epidemia de coronavírus pode piorar na Espanha, outro popular destino de viagens de férias na Europa. A Espanha registra mais de 1.200 casos confirmados de coronavírus.

Algumas companhias, como a Lufthansa, tiveram que deixar parte de suas aeronaves no chão, enquanto outras, como a Air France, realizam manutenção antecipada de suas aeronaves ou as redistribuem em áreas menos afetadas.

Outras enfrentam situações duras. A Korean Air Lines alertou que a epidemia pode ameaçar sua sobrevivência após ter que suspender mais de 80% de sua capacidade internacional, deixando em solo 100 de seus 145 aviões.

"A situação pode ficar pior a qualquer momento e não podemos nem prever quanto tempo esta situação vai durar", disse Woo Kee-hong, presidente da Korean Air, maior aérea da Coreia do Sul, em carta a empregados sobre as turbulências geradas pela epidemia.

"Mas se a situação continuar por um período mais longo, nós poderemos atingir um limite no qual não poderemos garantir a sobrevivência da companhia."

A australiana Qantas Airways também cortou capacidade internacional em quase 25% nos próximos seis meses, e adiou uma encomenda de jatos A350, da Airbus, por causa da queda na demanda, que a indústria de aviação estimou que pode atingir a receita do setor em até US$ 113 bilhões neste ano.

A Qantas afirmou que não pode mais dar estimativas sobre o impacto financeiro da epidemia neste ano fiscal, que em 20 de fevereiro tinha previsto em até US$ 98 milhões no lucro antes de impostos (Ebit). O presidente-executivo e o presidente do conselho de administração da empresa não receberão salário, gestores não terão bônus e todos os funcionários estão sendo encorajados a tirar licenças pagas ou não remuneradas.

Por sua vez, a companhia aérea Iran Air anunciou nesta terça-feira que retomaria seus voos para a Europa, depois de suspendê-los por dois dias devido a uma decisão supostamente ligada à proibição de seus aviões no céu europeu.

Choque sem precedentes

Na Europa, a queda na frequência aeroportuária foi de 13,5% nos três primeiros meses do ano, segundo a ACI Europe, que reúne 500 aeroportos em 46 países.

A companhia aérea de baixo custo Norwegian Air Shuttle cancelou cerca de 3.000 voos entre meados de março e meados de junho.

E do outro lado do Atlântico, a American Airlines e a Delta cancelarão voos adicionais para lidar com a epidemia e suspenderam suas projeções de desempenho para o ano.

A Delta afirmou que está vendo as reservas líquidas recuarem entre 25% e 30% e espera que a situação se deteriore adiante. A empresa congelou contratações de pessoal e está oferecendo opções de licenças para os funcionários.

"Este claramente não é um evento de cunho econômico", disse o presidente-executivo da Delta, Ed Bastian, em conferência da indústria. "Este é um evento marcado pelo medo, provavelmente mais semelhante ao que vimos no 11 de setembro [de 2001, após ataques aos EUA]".

A Southwest, uma das principais empresas americanas, reduzirá seus voos internacionais de 20% para 25% e de 10% para 15% nos Estados Unidos e no Canadá.

Diante deste choque sem precedentes para a indústria de transporte aéreo, a ACI solicitou ao governo italiano a aplicação de medidas de apoio emergencial.

Aviões quase vazios

A indústria global de aviação está entre os setores mais atingidos pela epidemia. O setor perdeu quase um terço de seu valor –US$ 70 bilhões– este ano, segundo cálculos da agência Reuters com base nos 20 maiores grupos de aviação do mundo.

Muitas companhias aéreas pediram à Comissão Europeia uma moratória para revogar uma regra que exige que as transportadoras usem 80% dos intervalos de tempo atribuídos, a fim de mantê-los na temporada seguinte e, assim, evitar a garantia de "voos fantasmas", sem passageiros, para não perdê-las.

O presidente-executivo da britânica Virgin Atlantic, Shai Weiss, afirmou à BBC que a empresa está sendo "forçada a voar aviões quase vazios" para manter seus slots nos aeroportos.

A pressão tem crescido para que autoridades europeias suspendam a regra que exige que as empresas executem 80% dos voos programados sob pena de perderem slots não utilizados.

Nesta terça-feira, o Ministério da Economia da Alemanha também pediu que a União Europeia flexibilize as exigências para o setor aéreo. A Comissão Europeia vai avaliar a possibilidade de mudanças nas regras.

Se a Korean Air quebrar, não vai ser a primeira a ser consumida pela epidemia. A britânica Flybe entrou em colapso na semana passada diante de queda nas reservas. E novos problemas no setor são esperados, alertam especialistas.

O HNA Group, que tem participações em várias aéreas chinesas, incluindo a Hainan Airlines, afirmou que está operando em "estado de guerra" para lidar com os impactos financeiros da epidemia.

As companhias aéreas na China, onde o vírus foi descoberto, cancelaram dezenas de milhares de voos desde o início da epidemia, mas algumas já começaram a retomá-los.

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