Descrição de chapéu Coronavírus

Funcionários do comércio resistem em retornar ao trabalho

Sindicatos afirmam que contato direto com consumidor expõe trabalhadores

Rio de Janeiro

A pressão pelo relaxamento das medidas de isolamento contra o coronavírus encontra resistência em trabalhadores do comércio no país.

“Somos contra qualquer abertura neste momento”, diz Ricardo Patah, que preside a UGT (União Geral dos Trabalhadores) e o Sindicato dos Comerciários de São Paulo. “O Brasil não tem capacidade de leitos e ventiladores para atender todas as pessoas para enfrentar uma explosão de contaminações que certamente ocorrerá.”

Dos cerca de 500 mil associados do sindicato, cerca de 100 mil trabalham em atividades consideradas essenciais, como mercados e farmácias. O comércio paulista em geral fechou as portas por determinação do governo estadual.

Cidade de São Paulo paralisada; Rua 25 de Março aparece vazia às 11h30 da segunda-feira (23)
Cidade de São Paulo paralisada; Rua 25 de Março aparece vazia às 11h30 da segunda-feira (23) - Eduardo Knapp/Folhapress

Patah frisa que os comerciários lidam diretamente com o consumidor, ao contrário dos trabalhadores da indústria. “A gente ainda não está preparado para lidar com o público”, concorda a vendedora Joyce Marques, 24, que trabalha em uma loja no Rio de Janeiro.

Na capital fluminense, as lojas foram fechadas totalmente na terça (23). Desde então, Joyce só faz vendas por telefone. Ela, que estima que sua renda cairá dos R$ 1.300 de fevereiro para R$ 900, avalia trancar a faculdade. “Moro com a minha avó de 81 anos. Não posso colocá-la em risco.”

Na quarta (25), o prefeito do Rio, Marcelo Crivella, liberou o funcionamento, a partir de sexta (27), de postos de conveniência e lojas de material de construção.

Contrário à reabertura, o Sindicato dos Comerciários do estado avalia ir à Justiça.

O sindicato já obteve algumas liminares contra redes que insistiam em manter os empregados em atividade, ainda que em funções internas. No Rio, são cerca de 340 mil comerciários.

“Grande parte usa transporte público e mora em áreas muito populosas, comunidades. Vão sair para trabalhar e depois correm o risco de infectar família e vizinhos”, diz o presidente do sindicato, Márcio Ayer.

Primeiro estado a aderir à campanha de Jair Bolsonaro pela retomada das atividades, Santa Catarina anunciou um plano para começar a reabrir o comércio a partir de quarta (1º). Em carta ao governador Coronel Moisés (PSL), a federação dos comerciários do estado classificou a decisão como "irresponsável”.

O sindicato da categoria em Florianópolis estuda ir à Justiça contra a decisão. As entidades temem que as pressões do movimento em prol da reabertura gere pânico nos trabalhadores.

Os sindicatos defendem medidas do governo para ajudar com a manutenção dos salários enquanto a curva de disseminação da Covid-19 se mantiver ascendente, como o pacote para que pequenas e médias empresas possam financiar até dois meses de pagamentos.

Mas apelam para mudança de posição em relação ao isolamento. “O trabalhador amanhã pode ser um doente e infectar todo o grupo daquele estabelecimento”, diz Lael Martins Nobre, presidente do Sindicato dos Empregados do Comércio de Florianópolis.

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