Carta contra Weintraub no Banco Mundial reúne de Chico Buarque a Rubens Ricupero

Documento colheu 270 assinaturas e foi enviado ao banco e embaixadas

São Paulo

Um grupo de organizações da sociedade civil, empresários, ex-ministros, economistas, artistas e intelectuais endereçou na tarde desta sexta-feira (19) uma carta à atual diretoria do Banco Mundial e aos embaixadores dos países que fazem parte do grupo do Brasil no organismo multilateral, recomendando voto contrário à nomeação de Abraham Weintraub ao cargo de diretor-executivo do banco.

O documento foi assinado por 15 organizações da sociedade civil e personalidades como o ex-ministro da Fazenda Rubens Ricupero, a ex-ministra do Meio Ambiente Izabella Teixeira, o cantor Chico Buarque, o ator Paulo Betti, os economistas Laura Carvalho e Octavio de Barros, num total de 255 pessoas.

A iniciativa foi capitaneada pela ONG de direitos humanos Conectas.

“O Banco Mundial desenvolve um conjunto de políticas para proteger minorias. Uma pessoa que abertamente se manifestou contra a proteção destes povos, que inclusive disse que odeia o termo ‘povos indígenas’ não pode ocupar um cargo de direção nesta instituição”, afirma Juana Kweitel, diretora-executiva da Conectas.

Segundo ela, a posse do ex-ministro na instituição seria uma sinalização ruim. “O Banco Mundial é referência em matéria de financiamento do desenvolvimento. Suas políticas influenciam todo o setor. Não podemos permitir um retrocesso deste tipo.”

Na carta, os signatários alertam para “possíveis danos irreparáveis” que seriam gerados pela nomeação de Weintraub. Destacam seu “comportamento odioso e desempenho medíocre como ministro da Educação”.

Ainda conforme os missivistas, Weintraub “é a antítese de tudo o que o Banco Mundial procura representar na política de desenvolvimento e no multilateralismo”. Eles enumeram como motivos para isso, o fato de o ex-ministro da Educação privilegiar a ideologia em lugar de políticas baseadas em evidências e ter demonstrado inaptidão administrativa durante sua gestão à frente da pasta.

Os intelectuais citam ainda que o ex-ministro mostra falta de entendimento e capacidade de lidar com injustiças sociais e econômicas por meio de políticas públicas; demonstra desrespeito pelos valores do multilateralismo, como tolerância e respeito mútuo; e tem conduta incompatível com os padrões de integridade ética e profissional.

“Estamos convencidos de que o Sr. Abraham Weintraub não possui as qualificações éticas, profissionais e morais mínimas para ocupar o assento da 15ª Diretoria Executiva do Banco Mundial. Assim, pedimos aos Senhores as providências necessárias para resolver os problemas e as preocupações apresentados nesta carta”, conclui o documento.

Receberam a carta, na tarde desta sexta, as embaixadas da Colômbia, República Dominicana, Equador, Haiti, Panamá, Filipinas, Suriname e Trinidad e Tobago, países que fazem parte do grupo do Brasil no conselho administrativo do Banco Mundial.

Segundo Otaviano Canuto, ex-diretor-executivo e vice-presidente do banco, o Brasil tem peso suficiente para manter sozinho a indicação de Weintraub, mesmo que os outros países votem contrários à nomeação. Mas isso implicaria em uma diretoria mais enfraquecida em seu poder de barganha com as 24 demais cadeiras que compõem o conselho administrativo do Banco Mundial.

O atual mandato do conselho de administração do banco vai até outubro. O cargo de diretor-executivo no grupo do Brasil está vago e poderá ser ocupado por Weintraub. Depois desse período, o ex-ministro poderá ser novamente indicado pelo país para permanecer no posto, passando então por votação pelos demais países. O processo é considerado uma formalidade e a expectativa é de que o nome indicado pelo Brasil seja o escolhido.

Porém, há precedente de votos contrários a indicações brasileiras em organismos multilaterais.

Em 2010, quando Paulo Nogueira Batista era diretor pelo Brasil no FMI (Fundo Monetário Internacional), após um desentendimento entre ele e o governo colombiano, a Colômbia optou por votar em outro diretor-executivo na eleição seguinte.

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