Professores acharam que pop-up de demissão da Uninove era erro do sistema

Segundo sindicato da categoria, mais de 300 docentes foram desligados nesta semana

São Paulo

Professores demitidos pela Uninove via mensagem de pop-up acharam a princípio que se tratava de um erro do sistema.

De acordo com o sindicato dos professores de São Paulo, a universidade cortou mais de 300 docentes do seu quadro nesta semana. A Uninove não confirma o número de demitidos.

Uma professora de 34 anos que pediu para não ter seu nome divulgado afirma que em um primeiro momento achou que era um comunicado sobre programação.

Tela de computador mostra texto em que demissão é comunicada a funcionários da Uninove
Tela mostra comunicado de demissão via pop-up recebido por professores da Uninove - Reprodução/Sinpro-SP

"Coloquei minhas informações para logar no sistema de aula e fui fazer alguma outra coisa enquanto isso. Quando estava saindo da frente do computador, vi que tinha um aviso. Imagina que eu ia pensar que era um aviso de demissão", afirma.

Conforme outros colegas relatavam estar passando pela mesma situação, a professora achou que era um erro do sistema. "Ninguém estava acreditando, achamos que era um engano. Foi tão inesperado e tão próximo do horário da aula que ninguém levou a sério, parecia um equívoco", afirma.

Outro docente que também pediu anonimato afirma que se surpreendeu com a mensagem. "Para acessar minha página no sistema eu tive que clicar em 'confirmar' na pop-up. Depois disso, quando tentei acessar a sala de aula, já não existia essa opção", diz.

O professor conta que procurou em seguida os coordenadores e o diretor do departamento em que trabalhava há 14 anos para entender o que estava acontecendo. Segundo ele, nenhum deles sabia da demissão.

"Eu tinha programado aulas com convidados de fora ao longo de toda semana, estava com uma sala cheia. Tive que falar para os caras que tinha sido demitido", afirma.

A professora também reclama do desligamento abrupto. "De repente eu não tinha mais acesso ao sistema, não tinha como cumprir o que tinha combinado com os alunos. A aula foi substituída por uma palestra motivacional, ironcamente sobre empatia."

Os cortes geraram revolta entre estudantes, que organizaram um abaixo-assinado virtual que já conta com mais de 26 mil assinaturas.

Prédio da unidade Barra Funda da Uninove, um dos locais onde foi realizada a prova do Enem em novembro de 2019 - Rubens Cavallari/Folhapress - 03.nov.2019

O professor acredita que foi demitido em razão de sua idade (61), o que o deixa perto de alcançar o período de estabilidade pré-aposentadora. Segundo a convenção coletiva da categoria, profissionais com pelo menos três anos de casa não podem ser demitidos durante os 24 meses que antecedem a data da aposentadoria, seja por idade ou por tempo de contribuição.

Segundo ambos, demissões entre os semestres são frequentes na universidade e sempre geram instabilidade e estresse. No entanto, desta vez a ação foi mais impactante em razão da forma como o desligamento foi comunicado e da conjuntura de pandemia.

A decisão da Uninove surpreende porque, de acordo com os professores, a atuação da universidade vinha sendo positiva. "Eles proporcionaram uma infraestrutura muito boa para as aulas online, que têm funcionado muito bem. Recebemos um celular, fazíamos contato pelo 4G sem usar nossa rede wifi. E para os alunos que não tinham acesso à internet em casa eles deram um chip para o celular", afirma o professor.

Para Celso Napolitano, diretor do sindicato dos professores de São Paulo (Sinpro-SP) e da federação da categoria no estado (Fepesp), os cortes na Uninove fazem parte de uma estratégia de redução de custos valendo-se das ferramentas virtuais.

"A universidade percebeu com as aulas remotas uma oportunidade para redução de custos. Em vez de ter vários alunos de direito no mesmo semestre do curso frequentando quatro campi diferentes, cada um com um professor, eles podem 'ensalar' todos numa mesma plataforma com um único professor", afirma.

Esse tipo de reestruturação foi viabilizada por uma portaria do Ministério da Educação que dobrou para 40% o limite da carga horário de cursos presenciais passível de ser ofertada na modalidade a distância, aponta Napolitano.

O Sinpro-SP protocolou nesta terça (23) um dissídio coletivo junto ao Tribunal Regional do Trabalho solicitando a anulação em caráter liminar das demissões na Uninove. Com a ação, o sindicato espera abrir um canal de negociação com a universidade.

"Apesar de ter sido facilitada pela reforma trabalhista de 2017, a demissão em massa, como a que a Uninove acabou de promover, tem enorme impacto social. O fato de ela ocorrer em meio à pandemia e de a mantenedora não ter manifestado nenhuma intenção de negociar ou amenizar o problema, agrava ainda mais a situação", afirmou o Sinpro-SP em nota.

Embora os dois professores ouvidos pela Folha se queixem da forma como foram demitidos pela Uninove, ambos afirmam que voltariam a lecionar na instituição caso seja possível um retorno.

"Tenho todo o interesse do mundo em voltar a dar aula lá. O mercado está terrível, especialmente na minha idade. Eu aceitaria até redução de carga horária, salário, talvez isso fosse melhor do que uma demissão sumária", afirma o professor.

"Eu falo como uma pessoa assalariada. O ego da gente fala 'não volte nunca mais', mas infelizmente não podemos só ouvir essa parte. Temos que ser racionais, temos contas pra pagar", afirma a professora.

Apesar do desejo, nenhum dos dois tem esperança em uma vitória do sindicato na ação contra a Uninove.

Procurada pela reportagem, a Uninove não respondeu. Na noite desta terça (23), a universidade divulgou um comunicado por meio da sua assessoria de imprensa em que afirma agradecer "aos professores que contribuíram e aos que aqui permanecem contribuindo para a excelência e qualidade de nosso ensino".

"Diante da pandemia que atingiu o mundo, tivemos que nos adaptar à nova situação e fomos ao limite para manter nosso quadro funcional e todas nossas obrigações contratuais em dia. Salários dos professores foram garantidos pontualmente e vultosos investimentos em tecnologia realizados. As mensalidades estão sendo renegociadas, tendo em vista a perda do poder aquisitivo de nossos alunos e seus familiares", afirma a instituição na nota.

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