Brasileiro usa auxílio emergencial para comprar comida, diz Datafolha

No Nordeste, chega a 65% o índice dos que utilizam R$ 600 para se alimentar; 40% pediram ajuda do governo

São Paulo

A maioria dos brasileiros que recebem auxílio emergencial do governo federal na pandemia usa o dinheiro principalmente para comprar comida.

É o que revela pesquisa do Datafolha feita em 11 e 12 de agosto, com 2.065 pessoas. A margem de erro é de dois pontos percentuais.

Segundo aferiu o instituto, 53% dos ouvidos afirmam ter usado os R$ 600 mensais que recebem de preferência com sua alimentação.

A seguir vêm como prioridades dos brasileiros pagar contas (25%) e custear despesas domésticas (16%).
Outras respostas somaram 4%, e 1% dos entrevistados usam o dinheiro para comprar remédios, máscaras ou álcool em gel, itens associados ao combate à pandemia do novo coronavírus.

A equipe de Paulo Guedes (Economia) queria que o auxílio fosse de R$ 200, mas o valor triplicou no Congresso, visando aliviar o impacto da paralisação da economia devido ao distanciamento social e à disrupção de setores inteiros, como turismo e restaurantes.

Na semana passada, o ministro disse que o gasto é insustentável além deste mês. Inicialmente, o programa iria de abril a junho, mas foi prorrogado até agosto.

São gastos cerca de R$ 50 bilhões mensais, segundo a equipe econômica. O principal programa social do governo, o Bolsa Família, desembolsou quase R$ 34 bilhões ao longo de todo o ano passado.

Há uma queda de braço no governo, já que há a percepção de que pode haver ganho político com a extensão da ajuda, embora não haja dinheiro visível para tal.

Com efeito, a maior queda na rejeição de Bolsonaro nesta mesma pesquisa, de dez pontos percentuais, ocorreu no Nordeste, região com problemas crônicos de miséria.

As desigualdades ficam evidentes na pesquisa. O gasto com comida sobe para 65% entre nordestinos, 61% entre os mais pobres e 59% entre aqueles com menos instrução.

Claro, aqui se fala dos 40% que se inscreveram no programa. A execução do auxílio melhorou: em maio, só 62% deles haviam recebido alguma parcela da ajuda, e agora são 74%.

Entre quem pediu o auxílio, 54% estão na base da pirâmide de renda, ganhando até dois salários mínimos mensais na família.

Entre os mais ricos, que ganham mais de dez mínimos, 4% afirmaram ter se inscrito no programa. Desses, 39% sacaram o benefício.

Os R$ 600 são a única fonte de renda para 44% dos atendidos, aponta o Datafolha.

O índice sobe a 53% entre quem ganha até dois salários mínimos e 59% entre quem só estudou até o fundamental.

O fator regional pesa: no Nordeste, 52% têm nos R$ 600 a única fonte de renda. O índice cai a 42% no Sudeste.

Também entre moradores do Sudeste, o uso da ajuda para comprar comida cai para 44%, cedendo espaço para o pagamento das contas (33%).

Ao todo, habitantes das regiões Norte e Centro-Oeste são os que mais pediram a ajuda (50%). Nordeste segue com 45% dos moradores, Sudeste e Sul empatam com 36% e 34%, respectivamente.

Como seria previsível, desempregados (75%) e assalariados sem registro em carteira (71%) são os que mais pedem a ajuda. Servidores públicos, por sua vez, somam só 6%.

O uso alimentar é uma preferência de donas de casa (61%), quanto estudantes preferem pagar as contas (49%).

Quando aplicado o filtro racial, nota-se que pretos (43%) e pardos (45%) pedem mais o auxílio que os brancos (34%) e os amarelos (29%) —que é o grupo que, quando usa os R$ 600, aplica preferencialmente em comida (60%).

Entre as pessoas já atendidas pelo Bolsa Família, 14,3 milhões de famílias brasileiras que receberam em média R$ 190 cada uma em 2019, 63% pediram o auxílio federal.

Entre os 78% que já receberam ao menos uma parcela desde o começo do apoio, 59% gastaram com comida, aponta a pesquisa.

Entrevistas feitas por telefone para evitar contato

A pesquisa telefônica, utilizada neste estudo, representa o total da população adulta do país.
As entrevistas são realizadas por profissionais treinados para abordagens telefônicas e as ligações feitas para celulares, utilizados por cerca de 90% da população.

O método telefônico exige questionários rápidos, sem utilização de estímulos visuais, como cartão com nomes de candidatos, por exemplo.

Assim, mesmo com a distribuição da amostra seguindo cotas de sexo e idade dentro de cada macrorregião e da posterior ponderação dos resultados segundo escolaridade, os dados devem ser analisados com alguma cautela por limitar o uso desses instrumentos.

Na pesquisa, feita dessa forma para evitar o contato pessoal entre pesquisadores e respondentes, o Datafolha adotou as recomendações técnicas necessárias para que os resultados se aproximem ao máximo do universo que se pretende representar.

Todos os profissionais do Datafolha trabalharam em casa, incluídos os entrevistadores, que aplicaram os questionários através de central telefônica remota.

Foram entrevistados 2.065 brasileiros adultos que possuem telefone celular em todas as regiões e estados do país. A margem de erro é de dois pontos percentuais. A coleta de dados aconteceu nos dias 11 e 12 de agosto de 2020.

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