Alimentos continuam a pressionar e inflação sobe 0,24% em agosto

Arroz já subiu quase 20% no ano, e a alta do feijão passa de 30% em algumas regiões

Rio de Janeiro

Os preços da gasolina e dos alimentos voltaram a pressionar o IPCA, índice oficial de inflação no país, que fechou agosto em 0,24%, contra 0,36% no mês anterior. Foi o maior índice para o mês desde 2016, informou nesta quarta (9) o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

Ainda assim, a inflação de 12 meses (2,44%) permanece abaixo do piso da meta estipulada pelo Banco Central, de 2,50%, e em linha com o esperado pelos analistas (0,23% no mês e 2,42% no ano pela pesquisa da Reuters com analistas e 0,24% e 2,44%, respectivamente, na da Bloomberg).

Por outro lado, lembra o IBGE, a aceleração do preço dos alimentos é mais prejudicial às famílias de baixa renda, que sentem mais as despesas com comida em seu orçamento, principalmente em um momento de elevado desemprego e perda na renda.

É um cenário que vem mobilizando o governo, que já cogita redução das alíquotas de importação para enfrentar a alta nos produtos da cesta básica. O grupo Alimentação e bebidas registrou inflação de 0,78% no mês. No ano, a alta acumulada é de 4,91%.

A pressão sobre o bolso dos brasileiros com menor rendimento é reforçada pelo resultado do INPC, índice que mede a inflação desse grupo e subiu 0,45% no mês, a maior alta desde 2012. Neste indicador, o preço dos alimentos subiu 0,80%.

O gerente da pesquisa do IBGE, Pedro Kislanova diz que a escalada dos preços se dá por uma série de fatores. O arroz, hoje um dos principais vilões, tem problemas de oferta. Já o óleo de soja está pressionado pela alta do dólar.

Mas é fato que, desde o início da pandemia, quando muitos brasileiros passaram a comer em casa, está cada vez mais caro colocar comida na mesa. A inflação do grupo Alimentação no domicílio foi de 1,15% em agosto. No ano, a alta acumulada é de 6,10%.

“O arroz (3,08% em agosto) acumula alta de 19,25% no ano e o feijão, dependendo do tipo e da região, já tem inflação acima dos 30%. O feijão preto, muito consumido no Rio de Janeiro, acumula alta de 28,92% no ano e o feijão carioca, de 12,12%”, destacou Kislanov.

O gerente do IBGE disse ainda que a elevada demanda chinesa é outro fator que pressiona os preços, ctando como exemplo as carnes, que subiram 3,33% em agosto, após alta de 3,68% em julho. "De maneira geral, há esse efeito cambial que estimula as exportações", afirmou.

Preocupado com os efeitos da alta nos preços, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) pediu na semana passada "patriotismo" dos donos de supermercados no país. "Estou pedindo um sacrifício, patriotismo para os grandes donos de supermercados para manter na menor margem de lucro", disse.

O governo acionou ainda a Senacon (Secretaria Nacional do Consumidor) para cobrar de produtores de arroz explicações sobre a alta.

A elevação no preço da cesta básica ocorre em um momento de alto desemprego e perda na renda do trabalhador. No segundo trimestre, a taxa de desemprego atingiu 13,3%, a maior para o período, ainda sem refletir todos os efeitos da pandemia no mercado de trabalho.

A avaliação é reforçada pelo fato de que, após o início da pandemia, o número de pessoas fora da força de trabalho superou o contingente que está trabalhando pela primeira vez na história da pesquisa do IBGE em seu formato atual.

Os economistas do banco Fator José Francisco de Lima Gonçalves e Mariana Major de Oliveira poderam que os números mostram um choque de preços no atacado, mas que a tendência ainda é de desaceleração da inflação.

"Não se deve, portanto, exagerar na avaliação dos efeitos do choque de preços das commodities. Entendemos que o IPCA prosseguirá na trajetória benigna que vem mostrando nos últimos anos e que abriu espaço para a queda nos juros", escreveram em relatório.

Assim como nos dois meses anteriores, o maior impacto sobre a inflação veio do preço da gasolina, que subiu 3,22% em agosto, respondendo a reajustes promovidos pela Petrobras. A pressão altista foi suavizada pela queda no custo da educação, que caiu 3,47% puxada pelos descontos dados em cursos regulares (-0,21%) após o início da pandemia.

Trata-se de um impacto pontual também, já que a coleta desse item não é feita todos os meses e deixou de ser feita em março, empurrando para agosto a comparação com o período pré-pandemia. Sem isso, a inflação teria sido de 0,48%, disse Kislanov.

O IBGE vem detectando pressão também sobre os preços dos materiais de construção, como o tijolo (9,32%) e o cimento (5,42%), que já haviam subido em julho (4,13% e 4,04%, respectivamente). Com demanda aquecida e apoio do auxílio emergencial, o comércio desses produtos já recuperou o nível pré-crise.

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