Descrição de chapéu

A década do descontentamento

Do lado positivo, a demonização da política parece ter arrefecido e, talvez,seja possível elaborar novo consenso para evitar mais uma década perdida

Nelson Barbosa

Professor da FGV e da UnB, ex-ministro da Fazenda e do Planejamento (2015-2016). É doutor em economia pela New School for Social Research

A economia brasileira teve outra década perdida. Segundo estimativa de colegas do Ibre-FGV (Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas), em 2011-20, o “crescimento” médio da renda por habitante deve ser negativo em 0,6% ao ano.

O número é o mesmo registrado nos anos 1980, quando sofremos os efeitos da crise da dívida externa e da alta inflação herdadas da ditadura militar. Por quê? A resposta não é simples, mas tentarei resumir.

Começamos os anos 2010 no embalo do bom desempenho anterior. Era a época do “Brasil de Todos”, petróleo como passaporte para o futuro e preparação para sediar Copa do Mundo e Olimpíada.

Redes sociais Caricatura Nelson Barbosa
Nelson Barbosa foi ministro da Fazenda entre dezembro de 2015 e maio de 2016 - Ilustração Luciano Veronezi

Na política econômica, o foco do triênio 2011-13 foi promover “inclusão da porta para fora”. Como já haviam ocorrido grandes ganhos sociais via transferência de renda e elevação do salário mínimo, era necessário avançar na oferta de serviços públicos universais (educação, saúde, habitação, transporte e segurança).

Porém, em contraste com as ambições brasileiras, o cenário internacional começou a piorar em 2011, devido a turbulências nos Estados Unidos (Obama versus republicanos), Europa (as “tragédias gregas”) e China (desaceleração de crescimento). Ainda assim o governo brasileiro tentou manter o ritmo anterior de expansão.

Do lado monetário, houve medidas de controle de crédito e preços para combater a inflação sem grande elevação da Selic. Do lado fiscal, houve operações não recorrentes para compatibilizar metas fiscais pedidas pelo mercado com demandas sociais da população. Não deu certo (autocrítica). A inflação permaneceu alta, a renda desacelerou, a situação fiscal ficou mais frágil e, como acontece no fim de uma bonança, a população foi às ruas em protesto.

O triênio 2014-16 foi o período do “nós contra eles”. A situação internacional piorou ainda mais e contribuiu para 40% da grande recessão daquele período. Os outros 60% foram internos, resultado de erros política econômica e conflitos políticos.

Na economia, a eleição de 2014 adiou ajustes fiscais e monetários inevitáveis, que acabaram sendo feitos em excesso ao longo de 2015 (outra autocrítica). Quando o governo procurou corrigir a situação, em 2016, o clima político atrasou novamente os ajustes.

Na política, depois de perder quatro eleições seguidas, a oposição ao PT apelou a mecanismos não democráticos para chegar ao poder.

Em nome do combate à corrupção, houve destruição de empregos e empresas, no que hoje sabemos ter sido um projeto político de algumas pessoas. Houve, também, o “quanto pior melhor” por parte de grupos políticos desesperados com o avanço no combate à corrupção viabilizado pelos governos do PT.

O triênio de 2017-19 começou com alguma esperança, por parte daqueles que achavam que era só tirar o PT do governo, mas acabou em desilusão. Em um processo de “exclusão da porta para dentro”, a agenda do “Brasil de Todos” foi cancelada em prol de uma ponte para o passado, com retrocesso em várias conquistas sociais da década anterior e fragilização do mercado de trabalho.

Focando a política macroeconômica, tivemos consolidação fiscal prematura e atrasos na redução da Selic em 2017-19. A inflação despencou, mas à custa de lento crescimento do PIB e alto desemprego, gerando mais descontentamento da população. A demonização da política continuou forte e, em uma eleição censurada, o país escolheu um falso Messias.

Entramos em 2020 sem rumo e sofremos o impacto de um meteoro. A Covid-19 gerou parada súbita da economia e forçou o governo a adotar um grande programa de transferência de renda. A iniciativa deu certo, amenizou a crise e mostrou, mais uma vez, que apostar no “Brasil de Todos” funciona. Apesar disso, fechamos este ano com novas promessas de exclusão da porta para dentro.

Do lado positivo, a demonização da política parece ter arrefecido e, talvez, seja possível elaborar novo consenso para evitar mais uma década perdida. Nesse processo, nós, economistas, podemos contribuir apontando custos, benefícios e riscos de diferentes medidas, mas a solução será sempre mais política do que técnica. Boa nova década a todos nós!

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Artigo é o terceiro de série com ex-ministros da Fazenda da década

Este artigo faz parte de uma série que reúne textos de opinião de ex-ministros da Fazenda na década 2011-2020. São eles Guido Mantega (2006-2014), Joaquim Levy (2015), Nelson Barbosa (2015-2016), Henrique Meirelles (2016-2018) e Eduardo Guardia (2018).

Nelson Henrique Barbosa Filho foi o terceiro e último ministro da Fazenda no governo Dilma. Assumiu o cargo em dezembro de 2015. Deixaria o posto em maio de 2016, quando a presidente foi afastada após a abertura do processo de impeachment.

Nascido no Rio de Janeiro em 1969, formou-se em economia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro em 1992. Concluiu o mestrado na mesma universidade em 1995 e o doutorado na New School of Social Research, em Nova York, em 2001.

No governo federal, passou por Banco Central (1994 a 1997), Ministério do Planejamento (2003), BNDES (2005-2006) e Ministério da Fazenda (2006-2012).

Em sua primeira declaração como ministro da Fazenda, afirmou que a política fiscal e econômica como um todo continuavam na direção de buscar o equilíbrio fiscal, o controle da dívida pública e elevar o resultado primário da União.

No posto, defendeu a volta da CPMF, apontou a necessidade de reformas com efeitos no longo prazo, como a previdenciária, e tentou implementar medidas para reaquecer a economia. Porém encontrou ambiente político conturbado. Reconheceu a dificuldade ao dizer que estava na hora de a política ajudar na recuperação da economia.

Desde maio de 2017, Barbosa é colunista da Folha, onde escreve às sextas-feiras no caderno Mercado.

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