Descrição de chapéu Financial Times

Atraso de vacinas em países mais pobres ameaça economias desenvolvidas

Relatório da OMS mostra prejuízos causados pela disrupção no comércio global e nas redes de suprimentos

Jonathan Wheatley
Londres | Financial Times

As economias desenvolvidas enfrentarão um golpe significativo na recuperação econômica da pandemia do coronavírus se não ajudarem os países em desenvolvimento a acelerar seus programas de vacinação, segundo um relatório que será publicado nesta segunda-feira (25) pela OMS (Organização Mundial de Saúde).

Se a produção de vacinas nesses países menos desenvolvidos continuar no ritmo atual, as economias avançadas vão sofrer prejuízos de até US$ 2,4 trilhões (R$ 13,13 trilhões) –3,5% de seu Produto Interno Bruto anual anterior à pandemia– por causa de disrupções no comércio global e nas redes de suprimentos, segundo o estudo.

"Quanto mais esperarmos para fornecer vacinas, testes e tratamentos para todos os países, mais depressa o vírus dominará, maior o potencial de surgimento de novas variantes, maior a probabilidade de que as vacinas atuais se tornem ineficazes e mais difícil será a recuperação de todos os países", disse Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor-geral da OMS. "Ninguém está a salvo a menos que todos estejam a salvo."

A pesquisa ilustra a natureza interconectada da recuperação econômica global e significa que mesmo que os países mais ricos consigam vacinar imediatamente sua população mais vulnerável ainda terão de enfrentar vulnerabilidades econômicas importantes com a pandemia.

"As economias emergentes e em desenvolvimento estão ligadas às economias avançadas por meio de exportações e importações, e não apenas de bens acabados", disse Sebnem Kalemli-Ozcan, da Universidade de Maryland, principal autora do relatório.

"Se esses países não receberem a vacina, ou a receberem tarde, não vão se recuperar, não vão suprir os bens intermediários necessários para as economias avançadas e não terão o mesmo nível de demanda pelas exportações das economias avançadas."

De modo geral, um atraso em controlar a pandemia nas economias emergentes eliminaria cerca de US$ 4,4 trilhões da produção mundial neste ano, ou cerca de 5,7% da produção global anual anterior à pandemia, segundo a pesquisa, que foi encomendada pela Câmara de Comércio Internacional (ICC) e foi analisada pelo jornal Financial Times. Mais da metade do impacto recairia sobre países de alta renda, descobriu o estudo.

A OMS advertiu sobre um "fracasso moral catastrófico" global conforme os países mais pobres ficarem atrás dos ricos na obtenção de vacinas.

A unidade Covax –que foi montada no ano passado pela OMS, Gavi e Coalizão para Inovações de Preparo para Epidemias para garantir a distribuição equitativa de vacinas– se esforçou para mobilizar o apoio de países ricos e enfrenta uma escassez de recursos de US$ 27 bilhões.

Os ministros da Economia da Noruega e da África do Sul pediram que os ministros do G20, da OCDE e dos países membros da Covax se reúnam em 29 de janeiro para discutir como cobrir a lacuna nas verbas.
Isso produziria um retorno sobre os investimentos de mais de 166 vezes, ao evitar a perda de produção prevista, segundo o estudo do ICC.

A pesquisa examinou elos comerciais e cadeias de suprimentos de 65 países e 35 setores empresariais e estimou o impacto sobre a produção comercial e econômica em vários cenários de vacinação, conforme a necessidade dos trabalhadores de cada setor precisarem atuar próximos uns dos outros.

Sob o cenário mais extremo, em que os países ricos recebem vacinas neste ano, mas os países emergentes e em desenvolvimento não, o golpe na produção global seria de US$ 9,2 trilhões.

O cenário do caso básico, causando uma perda de produção de US$ 4,4 trilhões, supõe que as economias avançadas vacinem suas populações vulneráveis até o final de abril e que as economias emergentes e em desenvolvimento alcancem o mesmo ponto no início do próximo ano.

Kalemli-Ozcan advertiu que há alguns riscos que essa estimativa não cobre, incluindo a possibilidade de se levar mais de um ano para alcançar populações vulneráveis em países pobres, e que o vírus possa sofrer mutação e continuar se espalhando nas economias avançadas mesmo que alcancem níveis críticos de inoculação.

Tradução de Luiz Roberto M. Gonçalves

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