Um país mais arrumado não retiraria todo o auxílio de uma vez, diz Arminio Fraga

Ex-presidente do Banco Central vê a volta do estado de calamidade pública em 2021

São Paulo

Para Arminio Fraga, ex-presidente do Banco Central e sócio da Gávea Investimentos, o auxílio emergencial, que acabou ao fim de 2020, deveria ter um fim mais paulatino.

“Um país mais arrumado não retiraria todo o auxílio de uma vez. É meio como uma cortisona na medicina. Você deu uma dose enorme, e talvez até exagerada. No entanto, agora, a falta de espaço fiscal e de credibilidade cria um constrangimento para que se reintroduza o estado de calamidade em 2021”, disse ele em evento da Fitch nesta quinta-feira (21)​.

Fraga diz ver o quadro político favorável a mais auxílios e uma reação oposta do mercado.

"A minha expectativa é que o governo seja reativo. Se os problemas se mostrarem mais graves, pode ser que se aprove algum coisa na ponta da faca, no medo", disse.

Armínio Fraga, economista e ex-presidente do Banco Central (1999- 2002) na gestão FHC e é sócio-fundador da gestora Gávea Investimentos (2003)
Arminio Fraga, economista e ex-presidente do Banco Central (1999- 2002) na gestão FHC e é sócio-fundador da gestora Gávea Investimentos (2003) - Ricardo Borges/Folhapress

O economista diz acreditar em uma vitória contra o vírus em 2021, mas avalia que os demais desafios que o país enfrenta irão persistir em 2022.

“Ficou muito claro desde o início da pandemia que a saída econômica dependeria da saída sanitária, que parece estar prejudicada pela logística e pela falta de entusiasmo."

No campo econômico, ele critica a falta de reformas. "Mesmo as expectativas modestas de aprovação de uma PEC [proposta de emenda à Constituição] emergencial, alguma coisa que ancorasse o lado fiscal, não aconteceram.”

Dentre as reformas para equilibrar as contas públicas, ele vê chances para a aprovação da tributária, com uma união de PIS e Cofins.

“Vejo pouco espaço de uma reforma administrativa, do Estado, ela não tem apoio nenhum do topo. É uma pena, seria um passo crucial”, afirmou.

Com o elevado risco fiscal, Fraga vê os investimentos no Brasil pressionados.

"O setor público está bastante inchado e não sobra espaço no Orçamento de 2021 para investir e isso tem um impacto enorme na capacidade do país crescer. Menos que 1% do PIB [Produto Interno Bruto] é muito pouco."

O Orçamento de 2020 previa 0,3% do PIB (R$ 22,4 bilhões) para investimentos, menos da metade do gasto realizado em 2019. Em valores corrigidos pela inflação, é a menor verba desde 2004, quando foram investidos R$ 20,8 bilhões.

Fraga aponta que a maior parte dos investimentos no país teriam que vir do setor privado, como costuma ser a regra. Este número, porém, também é baixo, segundo o economista.

Em 2019, a taxa de investimento no país foi de 15,4% do PIB, de acordo com o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

"A [saída da] Ford foi um extra pra quem não tinha percebido que o país está parado."

Segundo Fraga, porém, o contexto mundial é favorável ao Brasil no momento, com o preço de matérias primas em alta.

"Vejo com bons olhos a derrota do [ex-presidente dos EUA Donald] Trump. Ele estava levando os Estados Unidos para um lugar complicado. A conjuntura internacional para o Brasil hoje é muito boa, mas não estamos condições de aproveitar."

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