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Eric Schmidt

Abordagem incorreta dos EUA quanto ao 5G ameaça futuro digital do país, diz ex-presidente do Google

Tecnologia será mais marketing do que uma verdadeira mudança de marco na velocidade de transmissão de dados

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Eric Schmidt

Ex-presidente-executivo e ex-conselheiro do Google, é um dos fundadores da Schmidt Futures

Financial Times

Em um mundo no qual a tecnologia da computação é chave para a inovação e competitividade, uma infraestrutura digital forte é essencial para a vitalidade econômica e a segurança nacional. Investir nas redes de telecomunicação 5G deveria ser uma grande prioridade para os Estados Unidos e seus aliados –especialmente porque o principal adversário geoestratégico, a China, está muito à frente.

O leilão do 5G conduzido no mês passado pela Comissão Federal de Comunicações (FCC, na sigla em inglês), que arrecadou o recorde de US$ 81 bilhões, está sendo celebrado como uma vitória para a tecnologia. Na verdade, ele representa um revés digital com que os Estados Unidos e seus aliados mal podem arcar.

O Leilão 107 vendeu 280 MHz de frequências na valiosa “Banda C” do espectro –frequências ideais para as redes 5G– a companhias de telecomunicações, para o desenvolvimento de redes. Mas não impôs requerimentos significativos quanto à construção da infraestrutura de rede necessária. As quantias imensas que os ganhadores pagaram pelas frequências reduzirão sua capacidade financeira para colocá-las em uso prático. O resultado líquido do leilão deve ser desinvestimento e downsizing (enxugamento visando redução de custos).

Eric Schmidt, ex-presidente-excutivo do Google durante conferência na Califórnia - Lucy Nicholson - 29.abr.2019/Reuters

Ao mesmo tempo, US$ 81 bilhões representam uma ninharia, em termos governamentais, equivalente a menos de um mês das emissões de títulos de dívida pelos Estados Unidos, e é improvável que o dinheiro seja gasto nas redes 5G de que o país precisa.

Os desfechos são previsíveis. Os americanos terão de encarar preços mais altos e serviços digitais mais fracos –a internet de ontem amanhã. Foi o que aconteceu quando as companhias de telecomunicações europeias pagaram demais durante os leilões de frequências para redes 3G no começo da década de 2000. A Europa ainda está se recuperando de uma década digital perdida.

Em jogo está não só a velocidade da internet mas a preservação da prosperidade. As maiores companhias mundiais de tecnologia são americanas, hoje, porque as empresas dos Estados Unidos criaram os componentes centrais da infraestrutura de dados de alta velocidade na era 4G-LTE, o que significa que o software delas estava posicionado para o sucesso.

Esse não é o caso, nas redes 5G. Apenas 24% dos europeus tinham acesso a uma rede 5G, no final do ano passado. O 5G nos Estados Unidos é mais marketing do que uma verdadeira mudança de marco na velocidade de transmissão de dados. Em contraste, a China em breve terá uma rede nacional com velocidade de um gigabit por segundo. Com a vantagem inicial da China, a próxima geração de gigantes da tecnologia, e os produtos e serviços que eles criam, não será europeia ou americana, mas sim chinesa.

Minha equipe de pesquisa estima que uma rede na banda C com velocidade na casa dos gigabits e cobrindo 80% do território dos Estados Unidos exigiria um milhão de novas torres de telefonia móvel e custaria US$ 70 bilhões. Sem ela não haverá 5G e não haverá base para a construção do 6G. A economia digital dos Estados Unidos se tornaria uma retardatária permanente.

Precisamos de estratégias inovadoras e agressivas para promover uma rápida construção de infraestrutura. Isso mostrará ao mundo que ainda existem alternativas à hegemonia digital chinesa.

Sugiro três maneiras de fazê-lo: o Congresso deveria usar os proventos do Leilão 107 para constituir um fundo especial de infraestrutura de dados e oferecer assistência direta aos estados para que construam infraestrutura física para redes 5G. A arrecadação da qual as autoridades abririam mão com isso seria recuperada pelo estímulo documentado à economia que uma alta na velocidade das redes propicia.

Se os Estados Unidos leiloarem novas frequências, devem insistir em que os vencedores construam infraestrutura. Uma verdadeira rede 5G exigirá mais que os 180 MHz de banda vendidos no recente leilão.

Japão, China, Coreia do Sul, Reino Unido e Canadá vão destinar em média 660 MHz do espectro de banda média a redes 5G, até 2023. Futuros leilões devem estabelecer exigências rigorosas de construção, com penalidade para quem não as cumpra.

Alternativas aos leilões devem ser estudadas. O Departamento de Defesa americano propôs compartilhar frequências controladas pelo governo com fornecedores comerciais, se estes construírem infraestrutura rapidamente.

O Leilão 107 colocou o que pode ser o penúltimo prego no caixão da liderança tecnológica mundial dos Estados Unidos. As autoridades precisam procurar todos os meios disponíveis para reforçar a infraestrutura digital, em lugar de se concentrarem em encher os cofres do governo.

Tradução de Paulo Migliacci

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