Descrição de chapéu petrobras

Bolsonaro diz que fará novas trocas após mudar comando da Petrobras

'Se tudo tivesse que depender de mim, não seria este o regime que nós estaríamos vivendo', afirmou

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Campinas e Brasília

O presidente Jair Bolsonaro sinalizou neste sábado (20) que haverá mais trocas em seu governo, um dia após indicar o general Joaquim Silva e Luna para o comando da Petrobras no lugar de Roberto Castello Branco após os últimos reajustes nos combustíveis. A intervenção foi mal recebida pelo mercado e fez a empresa pública perder bilhões em valor de mercado.

"Vocês aprenderão rapidamente que pior do que uma decisão mal tomada é uma indecisão. Eu tenho que governar. Trocar as peças que porventura não estejam dando certo", afirmou o presidente a novos soldados do Exército, numa formatura da Escola Preparatória de Cadetes do Exército, em Campinas (SP).

"E se a imprensa está preocupada com a troca de ontem, na semana que vem teremos mais. O que não falta para mim é coragem para decidir pensando no bem maior da nossa nação. O mais fácil é se acomodar, é se aproximar daqueles que não têm compromisso com a pátria."

Presidente Jair Bolsonaro em Cerimônia de Entrada dos Novos Alunos pelo Portão da EsPCEx, em Campinas
Presidente Jair Bolsonaro em Cerimônia de Entrada dos Novos Alunos pelo Portão da EsPCEx, em Campinas; presidente disse que haverá novas trocas em seu governo - Isac Nóbrega/Divulgação Presidência da República

Em seu discurso, Bolsonaro deu a entender que não é capaz de fazer tudo o que gostaria, não neste contexto democrático. "Alguns acham que eu posso fazer tudo. Se tudo tivesse que depender de mim, não seria este o regime que nós estaríamos vivendo. E apesar de tudo eu represento a democracia no Brasil."

Em transmissão ao vivo pela internet, o presidente fez críticas ao atual chefe da Petrobras. Embora tenha afirmado que não houve interferência na estatal ele sinalizou que ajustes serão feitos na forma de cobrança dos combustíveis.

“Quando há um aumento de combustível, o pessoal aponta e atira para o presidente da República. Isso vai começar a mudar, começou a mudar já. Temos que tirar quem está na frente da Petrobras. E uma curiosidade. Vocês sabiam que desde março do ano passado o presidente da Petrobras está em casa, assim como toda a sua diretoria? Não dá para estar à frente de uma estatal dessa forma. O novo presidente, caso aprovado pelo conselho, espero que seja aprovado, vai dar uma nova dinâmica à Petrobras, sem interferir, interferência zero, mas vai ter transparência e previsibilidade”, disse.

Somente na noite de sexta, a Petrobras registrou R$ 28,2 bilhões em redução de valor de mercado no Brasil e outros R$ 30 bilhões com os papéis no exterior, segundo banqueiros e gestores de investimentos que falaram com a Folha sob anonimato.

A substituição despertou má reação do mercado, levando investidores a iniciar um desembarque das ações da estatal. As perdas acumuladas até a sexta-feira (19) somam R$ 60 bilhões e devem chegar a R$ 100 bilhões nesta segunda (22) devido ao que chamam de intervenção do governo na companhia.

Em relação às mudanças na Petrobras, os presidentes da Câmara e do Senado evitaram criticar diretamente o presidente Jair Bolsonaro (sem partido).

Ao participar de uma transmissão ao vivo do Grupo Prerrogativas, o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG), afirmou que as nomeações para os cargos da administração são prerrogativas do presidente. Pacheco também afirmou não ver uma "militarização" das empresas estatais.

"Então se é uma prerrogativa que decorre da Constituição e da lei, é possível que ele a exerça. Em relação ao fato de escolher membros das Forças Armadas, o que eu considero é que nas Forças Armadas há nomes absolutamente experimentados, qualificados para a ocupação dos postos de governo", disse o senador.

"E eu definitivamente não posso recriminar isso, não [posso] entender isso como um movimento de militarização, mas de escolhas de pessoas que, dentro da confiança do presidente da República, possam exercer esses papéis. E mais um motivo para eu não recriminar, porque, se estivesse no papel de presidente da República, talvez o meu governo fosse composto por grande parte de advogados", completou, em referência ao fato de ser advogado criminalista.

Pacheco também afirmou que cabe aos parlamentares compreender e colaborar para que a situação "dê certo". Por outro lado, disse que, se houver problemas, o Congresso também detém instrumentos para efetuar substituições necessárias de membros da administração.

O presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira (PP-AL), por sua vez, rebateu a visão de que Bolsonaro comete ingerência em assuntos econômicos.

Usando com ironia, entre aspas, uma expressão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Lira afirmou que a independência do Banco Central é uma "sinalização econômica com impacto profundo", como uma prova do caráter liberal do governo.

"É preciso olhar o momento acima do nervosismo e das aflições. 'Nunca antes na história desse país', um Poder Executivo abriu mão de tamanho poder como a criação de um banco central independente", escreveu Lira em suas redes sociais.

"Essa sim é uma sinalização econômica com impacto profundo e permanente na economia no curto, médio e longo prazos. As polêmicas administrativas sobre provimento de cargos, por mais relevantes, não sombreiam nem tiram o brilho dessa grande conquista para o país", completou.

Bolsonaro, um mandatário afeito a ataques contínuos a jornalistas, diretamente ou por meio de aliados, voltou a dizer na formatura em Campinas que trata bem esses profissionais. "Nunca a imprensa teve um tratamento tão leal e cortês como o meu. Se é que alguns acham que não é dessa maneira, é que não estão acostumados a ouvir a verdade."

Um relatório feito pela ONG Repórteres Sem Fronteiras revelou que, em 2020, Bolsonaro e pessoas do seu entorno promoveram 580 ofensas a profissionais e empresas de comunicação. O presidente e seus filhos Eduardo e Carlos estão no topo do ranking de “predadores da liberdade de imprensa”, segundo a organização.

Em janeiro deste ano, o deputado Eduardo Bolsonaro foi condenado a indenizar a jornalista Patrícia Campos Mello, repórter da Folha, em R$ 30 mil por danos morais —cabe recurso da decisão. A repórter acionou a Justiça após ataque, com ofensa de cunho sexual. Em transmissão ao vivo em maio de 2020, Eduardo afirmou que a jornalista “tentava seduzir” para obter informações que fossem prejudiciais ao seu pai.

A movimentação do lado de fora da escola de cadetes começou por volta das 7h. Além das duas filas de militares e familiares prontos para a formatura dos novos soldados do Exército, centenas de apoiadores de Bolsonaro também aguardavam a chegada do presidente em Campinas.

Polícia Militar, Guarda Municipal e a Polícia do Exército montaram um esquema de segurança. Estava também prevista uma carreata contra o presidente que chegaria próxima à Escola de Cadetes. Agentes da Empresa Municipal de Desenvolvimento de Campinas (Emdec), que gerência o trânsito do município, fizeram um bloqueio para evitar confrontos.

Sem máscaras, aglomerados, com bandeiras, cartazes e os gritos tradicionais dos apoiadores, Bolsonaro chegou à Escola por volta das 9h10. Entrou direto, sem cumprimentar quem o aguardava pelo lado de fora.

Deu início à cerimônia de formatura de 419 alunos, sendo 37 mulheres, que vão fazer a academia de novos cadetes do exército pelos próximos quatro anos.

O próprio Bolsonaro passou pela Escola de Cadetes de Campinas em 1973, antes de se formar na Academia das Agulhas Negras.

Poucos são aqueles que tocam sobre assuntos considerados espinhosos, como a prisão do deputado federal Daniel Silveira.

"Eu não concordo com a ação do deputado, mas acho que não é o Supremo Tribunal Federal que deveria avaliar essa situação", diz Valdira Santis, 56, que segurava um cartaz dizendo que o Parlamento é "covarde".

Por volta das 13h, Bolsonaro deixou a Escola de Cadetes, e seus apoiadores se aglomeraram em volta do carro da comitiva. Sem máscara, o presidente apenas desceu do veículo e os cumprimentou.

Também neste sábado (20), o secretário de Comunicação do governo federal, Fabio Wajngarten, disse em rede social que a mudança no comando da Petrobras é um ato corriqueiro e cabe ao presidente Bolsonaro escolher o novo presidente da petroleira.

"Está próximo o fim do mandato do atual gestor da estatal e o presidente reiterou que não interferirá na empresa. O mercado vai absorver a troca com tranquilidade", disse.

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