Tecnologia e alfaiataria ajudam a buscar fórmula da camiseta perfeita

Empresas usam algoritmo e tabela de medidas para tentar criar peça que caia bem em qualquer corpo

São Paulo

Empresas do setor têxtil estão tentando produzir a camiseta masculina básica perfeita. O conceito é subjetivo, mas a ideia é que a peça seja confortável e caia bem em todos os tipos de corpo. 

Os empresários acreditam que a mistura entre matéria-prima de qualidade e tecnologia para o desenho dos modelos pode ajudar a chegar lá.

Criada em 2017, a Oficina já produzia camisas sob medida e tinha os dados (tamanho de bíceps, de antebraço, da circunferência etc.) de 10 mil clientes. Colocou-os então num algoritmo, que permitiu à marca desenhar as medidas da sua camiseta.

Rodrigo Ootani, 33, sócio-fundador da Oriba 
Rodrigo Ootani, 33, sócio-fundador da Oriba  - Keiny Andrade/Folhapress

“Assim conseguimos conceber um caimento perfeito para o cliente médio. Criamos os nossos tamanhos (P, M, G, GG e GGG) com base nas medidas reais desses brasileiros”, diz Felipe Siqueira, 32, cofundador da empresa. O modelo começou a ser vendido em fevereiro de 2018.

A marca usa o algodão pima, do norte do Peru. A confecção da peça também é feita lá. Essa variedade de tecido tem fios longos e finos, o que gera um produto com toque sedoso. Além disso, é mais resistente que outros algodões.

A camiseta básica (R$ 199) é hoje o carro-chefe da Oficina. No ano passado, foram vendidas 26 mil unidades (a que mais sai é a preta). Neste ano, a empresa quer aumentar o número em 75%. 
A companhia, que tem lojas no Rio e em São Paulo, faturou R$ 20 milhões em 2019 e deve crescer 50% em 2020.

A Basico.com também usa o pima para confeccionar seus modelos principais de camiseta (R$ 148) desde quando abriu, em 2013 . À época, a empresa só vendia pela internet. 

Depois, com o aumento do dólar e, consequentemente, de seus custos de produção, toda feita no Peru, criou uma linha mais acessível, fabricada a partir de outro algodão, o tanguis, encontrado no sul do país andino —a planta é a mesma do pima, o que muda são as condições climáticas sob as quais é cultivada. 
A fundadora da marca, Dedé Bevilaqua, 45, diz que, além da matéria-prima, o segredo para uma uma peça cair bem está nos ombros.

Dedé Bevilaqua, 45, sócia-fundadora da Basico.com 
Dedé Bevilaqua, 45, sócia-fundadora da Basico.com  - Felipe Gabriel/Projetor/Folhapress

“Se encaixar bem aí, já é 80% do caminho andado. Eu usei uma tabela de alfaiate e, depois, ajustei. Fiz uma peça básica com o cuidado de uma alfaiataria”, diz ela, que passou dois anos estudando e desenhando as camisetas. 

A Básico.com cresceu e abriu duas lojas físicas, ambas em São Paulo. No ano passado, vendeu cerca de 20 mil dessas camisetas. A expectativa para este ano é de 25 mil. A empresa faturou R$ 9 milhões em 2019 e deve aumentar a cifra para cerca de R$ 10 milhões em 2020.

A Oriba, outra marca que busca a camiseta básica perfeita, oferece seus modelos (R$ 75) em nove tamanhos diferentes. Cada um dos tradicionais P, M, G e GG tem duas versões: uma longa e outra curta. Há ainda o GGG.

“A diferença entre as duas opções está só no comprimento. A largura é sempre a mesma”, diz Rodrigo Ootani, 33, sócio da companhia.

Isso tenta refletir a heterogeneidade do corpo dos brasileiros, afirma ele.

A empresa passa por uma transição. Após aproximadamente cinco anos trabalhando com um algodão brasileiro orgânico, também vai começar a usar o pima peruano.

“Esperamos um tempo para entender o consumo do cliente. Agora, vamos tentar trazer esse algodão com um preço mais baixo que o dos concorrentes”, diz Ootani.

A marca planeja uma expansão para este ano. Uma das razões para isso é exatamente a mudança da matéria-prima. 

A Oriba, que hoje tem três lojas, pretende abrir mais cinco no ano que vem, em São Paulo e no Rio. A companhia vendeu cerca de 10 mil camisetas no ano passado. Neste ano, pretende comercializar 45 mil e atingir um faturamento de R$ 20 milhões, ante os R$ 6 milhões de 2019.

Camisetas em loja da Oficina em São Paulo
Camisetas em loja da Oficina em São Paulo - Divulgação

Mas há quem discorde de que seja possível produzir uma peça que vista bem todo e qualquer homem brasileiro.

Para o pesquisador de moda Flávio Sabrá, fabricar uma camiseta que se ajuste bem a todos os biótipos é inviável. 

Quando trabalhava no Senai-Cetiqt, divisão do órgão voltada à indústria têxtil,  ele conduziu um estudo sobre as medidas do corpo do brasileiro. A pesquisa envolveu 10 mil pessoas, de todas as regiões do país.
“Para cair bem em todos, a camiseta precisaria ter uma vastíssima gama de tamanhos”, afirma. Seriam necessários no mínimo 18 tamanhos, pelo cálculo de Sabrá, hoje coordenador do curso de produção de moda do Instituto Federal do Rio de Janeiro.

Já Marcio Ito, professor de planejamento de coleção e de produto na faculdade Santa Marcelina, vê a camiseta perfeita como algo que a tecnologia pode ajudar a alcançar.

A ideia, diz ele, é finalmente atender quem não se sente contemplado pelo atual padrão que rege o vestuário. “É uma tendência e uma estratégia de mercado que contribui para atingir diferentes grupos e, portanto, gera inclusão.”

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