Crise econômica leva mais gente a empreender no ramo das marmitas

Se bem gerida, microempresa pode ter margens de lucro da ordem de 20%

Andrea Vialli
São Paulo

O mercado de marmitas já vinha crescendo desde 2015, mas a crise e as altas taxas de desemprego, acima dos 12%, aceleraram a procura por esse tipo de negócio.

O número de microempreendedores individuais (MEIs) inscritos no segmento aumentou 19,2% entre o fim de 2019 e o primeiro semestre de 2020. Já a taxa de crescimento do total de MEIs no período foi de 9,4%, segundo o Sebrae-SP, com base nas informações do Portal do Empreendedor.

“O preparo de alimentos em ambiente doméstico já tinha um caráter de complementar a renda das famílias, mas a pandemia trouxe um crescimento sem precedentes”, afirma Karyna Muniz, consultora do Sebrae-SP.

Em uma mesa de madeira, cinco marmitas em embalagens plásticas transparentes fotografadas em cima
Marmitas preparadas pela nutricionista Karol Deliberato - Bruno Santos/Folhapress

A turismóloga Cassiane Santi Rodrigues, 38, decidiu entrar no ramo de marmitas durante a quarentena. Sem experiência na área de alimentação, optou por uma microfranquia da Mr. Fit, especializada em refeições saudáveis.

Moradora do Guarujá (litoral de São Paulo), ela começou a operar em junho pelo aplicativo iFood. Investiu R$ 6.250, valor que inclui taxa de franquia, 120 refeições e um freezer para armazenar as marmitas, que já chegam congeladas.

A divulgação é feita na própria plataforma de entrega e pelas redes sociais. Em duas semanas, Cassiane vendeu o primeiro estoque e, agora, está no terceiro pedido.

Para dar conta das encomendas, ela comprou um segundo freezer. Também pensa em montar uma loja física quando a pandemia passar.

Com a empresa, tem sido possível equilibrar o orçamento familiar, já que o marido, que trabalha no setor de hotelaria, teve o salário reduzido.

Para potencializar os negócios durante o período de distanciamento social, a franqueadora Mr. Fit reviu valores de investimento, isentou taxas e criou de modelos de franquias mais enxutos, que podem ser operados de casa.

No modelo de microfranquia da rede, o valor de investimento inicial baixou de R$ 17 mil para R$ 6.250, que pode ser parcelado em dez vezes.

“Nós pensamos nos empreendedores que estão dispostos a entrar neste ramo que têm pouco capital. Revisamos nossa margem de lucro e negociamos com bancos para facilitar o parcelamento”, explica Camila Miglhorini, fundadora da Mr. Fit.

A demanda pela microfranquia está aquecida: antes da pandemia, a rede tinha 33 franqueados no sistema de vendas em casa. Hoje, são 123 e há fila de espera.

Para atender aos novos negócios, foi preciso investir na ampliação da fábrica da marca em Itu (interior de São Paulo), onde as refeições são produzidas e ultracongeladas.

Para os empreendedores que já atuavam no ramo de marmitas, a pandemia serviu como um momento de buscar novos clientes, investir em divulgação e aumentar o volume das vendas.

Em uma cozinha, Denise está sentada com o braço apoiado em uma bancada enquanto Thiago está em pé atrás dela
Denise Ferreira e Thiago dos Santos, donos da Sabor Fit Marmitas, em sua casa, em São Paulo - Jardiel Carvalho/Folhapress

Há um ano, o casal Denise Ferreira, 35, e Thiago Gomes dos Santos, 38, criou a Sabor Fit Marmitas, que entrega refeições na região sul da capital paulista.

Thiago, que é professor de educação física, teve a ideia de criar a empresa em conversas com seus alunos, que buscavam comidas mais práticas e saudáveis. Denise, que já trabalhou no segmento de alimentação, ficou responsável pelo preparo dos pratos.

Durante a pandemia, alguns clientes fixos reduziram os pedidos, por estarem trabalhando de casa, mas a empresa conseguiu conquistar outros consumidores.

“Sempre chegam clientes novos, e muitos são de indicações dos que já compram com frequência. Temos tido volumes maiores de pedidos por cliente, o que é um ponto positivo em meio a esta crise”, afirma Thiago, que cuida das entregas e da divulgação nas redes sociais.

Com isso, o casal, que trabalha em casa, teve cerca de 15% de aumento no faturamento durante a quarentena.

Para empreender no ramo de marmitas, eles ressaltam a importância de garantir sempre o mesmo padrão de sabor e qualidade dos produtos e ter cuidados extras com higiene e armazenamento.

Além disso, reforçam que é fundamental buscar os melhores preços das matérias-primas. O casal pesquisa valores tanto em supermercados atacadistas quanto no comércio do bairro.

“Um bom estoque também ajuda a atender os clientes de forma rápida, fazendo com que não percamos vendas”, afirma o empresário.

Se bem gerida, uma microempresa de fornecimento de marmitas pode ter margens de lucro da ordem de 20%, diz Karyna Muniz, do Sebrae-SP.

Ganhar a confiança do consumidor, especialmente nos quesitos de qualidade e higiene, é um ponto crucial para quem busca empreender no segmento agora.

Além de refeições individuais, a entrega de marmitas para a família toda é uma oportunidade que pode ser explorada. Outro nicho em potencial é voltado para pessoas idosas ou com necessidades especiais de alimentação.

“Quem oferecer comida caseira, saudável, dentro do paladar brasileiro —arroz, feijão, carne e salada— e feita com práticas adequadas vai ter espaço durante e após a pandemia”, afirma a consultora.

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