Quatro empresários contam como criaram negócios inovadores

Empreendedores relembram dificuldades do início e dizem que persistência é fundamental para o sucesso

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São Paulo

A concepção de um negócio inovador exige mais do que tempo e dinheiro. Empresários que projetaram novos produtos e serviços contam que tiveram de ser resilientes para superar desconfianças na apresentação de projetos e criativos para desenvolver estratégias de comunicação ou mapear a demanda do mercado.

Nara Iachan, 30, fundadora da Cuponeria, que reúne cupons de desconto, afirma que, no início, ficou dois anos sem faturar e que precisou de muita persistência para convencer anunciantes.

A empreendedora e cientista Fernanda Checchinato, 45, fundadora da Aya Tech, focada em mercadorias inovadoras, diz que prioriza o atendimento humanizado. No momento da venda, sua equipe tenta entender com os clientes quais são as necessidades manifestadas pelos consumidores para nortear as pesquisas sobre novos produtos.

Breno Masi, 37, que ajudou a fundar o aplicativo de conteúdo infantil PlayKids, afirma que políticas para promover diversidade são necessárias para que a empresa tenha múltiplas ideias.

Já Danilo Castro, 43, fundador da MondoDX, consultoria e laboratório de criação de produtos digitais customizados, aponta como erro comum a busca por novas tecnologias sem propósito que justifique o investimento.

Confira a seguir depoimentos de empreendedores que ganharam espaço com ideias criativas.

'Novos serviços despertam desconfiança, e empreendedores precisam ser persistentes'
Nara Iachan, 30, fundadora da Cuponeria

Morei na Argentina e percebi que cupons de desconto eram comuns. Quando voltei para o Brasil, vi que não existia uma plataforma com ofertas de várias empresas reunidas.

Então, em 2011, criamos a Cuponeria para testar esse mercado. Não tínhamos muitos recursos e começamos de forma caseira, com um blog de cupons de apenas cinco lojas de bairro.

O início foi muito difícil. Batíamos de porta em porta mostrando dados do mercado internacional, mas era difícil convencer os anunciantes.

Existe preconceito quando o negócio é novo. Os usuários também achavam que seriam enganados e que, no final, pagariam o valor normal do produto, sem qualquer desconto.

Para acabar com essa impressão, começamos a sortear brindes e pedir que as pessoas marcassem amigos e mandassem fotos nas redes sociais. Além de viralizar, a estratégia gerava credibilidade.

Tivemos uma virada quando, depois de muita insistência, fechamos cupom de oferta com a Pizza Hut. Eles garantiram sorteios de pizzas, mas não nos faziam repasses.

Em um negócio novo, o retorno financeiro pode demorar. Ficamos dois anos sem ter faturamento. Mas, com persistência, aos poucos fomos crescendo.

Hoje temos site e aplicativo. Reunimos ofertas das principais marcas e dobramos o faturamento ano a ano.

'Para o tiro ser certeiro, é preciso personalizar o atendimento e entender a demanda da área'
Fernanda Checchinato, 45, fundadora da Aya Tech

Trabalhei como pesquisadora e desenvolvedora de novos produtos em uma metalúrgica e sofri muitos boicotes por ser mulher.

Tomei coragem e pedi demissão da empresa para criar meu próprio negócio em 2010, usando o FGTS. Hoje a Aya Tech é uma empresa de tecnologia focada no desenvolvimento de mercadorias inovadoras.

As inspirações para os novos produtos surgem no dia a dia. Para isso, estimulamos o atendimento humanizado. Nossa funcionária entra em contato diariamente com os clientes e, ao fazer as vendas, conversa com profissionais de saúde para entender demandas do mercado e reclamações dos consumidores. Com recursos escassos, o tiro tem de ser certeiro.

Surgiu assim nosso biorrepelente de insetos com duração de até nove horas que pode ser usado por gestantes e lactantes.

Como criamos produtos que até então não existiam, precisamos nos municiar de informações para conseguir vender.

Mostramos, por exemplo, que todo ano 2 milhões de pessoas são vítimas de doenças causadas por insetos. Quando contamos que morre mais gente picada do que por acidente de carro e apresentamos os benefícios do produto, surge interesse.

Assim, temos crescido mais de 100% desde 2017. Em 2020, faturamos R$ 1,6 milhão.

'Promover a diversidade na companhia é essencial para o surgimento de novas ideias'
Breno Masi, 37, diretor da Afterverse, marca da PlayKids

Inovar é questão de sobrevivência. Em 2013 cheguei à Movile [dona do aplicativo Ifood] para me dedicar à criação de novos produtos. No início éramos quatro na equipe.

Fizemos diversos testes e criamos uma TV de funk e outra de sertanejo antes de chegar ao PlayKids, canal no qual vimos potencial.

Foi o começo do PlayKids, aplicativo infantil que reúne jogos, livros, áudios e vídeos. Além de ser um dos primeiros do setor, foi pioneiro em funcionar no modo offline, o que fez diferença porque, à época, a tecnologia 3G era ruim. Fez sucesso rapidamente.

O mercado é dinâmico. Todos os dias aparecem coisas novas. Por isso, trabalhar em tempo integral com inovação foi essencial para o êxito do aplicativo. Conseguimos criar a PlayKids em menos de um ano.

A inovação deve ser encarada de forma séria. Sem investimento, outras Moviles e PlayKids vão aparecer e ocupar o mercado. As companhias devem reservar, ao menos, algumas horas da semana para que funcionários se dediquem a projetos inovadores.

A Google, por exemplo, reserva 20% da jornada do funcionário para o desenvolvimento de projetos pessoais. Daí surgiram produtos como o Gmail e o Google Glass.

Também entendemos que a diversidade é fundamental. Se a equipe tem pessoas da mesma etnia, gênero ou universidade, as ideias serão parecidas. Na Movile temos programas que promovem pessoas pretas para cargos de liderança, o Empretece, e que trazem mulheres para a área de tecnologia.

Hoje, a PlayKids tem 420 profissionais e conteúdo oficial em 27 países. Com o sucesso do aplicativo, lançamos no ano passado a desenvolvedora de games Afterverse, para atingir públicos a partir de dez anos.

'Erro comum é a busca por novas tecnologias sem propósito que justifique o investimento'
Danilo Castro, 43, fundador da MondoDX

A MondoDX nasceu em 2018 combinando consultoria com laboratório de criação de produtos digitais customizados, usando recursos de realidade aumentada, virtual e inteligência artificial.

Além de projetos adaptados, a startup tem produtos prontos para acelerar a transformação digital dos clientes. Durante a pandemia, desenvolvemos um software de experimentação virtual de produtos em ecommerce.

Na plataforma, os usuários podem escolher produtos nas prateleiras digitais e, com realidade aumentada, até experimentá-los virtualmente.

Um erro comum das empresas é buscar inovações e tecnologias disruptivas a qualquer custo, sem ter um propósito ou problema que justifique o investimento.

Quando as tecnologias são aplicadas de forma incorreta, podem trazer dor de cabeça. Por exemplo, trocar o papel por tablets ou celulares no dia a dia de uma operação, sem uma gestão de aprimoramento da cultura digital, pode gerar mais problemas do que solução.

Por isso, nascemos para dialogar com quem está na linha de frente da produção e inovar de forma gradual, sem romper com as tarefas do dia a dia. Tem dado certo. Duplicamos o faturamento de 2019 para 2020.

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