Descrição de chapéu Itália refugiados

Composição de governo é a incógnita da eleição italiana

Voto deste domingo (4) pode forçar siglas rivais a tecer acordos insólitos

Diogo Bercito
Roma

Italianos não devem dar a maioria absoluta a nenhum partido nas eleições deste domingo (4), o que significa que movimentos de ideologias díspares terão de negociar para formar um governo. Será um processo longo e imprevisível.

É possível que o 5 Estrelas, que se opõe ao sistema político tradicional, vença o pleito, mas que o país seja liderado por uma coalizão de centro-direita. Outro cenário vê a esquerda se unir à direita nacionalista.

A incerteza preocupa o continente. A Itália é a quarta maior economia europeia e deve o equivalente a 135% de seu PIB. Por isso, os vizinhos querem evitar surpresas.

Os vaticínios são dificultados pela lei italiana, que proíbe pesquisas a menos de duas semanas do voto. A mais recente, o Termômetro Político, data de um agora longínquo 17 de fevereiro.

O fundador do 5 Estrelas, Beppe Grillo, em Roma, no último comício do partido antes da eleição, na sexta-feira (2) - Andrew Medichini/Associated Press

Nessa, o 5 Estrelas aparecia com 26,3% das intenções de voto. Ocorre que, somada, a coalizão de centro-direita (composta pelo Força Itália do ex-premiê Silvio Berlusconi e pelo eurocético e ultranacionalista Liga) tinha 37,5%, o que sugere que poderia iniciar as conversas para formar um governo.

No poder, o Partido Democrático (centro-esquerda) aparece com apenas 21,3%. O ex-premiê Matteo Renzi é prejudicado pelo desempenho morno da economia e pela derrota de sua proposta de reforma constitucional.

A pesquisa do Termômetro Político ouviu 4.500 pessoas de 12 a 16 de fevereiro.

Na disputa estão forças políticas bastante distintas. A coalizão de direita defende introduzir um imposto único para empresas e pessoas físicas, favorecendo também o produto “made in Italy”. Outra de suas plataformas é a expulsão de migrantes —há 180 mil pedidos de asilo no país.

Já o carro-chefe do 5 Estrelas é uma espécie de salário universal. Propõe-se simplesmente dar R$ 3.000 mensais para quem necessite. A legenda também quer cancelar a reforma previdenciária e reaproximar Roma de Moscou.

De seu lado, o Partido Democrático tem plataformas menos ambiciosas: propõe aumentar o salário mínimo e reduzir os impostos.

HETERODOXIA

A Itália, como a Alemanha, está acostumada a negociações para formar governo, e há constantes trocas nos gabinetes. Mas as alianças hipotéticas neste ano parecem mais heterodoxas do que de costume.

Há duas opções prováveis. A primeira é uma parceria entre a coalizão de direita e o Partido Democrático, o que significaria uma aproximação entre os ex-primeiros-ministros rivais Berlusconi e Renzi. Essa configuração poderia incluir a Liga, que tem na aversão ao euro e aos refugiados um dos eixos de sua plataforma.

A segunda possibilidade é a aliança entre 5 Estrelas e Liga. Nesse caso, a Liga teria provavelmente de romper sua coalizão com Berlusconi e riscaria alienar seus próprios militantes. Esse cenário incomoda a União Europeia.

“A baixa confiança que o 5 Estrelas e a Liga depositam no bloco econômico faz dessa hipótese algo preocupante para Bruxelas [sede do Parlamento Europeu]”, diz Raffaele De Mucci, professor de política comparada na Universidade Guido Carli.

As eleições começam às 7h locais e se alongam até as 23h. Ou seja, no horário de Brasília, vão das 3h às 19h.

Os primeiros resultados só devem ser divulgados durante a madrugada.

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