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Rússia

Notícia falsa sobre morte de jornalista 'envenena a fonte da verdade'

Armação ucraniana vem minar ainda mais a credibilidade dos jornalistas e da mídia

De casaco preto, Babtchenko sorri ao conversar com jornalistas. Ele aparece apenas do pescoço para cima à frente de uma parede branca.
O jornalista russo Arkady Babtchenko, que foi dado pelo governo ucraniano como assassinado em Kiev, reaparece em entrevista coletiva na capital ucraniana - Valentyn Ogirenko/Reuters
Nelson de Sá
São Paulo

Horas depois de o jornalista Arkadi Babtchenko voltar dos mortos, como despachou com autoironia a francesa AFP, continuavam chegando notificações robotizadas da CNN ao Guardian sobre seu assassinato na Ucrânia.

A notícia falsa, que foi tão automaticamente reproduzida mundo afora, se firmou aos poucos como um marco. Começou via mídia social pelos colegas próximos de Babtchenko, outros jornalistas russos de oposição que haviam chorado a sua morte publicamente.

Por exemplo, Andrei Soldatov, do Agentura: "Babtchenko é um jornalista, pelo amor de Deus, e parte do nosso trabalho é a confiança, não importa o que Donald Trump ou Vladimir Putin digam sobre 'fake news'. Ele minou ainda mais a credibilidade dos jornalistas e da mídia".

Outro, Alexey Kovalev, editor do Codaru, foi até mais agressivo, chamando Babtchenko de "um idiota completo" e acrescentando ter tirado "uma lição de vida importante: absolutamente tudo agora é notícia falsa, não confie em nada nem em ninguém".

Também no Ocidente as reações, de início cautelosas, acabaram por seguir na mesma linha. Mark Urban, um dos principais editores da BBC, por exemplo, falou em "envenenamento da fonte da verdade".

Até a ONG Repórteres Sem Fronteiras soltou o verbo, ainda que tenha concentrado a crítica no governo ucraniano. Seu presidente, Christophe Deloire, qualificou de "patético e lamentável" que tenham brincado com a verdade.

O temor tanto dos jornalistas russos como dos ocidentais é que o episódio sirva de carta branca para governantes negarem todas as acusações que surjam a partir de agora, não importa o que se consiga provar sobre este ou aquele caso.

Não demorou e foi o que procurou fazer Margarita Simonyan, editora da estatal russa RT, juntando as duas maiores denúncias recentes contra Moscou, sobre Babtchenko e o ex-espião Serguei Skripal, envenenado na Inglaterra:

"Antes, era preciso matar realmente as pessoas para armar uma provocação geopolítica forte. Agora, é mais simples e agradável: é só esconder [Babtchenko ou Skripal] por alguns dias e acionar as rotativas."

A esperança para minimizar os danos ao jornalismo, como cobraram muitos, é que o governo ucraniano consiga provar que havia razão para tanto. Que Babtchenko era um alvo, de verdade.

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