Descrição de chapéu The Washington Post Governo Trump

Trump é tema de livro secreto de Bob Woodward, que revelou Watergate

Em obra a ser lançada em setembro, jornalista narra 'descalabros' na Casa Branca trumpista

Manuel Roig-Franzia
The Washington Post

É difícil guardar segredo em Washington, capital mundial dos vazamentos e fofoca. De alguma forma, porém, passou despercebido nos últimos 19 meses o fato de que o jornalista investigativo mais famoso dos EUA elaborava um livro sobre as disfunções da Casa Branca sob Donald Trump.

Nesta terça , o sigilo caiu com o anúncio da editora Simon & Schuster de que publicará “Fear: Trump in the White House” (Medo: Trump na Casa Branca), de Bob Woodward, em 11 de setembro.

Em seu 19º livro, o jornalista de 75 anos que com Carl Berstein revelou o Watergate —escândalo de grampos telefônicos que culminaria na queda do presidente Richard Nixon (1969-74)— "relata em nível de detalhe inédito os descalabros na Casa Branca de Donald Trump e como ele toma suas decisões”, diz a editora.

O teor esperado da obra é salientado por sua capa: um close radical de Trump com olhos apertados, visto através de um filtro vermelho. 

O título vem de um comentário do então candidato Trump em uma entrevista a Woodward e ao repórter Robert Costa, do Washington Post, em abril de 2016. Costa perguntou se Trump concordava com a declaração do então presidente Barack Obama de que “poder real significa conseguir o que quer sem precisar de violência”.

No princípio Trump pareceu concordar: “Acho que há uma certa verdade nisso. (...) O poder real emana do respeito”. E então acrescentou seu viés: “O poder real é, eu nem quero usar a palavra: ‘medo’”. Woodward descreveu o comentário como “uma digressão quase shakespeariana”.

Veterano repórter especial do Post, Woodward está enraizado no tecido cultural do jornalismo americano. Seu trabalho no Watergate, publicado pelo mesmo jornal, foi imortalizado em um livro e no filme “Todos os Homens do Presidente” (1976), em que Robert Redford o interpreta e Dustin Hoffman retrata Bernstein.

O jornalista Bob Woodward sorri e coça o olho ao lado de Carl Berstein, que gargalha, ambos de terno e gravata
Bob Woodward (à esq.) e Carl Bernstein participam do jantar anual dos correspondentes da Casa Branca - Cliff Owen-29.abr.17/Associated Press
Carl Berstein, ainda jovem, coça a cabeça e conversa com Bobv Woodward, visto de perfil, em uma escrivaninha no meio da sala de redação do Washington Post
Os repórteres Bob Woodward (à dir.) e Carl Bernstein, cujas reportagens sobre o Watergate lhes trouxe o prêmio Pulitzer, conversam na Redação do Washington Post, em Washington - Associated Press-7.mai.73

Agora, não só ele publica um livro sobre Trump como Bernstein vive na TV após coescrever uma reportagem para a CNN que afirma que o advogado do presidente, Michael Cohen, está disposto a depor que o republicano sabia de uma reunião entre seu filho e russos que queriam difamar Hillary Clinton, sua rival na campanha presidencial.

Com “Fear”, um dos autores americanos de não-ficção de maior vendagem voltará ao filão pelo qual é conhecido: a reportagem sobre acontecimentos em curso do poder americano e da Presidência.

Suas obras anteriores sobre George W. Bush e Obama se concentraram em decisões importantes mas isolada, como a entrada em guerras. "Fear” deve ampliar esse exame e somar-se à pilha de livros que abordam o governo Trump ou questões relacionadas a ele.

Nessa lista estão o do ex-diretor do FBI James Comey, “A Higher Loyalty” (lealdade maior), “Fogo e Fúria”, de Michael Wolff (lançado no Brasil) e “The Briefing: Politics, the Press and the President” (o briefing: política, imprensa e o presidente), obra do ex-porta-voz Sean Spicer.

O volume de Woodward se baseia em seu método de jornalismo investigativo, extraindo detalhes de “centenas de horas de entrevistas com fontes, anotações de reuniões, documentos e agendas pessoais”, diz a editora, e "traz à luz as discussões explosivas que conduzem a tomada de decisões na Casa Branca”.

Enquanto trabalhava no livro, Woodward manteve-se mais discreto que de costume, limitando as participações na TV e tentando se manter fora da vista do público.

A amigos, o autor disse ter retomado algumas das medidas de seu tempo de jovem repórter —quando costumava aparecer sem aviso na casa de gente importante tarde da noite e pedir entrevistas. Chamou a nova fase de “renascimento”.
Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves 

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