Presidente da Colômbia fecha porta para negociação com ELN

Iván Duque cita ataques à população civil como um dos motivos para interromper diálogo

De camisa jeans clara e chapéu marrom, Duque se agacha para cumprimentar a criança, que está com o rosto pintado com as cores da bandeira da Colômbia. Ao lado do menino há outro também com o rosto pintado e ao fundo aparecem dois policiais e outras duas pessoas de pé.
O presidente da Colômbia, Iván Duque, cumprimenta criança vestida de policial nacional durante evento no departamento de Antioquia (noroeste) no sábado (8) - Joaquin Sarmiento - 8.set.18/AFP
Sylvia Colombo
Buenos Aires

O presidente colombiano, Iván Duque, disse nesta segunda (10) que não há condições de continuar as negociações entre o Estado com a guerrilha ELN (Exército de Libertação Nacional).

Iniciadas há 17 meses e suspensas temporariamente no primeiro semestre por causa da quebra de um cessar-fogo, elas tinham como finalidade formular um tratado que incluiria redução de penas ou mesmo anistia a guerrilheiros em troca da desmobilização.

A interrupção do processo deixa em suspense qual será a política do governo para combater a principal guerrilha em atividade no país e qual será a reação de seus integrantes, hoje divididos entre os que querem uma acordo de paz e os que hesitam diante das falhas na implementação do acordo firmado com as Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia), em 2016.

“É um absurdo que Duque tenha começado dando um ultimato que não era possível cumprir de imediato e logo interrompido o diálogo apenas com base nessa questão tão divisiva no ELN que são os sequestros”, disse à Folha o analista e ex-comandante da guerrilha Carlos Arturo Velandia.

Com cerca de 1.500 integrantes, o ELN é hoje muito menor do que no passado, quando chegou a ter mais de 10 mil guerrilheiros. Segue sendo, porém, uma força muito letal, que comete atentados contra a infraestrutura do país, como oleodutos e estações de eletricidade no interior, além de promover sequestros, extorsões e narcotráfico.

Duque já vinha prometendo, desde a campanha, que uma negociação só seria possível se os sequestros e as extorsões fossem interrompidos imediatamente e se os delitos também deixassem de ocorrer. 

A posição do ELN antes de Duque assumir era a de parar com os ataques mas manter os sequestros e extorsões (usados para financiar a guerrilha), o que já vinha travando as negociações sob o então presidente Juan Manuel Santos (2010-18). Santos, porém, manteve a repressão à guerrilha sem abdicar do diálogo.

A atitude mais linha dura de Duque fecha essa porta.

Na tentativa de manter as tratativas, o ELN havia soltado três reféns na semana passada, ato simbólico que o presidente considerou sem efeito.

“Ao não reconhecer os avanços destes últimos meses e impor condições inaceitáveis, esse governo jogou fora nosso esforço e o de várias pessoas dentro e fora da Colômbia que desejavam essa paz”, disse a guerrilha em comunicado.

De fato, alguns pontos do acordo haviam sido selados, incluído um cessar-fogo bilateral inédito na história do conflito, que durou 101 dias.

Duque justificou sua decisão citando 462 ataques à população civil por parte do ELN, que provocou a morte de cerca de cem pessoas e cometeu 148 atentados contra a estrutura petrolífera colombiana durante as negociações.

“Uma das principais dificuldades para retomar as negociações é a divisão interna da guerrilha”, observa Velandia.

“Uma parte, a mais poderosa, quer a paz e mandou seus principais nomes para a mesa de negociação.

Outra, mais desconfiada, vê nas dificuldades de implementação do acordo com as Farc  um argumento para dizer não. Enquanto não houver uma conversa ampla dentro da guerrilha, é impossível prosseguir.”

O ELN nasceu em 1964 e é tão antigo quanto as Farc,  mas com formação ideológica diferente, que une comunismo e catolicismo.

Nas últimas décadas, assim como a outra guerrilha, passou a atuar no narcotráfico e na extorsão de agricultores e estendeu sua influência ao território venezuelano e à fronteira com o Brasil.

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