Papa Francisco vira alvo de fogo amigo por mudar doutrina e privilégios

Pontífice vive disputa contra correntes tradicionalistas da Igreja

Lucas Neves
Paris

A animosidade atual entre o papa Francisco e as correntes tradicionalistas da Igreja não encontra paralelo na fase moderna da instituição, e isso porque o pontífice foi o primeiro a questionar simultaneamente a doutrina e as relações de poder na hierarquia do clero.

A Folha ouviu especialistas na semana em que o arcebispo italiano Carlo Maria Viganò divulgou carta em que diz ser alvo de difamação por parte de Francisco por ter denunciado a suposta omissão da Santa Sé diante dos crimes sexuais de um ex-cardeal americano.

Em uma missiva anterior, Viganò tinha instado o papa a renunciar “para dar o exemplo”.

O papa Francisco durante encontra com jovens neste sábado (6) no Vaticano
O papa Francisco durante encontra com jovens neste sábado (6) no Vaticano - Gregorio Borgia/Associated Press

A correspondência ilustra o caráter cada vez mais violento do enfrentamento entre conservadores e reformistas do catolicismo, tendo como pano de fundo o expurgo de quadros ligados a casos de pedofilia e abuso de poder.

Philippe Portier, diretor do grupo Sociedades, Religiões e Laicidades (ligado ao Centro Nacional de Pesquisa Científica da França), explica que, no papado de Pio 11 (1922-39), não faltaram críticas no Vaticano à condenação da extrema direita pelo pontífice. Mais tarde, João 23 (1958-63) e Paulo 6º (1963-78) passaram maus bocados com cardeais saudosos de Pio 12 (1939-58).  

A partir de 1978, João Paulo 2º (até 2005) e Bento 16 (2005-13) enfrentaram oposição discreta, numa fase em que se consolidava o controle da elite da Igreja pela ala mais doutrinária, alinhada a eles.

É justamente esse grupo que se sente acuado por Francisco.

Desde então, elenca o pesquisador, o pontífice interferiu no funcionamento da Cúria romana, braço administrativo do Vaticano, melindrando cardeais; expôs uma concepção da Igreja em que até altos dirigentes estão sujeitos a limitações de poder; e apresentou uma leitura mais arejada da doutrina religiosa, acenando, por exemplo, para que divorciados voltem a se casar.

“O papa diz que a moral deve às vezes suportar fracassos, deficiências próprias ao humano. Seus oponentes, liderados pelo cardeal americano Raymond Burke, acham que a vida deve ser indexada por aquilo que a moral exige. Por isso, sentem-se escanteados na gestão dele”, diz Portier, que salienta não se tratar, porém, de uma contenda entre campos liberal e conservador.

“Não há progressistas na cúpula da Igreja. Não se pode pensar que Francisco seria favorável ao liberalismo moral e cultural. Todo o seu pensamento é muito tradicional do ponto de vista da teologia da família e da sexualidade.”

O sociólogo das religiões Olivier Bobineau, membro do mesmo grupo de estudos, reitera o diagnóstico de “combinação explosiva” encarnada pelo argentino. “Não só ele preconiza uma volta à ideia de que a instituição está a serviço do Evangelho, e não o contrário, como impõe à Cúria um novo modelo de gestão. É uma revolução copérnica”, avalia.

Para ele, que escreveu “O Império dos Papas – Uma Sociologia do Poder na Igreja” (tradução literal) e “O Sagrado Incestuoso – Os Padres Pedófilos” (idem), o estopim do conflito é o discurso de 2014 em que Francisco aponta 15 doenças da elite católica. “Ali, ele critica o clericalismo. Sugere que a Cúria é diabólica, que cria cismas, divisões. É uma declaração de guerra.”

O cientista político François Mabille, organizador da coletânea “A Longa Transição do Catolicismo” (tradução literal), vê no tom e na forma assumidos por intervenções como a citada acima a chave para entender o estado de ânimos no Vaticano.

“Assistimos a um efeito bumerangue da própria violência retórica do papa nos últimos anos. Não digo que ele não tenha razão, mas suas palavras são duras”, diz ele. “Parecem lhe faltar uma pedagogia da reforma. Seus discursos parecem menos ligados a uma competência teológica do que ao registro de uma opinião.”

Mabille diz que o alarido é amplificado pela “penetração da cultura contemporânea no funcionamento da Igreja”, que faz com que os dois lados sintam-se à vontade para acertar contas por canais midiáticos.  

Mas a queda de braço pública, frisa o professor de ciência política Yann Raison du Cleuziou, não mobiliza grandes audiências. “Os episódios de pedofilia são seguidos de perto. Já a disputa de poder dentro da Igreja é o caso dentro do caso”, afirma ele, que dá aulas na Universidade de Bordeaux e escreveu “Quem são os católicos de hoje?”

Com ou sem público, o confronto nas fileiras eclesiásticas deve ter como epílogo uma vitória da corrente tradicionalista, na opinião da maioria dos entrevistados.

“A Cúria Romana desde 1089 rege a doutrina, a disciplina, a interpretação da teologia. Por quase 950 anos, recorreu a todos os meios para se conservar. O confronto opõe uma instituição a um homem. Quem você acha que vai triunfar?”, diz Bobineau.

Para ele, o campo pró-Francisco só teria chance se o papa convocasse um Concílio Vaticano (rara assembleia-geral de bispos) para tentar sintonizar a Igreja aos novos tempos.  

Mas, segundo Mabille, só há perdedores no cabo de guerra católico. “Enquanto se briga, a Igreja perde adeptos em todo lugar. Os conservadores ficam cada vez mais distantes da cultura contemporânea. E o papa, priorizando as questões sociais —notadamente a dos refugiados— em detrimento das espirituais, não dá as respostas que as pessoas buscam.”

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