Descrição de chapéu New York Times

Admiro meu marido como ser humano, diz mulher do traficante El Chapo

Emma Coronel, que não é acusada de crimes, acompanha julgamento do traficante sem trair emoções

Emma Coronel Aispuro, mulher do traficante Joaquín Guzmán Loera, conhecido como El Chapo
Emma Coronel Aispuro, mulher do traficante Joaquín Guzmán Loera, conhecido como El Chapo - Todd Heisler/The New York Times
 
Emily Palmer
Nova York

No último mês, Emma Coronel Aispuro, a esposa do chefão do tráfico conhecido como El Chapo, virou uma controversa personagem central no julgamento de seu marido.

Uma testemunha a citou como cúmplice na infame fuga de El Chapo de um presídio de segurança máxima, em 2015. Transcrições de mensagens de texto trocadas entre o casal mostram El Chapo pedindo para ela esconder as armas dele antes de uma blitz policial.

Na manhã em que uma das amantes de El Chapo depôs como testemunha, Emma Coronel e seu marido usaram blazers iguais de veludo cor de vinho, numa aparente expressão de solidariedade.

Ao longo do julgamento de Joaquín Guzmán Loera, que já dura três meses, testemunhas da acusação descreveram uma vida difícil para as mulheres no cartel ou próximas dele, das quais frequentemente se espera que sejam simultaneamente amantes e cúmplices. A maioria delas fracassa, geralmente por querer exercer um papel em excesso e o outro não suficientemente. Muitas terminam atrás das grades ou foragidas.

Mas Emma Coronel, a presença feminina mais destacada em um julgamento de personagens quase todos homens, emergiu como a exceção.

Ao longo de dez semanas, os promotores convocaram 56 testemunhas que retrataram seu marido como um narcotraficante vingativo, assassino sedento de sangue e mulherengo. Coronel tem comparecido ao tribunal quase todos os dias, uma presença constante e impávida que ocupa um lugar reservado na segunda fileira.

Como resultado dos depoimentos das testemunhas, é quase certo que seu marido passe o resto da vida na prisão. Mas Coronel, que desfruta os lucros de império de drogas que os promotores estimam que tenha permitido a El Chapo guardar US$ 14 bilhões ao longo de seus 30 anos de reinado, rejeita as caracterizações de seu marido apresentadas no tribunal.

“Não conheço meu marido como essa pessoa que estão tentando retratar”, ela disse ao New York Times em uma de várias entrevistas concedidas em espanhol. “Mas o admiro como o ser humano que conheci e com quem me casei.”

A maioria das pessoas se espantaria com a admiração de Coronel por seu marido, um dos mais notórios barões de narcotráfico na América Latina, alguém que, segundo testemunhas, era poderoso o suficiente para subornar um ex-presidente do México.

Os argumentos da acusação são tão fortes —na semana passada uma testemunha descreveu como Guzmán mandou enterrar um homem vivo— que os advogados de El Chapo só conseguiram apresentar uma defesa de 30 minutos na terça-feira, depois que a acusação terminou de apresentar seus argumentos.

Na lei americana, pessoas casadas não podem ser obrigadas a testemunhar contra seus cônjuges, mas alguns dos desdobramentos recentes no julgamento deixaram muitos curiosos para saber como Emma Coronel conseguiu evitar acusações criminais.

Os promotores se negaram a responder por que ela não é acusada, e Coronel sempre se negou a dar declarações sobre o processo. Mas os depoimentos prestados, se forem fundamentados, apenas agravam a narrativa da “boa esposa”.

Emma Coronel Aispuro sai do tribunal no Brooklyn, em Nova York, nesta terça-feira (5)
Emma Coronel Aispuro sai do tribunal no Brooklyn, em Nova York, nesta terça-feira (5) - Jeenah Moon - 5.fev.19/Reuters

Agora ela está mais vinculada que nunca a seu marido. “Se você ouve falar em ‘Emma Coronel’ e sabe quem ela é, você vai pensar ‘El Chapo’”, comentou Miguel Ángel Vega, repórter do site de jornalismo RioDoce, com sede em Culiacán.

Coronel, 29 anos, tornou-se esposa de El Chapo em 2009, ainda adolescente, e mãe quando tinha pouco mais de 20 anos. Seu marido, que tem mais do dobro de sua idade e teve vários casamentos anteriores, passou toda a vida de casados deles encarcerado ou foragido.

O julgamento levou Coronel a dividir sua vida entre dois países. As filhas gêmeas de sete anos do casal estudam numa escola no México. Coronel diz que mantém contato com elas através de serviços de mensagens.

“Tive que me separar de minhas filhas para acompanhar meu marido, agora que sou a única pessoa de sua família que pode ficar aqui em Nova York com ele”, ela comentou.

Desde que Guzmán foi extraditado para os EUA, em janeiro de 2017, as filhas Emali e Maria Joaquina só puderam ver seu pai no tribunal e em visitas fortemente supervisionadas ao presídio.

“Ele sempre foi um pai muito presente, que deu muita atenção às nossas filhas”, ela disse. Afirmou que as meninas adoram o pai e que ele as adora.

As gêmeas são as únicas visitantes autorizadas a ver El Chapo no local não revelado onde ele se encontra detido (Coronel não foi autorizada a visitar seu marido nem mesmo falar com ele ao telefone, nem uma única vez).

“Não me considero uma mãe solteira”, disse Coronel. “Me vejo como uma mãe que neste momento não tem o apoio de seu marido, mas confia que a família vai ficar bem.”

Mas ela reconheceu: “Obviamente, nossa vida mudou.”

Coronel conheceu Guzmán numa fazenda em Durango, no México, quando tinha 17 anos. El Chapo, então quarentão e já bem estabelecido como chefe do cartel de Sinaloa, estava foragido havia seis anos, desde que fugira da prisão em um carrinho de lavanderia, em 2001.

Apesar dos 32 anos que os separam, Coronel disse ao NYT que uma “linda amizade” se formou entre os dois desde o primeiro dia. “Com o passar dos meses nos tornamos namorados”, ela contou. “Quando completei 18 anos, nos casamos em uma cerimônia muito simples, com a presença apenas de familiares e amigos íntimos.”

Coronel raramente concede entrevistas. Ela insistiu que leva uma vida normal. Nascida na Califórnia, ela cresceu em Durango, no noroeste do México, vizinho de Sinaloa, o estado de Guzmán. Os dois estados fazem parte do Triângulo Dourado da produção de maconha. Mas a versão da história de sua vida que ela compartilhou com o jornal não incluiu qualquer menção a drogas, apesar de depoimentos dados durante o julgamento terem sugerido que seu pai trabalhou para o cartel de Sinaloa.

Em vez disso, Coronel mencionou “uma infância muito tranquila e simples, numa família amorosa e unida”, dizendo que cresceu com dois irmãos e uma irmã “que eu amo”. Segundo histórias a seu respeito que circulam no México, ela teria ganho um concurso de beleza na adolescência, mas poucos detalhes de sua vida pessoal são conhecidos.

Miguel Ángel Vega, que é também co-apresentador de um podcast no Vice sobre El Chapo, acredita que a história de amor do casal seja genuína.

“Você pode imaginar uma moça de 17 anos que ganhou um concurso de beleza e então um homem poderoso tenta conquistar seu coração?”, ele perguntou. “Acho que ela foi seduzida por aquele poder, aquele nome. Pelo simples nome.”

Emma Coronel foi um elemento central do drama que se desenrolou no tribunal até a defesa terminar de apresentar seus argumentos.

Os promotores compartilharam as mensagens de texto trocadas pelo casal em 2012, que a mostram preparando-se para uma possível blitz policial contra a casa onde ela estava hospedada em fevereiro daquele ano.

“Tem armas na casa, meu amor? Você tem uma arma?”, Guzmán lhe perguntou em uma mensagem. “Tenho uma das suas que você me deu”, ela respondeu.

Guzmán a orientou a esconder a arma em um “clavo”, ou compartimento escondido na casa.

Na semana passada, Dámaso López Núñez, 52 anos, ex-diretor de presídio que se tornou membro do alto escalão do cartel, depôs dizendo que Emma Coronel ajudou a orquestrar a fuga de El Chapo da prisão em 2015.

López disse que Coronel se reuniu com ele e os filhos de Guzmán ao longo de quatro meses no início de 2015 para cumprir as ordens dadas por Guzmán da prisão: comprar um terreno e um armazém perto do presídio; obter armas, um caminhão blindado e um relógio com GPS para definir as coordenadas exatas da cela de El Chapo, e construir um túnel do presídio até o armazém.

Em julho de 2015, Guzmán desceu por um buraco escavado debaixo do chuveiro de sua cela, subiu numa bicicleta operada por polias e nela percorreu o túnel de cerca de 1,5 km de extensão. Um dos irmãos de Coronel estava à espera dele no armazém com um quadriciclo no qual eles foram até uma pista de pouso em San Juan, segundo depoimentos. De lá, Guzmán voltou de avião para as montanhas de Sinaloa.

Perguntada sobre as alegações de López de que ela ajudara seu marido a fugir, Coronel se negou a responder.

Ao longo do julgamento ela traiu pouca emoção, mesmo no dia em que uma das amantes de El Chapo chorou no banco das testemunhas.

Seu autocontrole externo só fraquejou uma vez, no único dia em que ela levou suas filhas ao tribunal, em dezembro. Nesse dia a acusação levou ao tribunal um carrinho cheio de fuzis AK-47 e um lançador de granadas. Quando viu as armas, Coronel saiu do tribunal correndo, levando suas filhas para o saguão, repleto de policiais.

Sem identificar qualquer incidente em particular, Coronel assinalou que não gosta do que aconteceu no tribunal. Tem sido “demais”, ela explicou. “Detesto drama.”

The New York Times

Tradução de Clara Allain 

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