Descrição de chapéu The New York Times

Kim Jong-un é 'inteligente, astuto e implacável', diz diplomata norte-coreano que fugiu

Thae Yong Ho diz que armas nucleares são usadas para justificar o fracasso econômico do país

O ditador da Coreia do Norte, Kim Jong-un, durante reunião com Donald Trump no Vietnã - Saul Loeb/AFP
Seul | The New York Times

Kim Jong Un, o misterioso e volúvel líder da Coreia do Norte, não pretende abrir mão de seu arsenal nuclear, uma ferramenta potente que lhe confere alavancagem no exterior e autoridade em seu país. A opinião é do diplomata norte-coreano de mais alto escalão a ter desertado em anos.

Thae Yong Ho ocupou cargos em embaixadas norte-coreanas na Dinamarca, Suécia e Reino Unido, fugindo para a Coreia do Sul em 2016 com sua mulher e dois filhos. Hoje ele é ameaçado de assassinato e sequestro e vive sob a proteção do governo sul-coreano. Ele se movimenta por Seul, a capital sul-coreana, usando óculos de sol e um chapéu puxado para baixo sobre sua testa.

No passado membro da elite política norte-coreana, Thae aprendeu sobre o Ocidente com filmes como “A Noviça Rebelde” e livros sobre excessos da burguesia. Diplomata, ele se desencantou com Kim e procurou liberdade e oportunidades para seus filhos –um desejo que, segundo ele, está se tornando cada vez mais comum entre os membros da elite do país.

Jane Perlez, chefe da sucursal do “New York Times” em Pequim, entrevistou Thae antes da cúpula desta semana com Kim e o presidente Donald Trump em Hanói, no Vietnã, na qual os dois líderes discutiram o desarmamento nuclear e que terminou sem acordo. Thae, que escreveu um livro e já depôs diante do Congresso americano, falou em inglês fluente. A entrevista foi editada e resumida.

 

Como você descreveria Kim? Ele é ardiloso? É impetuoso? É um menino mimado?
Thae Yong Ho: Para descrevê-lo corretamente eu diria que ele é um homem inteligente e astuto, mas implacável. Kim Il Sung (o avô de Kim Jong Un) e Kim Jong Il (seu pai) expurgaram muitas pessoas, mas nunca mataram membros de sua família. Kim Jong Un matou seu tio e meio-irmão. Esse tipo de coisa realmente não tem precedentes na família Kim.
 

Por que Kim se sentiu tão ameaçado por seu tio, Jang Song Thaek, funcionário governamental sênior que dirigiu a Comissão de Defesa Nacional?
Kim Jong Un tinha muito medo de seu tio. Sentia-se ameaçado pela própria existência de seu tio. Todos os membros do departamento comandado por Jang Song Thaek foram detidos de repente, e os chefes principais do departamento foram fuzilados sumariamente. Todas as famílias –das centenas de membros do departamento— foram expulsas de Pyongyang para a zona rural. Tudo isso aconteceu em um prazo muito curto –em uma semana.

Kim pretende seriamente desmontar suas armas nucleares ou está se reunindo com Trump por vaidade ou para preservar sua dinastia familiar?
Ele o está fazendo apenas para a preservação de sua família. O objetivo principal de Kim Jong Un ao se reunir com Trump é, primeiro, comprar tempo, e, segundo, conseguir que as sanções sejam levantadas. Finalmente, ele deseja o status que advém de o país ser uma potência nuclear.

Para quem as armas nucleares norte-coreanas representam a maior ameaça?
Kim Jong Un quer que sua ditadura e sua dinastia se perpetuem. Se você quer controlar a sociedade norte-coreana, precisa fazer a Coreia do Sul sentir medo da Coreia do Norte. A própria existência da Coreia do Sul constitui uma ameaça direta ao sistema norte-coreano.

Kim quer assegurar que a Coreia do Sul continue no território sul-coreano e não estenda esse território. Esse é seu primeiro objetivo.

Kim Jong Un quer manter suas forças armadas em equilíbrio com a Coreia do Sul. Mas sabe que elas não têm meios para adquirir tanques e armas modernas. Ele sabe que esse equilíbrio está mudando de modo desfavorável para a Coreia do Norte. As armas nucleares são a única maneira de ele conservar o equilíbrio com a Coreia do Sul.

Então as armas são importantes não apenas em termos militares, mas também como ferramenta política para conservar a coesão da sociedade?
Isso mesmo. Ele precisa de um instrumento para unir a Coreia do Norte em volta dele. A economia norte-coreana é um fracasso. Hoje a população norte-coreana não acredita mais no sistema e na ideologia do país. Por isso Kim precisa de armas nucleares para justificar todos os problemas atuais da Coreia do Norte. Por exemplo, os jornais norte-coreanos estão informando ao povo que a Coreia do Norte é pobre. Por que? Porque a Coreia do Norte gasta tanto com o desenvolvimento nuclear, e, graças a esse desenvolvimento nuclear, a Coreia do Norte tornou-se uma das superpotências mundiais. Portanto, as armas nucleares são usadas claramente para justificar o fracasso econômico.

Paquistão e Índia conservaram suas armas nucleares e agem de modo bastante responsável. Podemos confiar na Coreia do Norte para fazer o mesmo em matéria de proliferação?
Se a América –se Trump— não der a Kim Jong Un o alívio das sanções, Kim Jong Un pode fazer qualquer coisa. Em seu discurso do Ano Novo, Kim Jong Un deixou claro: ele não produziria mais armas nucleares, não faria mais testes, não permitiria a proliferação de armas nucleares. Mas assinalou que se suas exigências não fossem atendidas, ele buscaria um novo caminho.

Qual poderia ser esse caminho?
Para sobreviver, ele pode vender sua tecnologia nuclear.

Quem compraria a tecnologia nuclear da Coreia do Norte?
Há muitos compradores potenciais. Digamos o Irã. O Irã já está submetido a vigilância internacional realmente intensiva. É muito difícil para esse país produzir materiais nucleares. Mas o Irã tem dinheiro para comprar armas nucleares. E como alguém poderia detectar esse tipo de venda nuclear entre o Irã e a Coreia do Norte?

O que Kim faria com o dinheiro? Melhoraria a vida da população?
Talvez usasse uma parte para o desenvolvimento econômico e talvez modernizasse seu arsenal nuclear. Ele sabe muito bem que, a não ser que melhore a vida dos norte-coreanos, seus dias estão contados. Ele gostaria de fazer alguma coisa, na realidade. Kim quer mostrar às pessoas que na verdade é ele quem está resolvendo problemas.

Se é verdade que os dias de Kim podem estar contados, você enxerga alguma possibilidade de golpe de Estado?
Isso é estruturalmente impossível, porque Kim Jong Un tem uma rede muito detalhada de vigilância dos líderes que o cercam. Se você faz parte do alto escalão, todos os funcionários de alto escalão precisam viver no mesmo apartamento. Eles não podem escolher onde viver. São obrigados a viver coletivamente. Você não tem permissão de passar tempo privado, com seus amigos. O sistema de controle da sociedade norte-coreana é realmente inimaginável.

As elites da Coreia do Norte estão submetidas a sanções do mundo e dos Estados Unidos. Com Trump, elas têm uma possível abertura tentadora. Como é a vida para elas e qual é seu estado de ânimo?
As elites norte-coreanas e a própria sociedade norte-coreana enfrentam um dilema no momento. A Coreia do Norte está se transformando. O capitalismo e o sistema de mercado –esse conceito está se disseminando rapidamente no país. Hoje as pessoas querem cuidar de sua sobrevivência diária à sua própria maneira. Elas não acreditam na chamada liderança.

Elas não têm liberdade de viajar para outros países. Não têm a liberdade de possuir carro próprio. Se a pessoa faz parte da elite, pode ter um carro do governo, mas os filhos desses funcionários de alto escalão não podem usar os automóveis fornecidos pelo governo a seus pais. Eles são privilegiados. Mas seus privilégios são limitados.

Você já ouviu pessoas dizerem “precisamos nos livrar de Kim”?
Não ouvi nada, porque na Coreia do Norte você não pode falar esse tipo de coisa, nem sequer para sua mulher. As pessoas norte-coreanas geralmente não abrem a boca. Mas quando você vive na Coreia do Norte, sente esse tipo de clima no ar.

Tradução de Clara Allain

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