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Governo Trump

Resultado da cúpula Trump-Kim é fracasso que eliminaria concorrente de reality show

Voluntarismo de presidente foi colocado em xeque dado o histórico da ditadura norte-coreana

O presidente Donald Trump em coletiva de imprensa em Hanói, no Vietnã - Saul Loeb/AFP
Igor Gielow
São Paulo

Na sua maior derrota no campo em que se considera imbatível, o de negociações interpessoais, o presidente Donald Trump teve de ceder àquilo que se convencionou chamar de “Estado profundo”.
 
A expressão, que soa bem melhor em inglês (“Deep State”), representa o cipoal burocrático que toca governos como um relógio, fazendo correções de rumo e evitando que o voluntarismo ou maluquices de governantes tenham efeito prático.
 
Talvez nem tão profundo assim, já que o próprio Trump colocou a responsabilidade por sua saída abrupta de Hanói sobre o secretário de Estado, Mike Pompeo. Mas quem estava com eles e certamente tem peso na decisão é outra figura, o poderoso John Bolton, assessor de Segurança Nacional.
 
Bolton é um negociador linha-dura das antigas. Blefa quando necessário —as “opções na mesa” para derrubar um ditador que não é amigo do chefe, Nicolás Maduro, que o digam. Mas conhece a história.
 
E ela diz que nem EUA nem Coreia do Norte são exatamente parceiros confiáveis.

A ditadura familiar de Kim Jong-un já costurou acordos de paz que deram em nada no passado: aquele negociado em 1994 por Bill Clinton é de memória especialmente dolorosa, porque facilitou a vida do regime enquanto ele desenvolvia seu programa de armas nucleares.
 
Assim, os americanos têm toda razão em não levantar integralmente as sanções contra Kim. Elas são sua mais poderosa arma fora do campo da guerra, já que a pressão para que a China colocasse sua ditadura de estimação na coleira não funcionou.
 
Para Pequim, aliás, o estado de suspensão é o melhor dos mundos. O regime comunista chinês segue como referência, e Trump não ganha pontos políticos com um anúncio de paz. Coreia do Sul e Japão, os reais interessados em ver amarras colocadas nas armas de Kim, perdem mas também ganham, porque talvez sejam mais ouvidos na próxima rodada.
 
Kim, por sua vez, pôde observar Trump jogar no lixo um dos mais simbólicos tratados de limitação de armamentos do fim da Guerra Fria, o que eliminou mísseis de alcance intermediário do teatro europeu.
 
Como suas bombas e mísseis são a única garantia real de continuidade da bizarra dinastia comunista da Coreia do Norte, o ditador não pestanejou e pediu uma concessão total para paralisar seu programa no campo.

É bom notar que Kim só sugeriu, segundo os relatos disponíveis, suspender as atividades ou talvez fechar a central de Yongbyon. Não falou nada sobre suas armas já existentes, mostrando que os líderes não chegam a um acordo sobre o que seria “desnuclearizar” a península coreana.
 
Estima-se que, desde o ano passado, o país asiático tenha acumulado material nuclear suficiente para sete bombas. Seu inventário, dizem especialistas de forma conservadora, é calculado de 10 a 20 ogivas operacionais. Nessa mesma conta, do prestigioso Boletim dos Cientistas Atômicos (EUA), haveria matéria-prima para armar até 60 mísseis.
 
Mercurial como Trump, Kim agora terá de dar uma resposta doméstica ao fracasso do encontro. Na cúpula do ano passado, pouco de prático resultou, mas o ditador podia dizer que foi reconhecido como um igual, chefe de uma potência nuclear, pelo homem cujo cargo é o mais poderoso do planeta.
 
Nesse sentido, repetição coreografada das fotografias e situações da reunião de Singapura foi um erro. O desconforto na linguagem corporal e nas expressões de ambos ficaram evidentes. É de se especular o que Kim fará: manterá disposição para algum tipo de diálogo ou posará de “homem-foguete” irascível?
 
Já Trump volta de cabeça baixa para enfrentar o furacão doméstico decorrente do depoimento de seu ex-advogado. Para quem prometia dar um fim formal à Guerra da Coreia (1950-53), o resultado da cúpula de Hanói é um fracasso daqueles que eliminam concorrente de “reality show”.

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