Descrição de chapéu Governo Bolsonaro Venezuela

Em encontro em Curitiba, Brasil põe Venezuela na agenda do Brics

Ernesto Araújo introduz tema no bloco que reúne principais apoiadores de Maduro

Clóvis Rossi
São Paulo

O chanceler brasileiro, Ernesto Araújo, introduziu o tema Venezuela na agenda do Brics, o bloco que concentra três dos poucos apoiadores da ditadura de Nicolás Maduro, em contraponto ao próprio Brasil.

A menção à Venezuela foi feita na alocução com a qual Araújo abriu, nesta quinta-feira (14) o encontro dos “sherpas” do grupo (são diplomatas graduados que conduzem as negociações até que os chefes de governo se reúnam para fechar as declarações finais. É alusão aos guias que conduzem os alpinistas no Himalaia, até que estes possam fincar a bandeira no cume, exatamente como fazem os chefes de governo).

O chanceler pediu a atenção dos diplomatas russos, chineses, indianos e sul-africanos (que participam do Brics) para as “precárias circunstâncias” que vive a Venezuela. Cobrou, em seguida, a participação de cada país do grupo para encontrar uma solução capaz de conduzir o povo venezuelano à “felicidade” — segundo Araújo, a felicidade é a meta última do que considera nova política exterior (e interna) no Brasil.

O ministro de Relações Exteriores do Brasil, Ernesto Araújo, durante entrevista coletiva sobre a Venezuela em fevereiro
O ministro de Relações Exteriores do Brasil, Ernesto Araújo, durante entrevista coletiva sobre a Venezuela em fevereiro - Walterson Rosa/Folhapress

Durante a sessão inaugural, nenhum dos outros diplomatas mencionou o tema Venezuela, até porque está longe de figurar na agenda do Brics, cuja cúpula de 2019 será em Brasília, no fim do ano.

Mas, na hora das despedidas de Araújo, que regressou na própria quinta-feira (14) a Brasília, o “sherpa” russo indicou que ouvira o recado. Disse ao chanceler brasileiro que estava de pleno acordo com a fala de Araújo de que os Brics deveriam trabalhar pela paz mundial. Acrescentou imediatamente: “Paz também na América Latina".

Cabem duas interpretações para a frase. Ou a diplomacia russa aceita que tem que ser parte da solução ou apenas reafirma a posição tradicional do Kremlin de que “paz” significa não intervenção na Venezuela e a manutenção de Maduro no poder.

Em todo o caso, a diplomacia brasileira deixou Curitiba, onde se deu o encontro dos “sherpas", com a sensação de que há uma abertura para continuar conversando sobre a Venezuela, por mais que as posições dos componentes do grupo sejam bastante diferentes uma das outras.

Na prática, Rússia e China são os dois únicos grandes países que continuam apoiando Maduro e fornecendo o oxigênio para o ditador respirar, ante o isolamento a que a maioria dos países ocidentais o condenou.

A Índia, a partir de fevereiro, se converteu no principal país importador de petróleo venezuelano, depois que os Estados Unidos impuseram um embargo de facto às importações.

Mas nesta quarta-feira (13), o conglomerado Reliances Industries, que possui a maior refinaria do mundo, deixou de comprar petróleo da Venezuela, atendendo pedido de Mike Pompeo, o secretário de Estado americano.

O governo indiano, no entanto, não aderiu ao reconhecimento de Juan Guaidó como presidente encarregado, ao contrário do que já fizeram mais de 50 países, Brasil inclusive.

Nesse cenário, o Brics é a arena mais oportuna para que o Brasil possa ensaiar convencer os apoiadores de Maduro a abandoná-lo. O discurso de Araújo é um primeiro passo nesse sentido, mas o resultado só ficará visível, eventualmente, ao longo do tempo: o encontro dos “sherpas” foi apenas a primeira atividade da presidência brasileira dos Brics. Haverá cerca de 100 outras reuniões, inclusive em nível ministerial, até a cúpula de novembro.

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