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Venezuela

1º de Maio vai medir se temperatura da rua será alta o bastante para ser sentida nos quartéis de Maduro

Oposição fracassa até agora em obter apoio das altas patentes das Forças Armadas

Clóvis Rossi

A Venezuela viveu nesta terça-feira (30) mais um capítulo da insurreição de baixa intensidade que já se fez presente em fevereiro, no dia da frustrada tentativa de fazer chegar a ajuda humanitária organizada por Juan Guaidó.

De baixa intensidade porque os insurretos, de modo geral, não estão armados. Não obstante, mantiveram-se nas ruas, protestando, apesar da habitual repressão pesada do regime.

Mas a insurreição não obteve o apoio —solicitado por Guaidó, uma e outra vez— de oficiais das Forças Armadas em número suficiente para fazer o sítio definitivo a Nicolás Maduro.

Com isso, o que Guaidó batizou de “Operação Liberdade” fracassou no essencial, por mais que tivesse começado marcando um ponto importante: Leopoldo López, o mais badalado preso político venezuelano, deixou a prisão domiciliar em que se encontrava. E deixou-a graças ao apoio dos agentes que o vigiavam, todos do Sebin (Serviço Bolivariano de Inteligência, uma das mais duras instituições repressivas).

Mas essa vitória inicial terminou em uma derrota feia: Leopoldo López, com toda a família, refugiou-se na embaixada da Espanha. Significa que deixará de ter a presença política que tinha, mesmo em prisão domiciliar.

López é padrinho político de Guaidó e o mais provável candidato presidencial se e quando houver eleições democráticas, se e quando Maduro deixar o poder.

O fracasso da insurreição, pelo menos no que diz respeito à obtenção de apoio expressivo de militares de alta patente, levanta a dúvida sobre as intenções de Guaidó ao antecipar o chamado à mobilização popular. Como se sabe, a oposição havia marcado para o 1º de maio (esta quarta, portanto) o que batizava de a maior manifestação na história da Venezuela.

Por que, então, a antecipação para terça, se havia preparativos intensos para a quarta-feira? É possível que John Bolton, o assessor de Segurança Nacional de Donald Trump, tenha dado inadvertidamente uma pista sobre os motivos de Guaidó: Bolton disse que três das figuras mais relevantes do regime haviam se comprometido, em conversações nos últimos meses com os americanos e a oposição, a abandonar Maduro.

A lista de Bolton incluía ninguém menos que o ministro da Defesa, Vladimir Padrino López, na prática o homem que detém a chave da permanência ou defenestração de Maduro; Maikel Moreno, presidente do Superior Tribunal de Justiça; e Iván Rafael Hernández Dala, diretor-geral de contra-inteligência.

Todos teriam concordado em que “Maduro tem que sair", disse Bolton.

Nenhum dos três abandonou Maduro. Nem outros chefes militares relevantes, ainda que 25 oficiais tenham pedido asilo na embaixada do Brasil. É um sinal de que há de fato rachaduras no edifício militar de sustentação do regime.

O ponto agora é saber se a derrota da insurreição em atrair os militares abate a disposição dos insurretos civis de prosseguir nos protestos.

O 1º de maio, portanto, vai medir a temperatura da rua. Precisará ser bastante elevada para ser sentida nos quartéis.

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