Presidente do Uruguai destitui cúpula militar por crime da ditadura

Militar admitiu ter jogado militante tupamaro em rio

Buenos Aires

O presidente do Uruguai, o esquerdista Tabaré Vázquez, decidiu nesta segunda-feira (1º) destituir o ministro da Defesa, Jorge Menéndez, o vice-ministro desta pasta, Daniel Montiel, e os três generais que integravam o Tribunal de Honra do Exército, entre eles o recém-nomeado comandante da força, José Gonzalez.

Gonzalez vinha substituindo, desde 12 de março, o então titular do cargo, Guido Manini Rios, também afastado por Vázquez.

O tribunal investigava o assassinato do militante tupamaro Roberto Gomensoro, em 1973, e a desaparecimento de Maria Claudia García de Gelman, nora do poeta argentino Juan Gelman (1930-2014), em 1976.

O ministro da Defesa do Uruguai, Jorge Menendez, destituído pelo presidente Tabaré Vázquez - Adrian Dennis - 8.set.16/AFP

Vázquez considerou que o tribunal vinha cometendo irregularidades ao acobertar os verdadeiros autores e mandatários de assassinatos e desaparecimentos ocorridos durante o período militar uruguaio (1973-1985) e que enviaria todo o caso para a Justiça civil.

No processo, dois ex-militares, José Nino Gavazzo e Jorge Silveira, são acusados. Apesar de Gavazzo ter admitido que havia jogado num rio o corpo de Gomensoro, o tribunal concluiu que seus atos não indicavam um delito.

A confissão também demonstrou que, por três anos, os militares que participaram do assassinato nada fizeram para impedir que outro militar, o coronel Juan Carlos Gómez, fosse à prisão pela morte de Gomensoro, mesmo sabendo que Gómez era inocente.

Vázquez, que teve familiares presos durante o regime, sempre defendeu o fim da Lei de Anistia.

Porém, mesmo sem conseguir derrubá-la, tem estimulado a Justiça a realizar julgamentos baseados em leis do direito internacional que determinam que crimes de lesa humanidade não prescrevem e que crimes de desaparição são delitos continuados.

Desde então, o Uruguai tem realizado julgamentos de militares e civis que participaram da repressão, algo que tem respaldo popular e fez parte da plataforma eleitoral de Vázquez em suas duas eleições.

Dirigentes da Frente Ampla, coalizão da qual faz parte o partido socialista, de Vázquez, protestaram durante o fim de semana, pedindo a renúncia de González.  

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