Descrição de chapéu The New York Times

Após 'congestionamento' de alpinistas, Nepal pode mudar regras do Everest

Morte de onze montanhistas faz governo estudar novos critérios para escalada

Bhadra Sharma Jeffrey Gettleman
Katmandú (Nepal) | The New York Times

Depois da ocorrência de congestionamentos humanos no topo do monte Everest e de um ambiente agressivo e desregrado que foi comparado a “um zoológico”, autoridades nepalesas disseram na quarta-feira (29) que estudam a possibilidade de mudar as regras sobre quem recebe autorização para escalar a montanha mais alta do mundo.

“É hora de rever as leis antigas”, disse o deputado Yagya Raj Sunuwar.

Até agora, praticamente qualquer pessoa podia conseguir uma autorização de escalada do Everest. Mas este ano foi marcado por congestionamentos perto do pico da montanha e uma presença grande de alpinistas inexperientes.

Montanhistas veteranos que escalaram a montanha recentemente descreveram um ambiente que lembrava o de “O Senhor das Moscas”, com turbas de pessoas em roupas acolchoadas equilibradas precariamente perto do topo, acotovelando-se para fazer selfies.

Pelo menos 11 alpinistas morreram no Everest este ano, fazendo desta temporada uma das mais letais da história. Para veteranos, muitas das mortes poderiam ter sido evitadas, e o número cada vez maior de alpinistas novatos que tentam subir a montanha aumentou o perigo da escalada para todos.

Vários representantes governamentais em Katmandu, a capital nepalesa, disseram que estão analisando o que aconteceu e pensando em exigir que todos os alpinistas apresentem comprovantes de experiência e um atestado de saúde verificável.

“Com certeza haverá algumas mudanças no setor das expedições”, disse Mira Acharya, funcionário sênior do departamento de turismo nepalês. “Estamos discutindo algumas reformas, incluindo a definição de critérios para todos os candidatos a escalar o Everest.”

Ele disse que a questão dos alpinistas inexperientes foi discutida numa reunião recente.

O monte Everest é um bloco imenso de gelo e rocha na fronteira entre Nepal e China. A China também promove expedições ao pico, mas parece que o acesso pelo lado chinês não é tão aberto a todos. Entre 300 alpinistas que tentaram chegar ao topo pelo lado chinês este ano, houve duas mortes, comparadas com nove pelo lado nepalês, embora quase 800 pessoas tenham escalado pela encosta situada no Nepal.

O caminho até o topo é tão estreito e íngreme que os alpinistas precisam tomar grande cuidado para desviar-se de outros que adoeceram ou morreram no percurso. No caso de alguns dos que morreram, seus cilindros de oxigênio teriam se esgotado, em parte porque a presença de grande número de pessoas tentando chegar ao topo ao mesmo tempo provocou esperas longas.

Os alpinistas foram obrigados a passar horas aguardando na neve a mais de 8.500 metros de altitude, enquanto seu oxigênio comprimido diminuía lentamente e sua energia se esgotava.

Vários montanhistas descreveram uma corrida implacável ao topo na qual outros alpinistas se recusavam a compartilhar artigos essenciais à vida: água e oxigênio.

Amit Chowdhury, presidente da comissão de segurança da Fundação Internacional de Montanhismo, disse que as regras vigentes em algumas outras montanhas conferem aos guias o poder de barrar a ascensão de um alpinista quando o guia acha que ele não conseguirá fazer a escalada ou se comporta incorretamente.

Mas, segundo ele, “no Everest não é assim. A pessoa pode contratar um guia nas ruas de Katmandu, ou então a agência de viagens lhe diz ‘aqui está seu guia’, e pronto. Não há como saber se aquele guia é capaz de avaliar e determinar a capacidade da pessoa que está fazendo a escalada.”

O Nepal é um dos países mais pobres da Ásia, e mesmo o Everest, o maior tesouro de sua economia turística, é atingido por fraudes e escândalos de corrupção.

No ano passado, organizações de mídia e seguradoras expuseram um complô de alguns guias, empresas de helicópteros, donos de pousadas e hospitais para arrancar milhões de dólares de seguradoras, incentivando alpinistas que apresentassem os mais mínimos sintomas de mal da montanha a recorrer aos serviços caros de evacuação médica. Uma investigação do governo descobriu que em alguns casos, os donos das pousadas colocaram contaminantes na comida dos alpinistas para que adoecessem e precisassem ser retirados de helicóptero.

Pelas regras vigentes hoje no Nepal, todos os alpinistas têm que apresentar uma cópia de seu passaporte, dados biográficos básicos e um certificado que ateste que têm condições de saúde para chegar ao topo.

Mas as autoridades nepalesas admitem que não têm meios de confirmar as informações de saúde antes de conceder as autorizações. Estrangeiros pagam US$ 11 mil pela autorização, e o custo total de guias, equipamentos, alimentação e hospedagem para uma expedição de seis semanas pode facilmente passar de US$ 50 mil. Alpinistas nepaleses pagam cerca de US$ 700 pela autorização.

As autoridades disseram que a temporada de escalada do Everest agora se encerrou, conforme o previsto, e não há mais montanhistas na parte superior da montanha.

As regras diferem em cada montanha. Os interessados em escalar o monte Aconcágua, na Argentina, precisam dar detalhes sobre escaladas anteriores que fizeram no inverno. Experiência semelhante é recomendada para quem quer subir os montes Denali, no Alasca, e Kilimanjaro, na Tanzânia. Para outros picos, como o Vinson, na Antártida, o Elbrus, na Rússia, e o Kosciuszko, na Austrália, as restrições são menores.

Grupo escala o Aconcágua, na Argentina - Max Whittaker/The New York Times

Muitos montanhistas veteranos atribuem os problemas do Everest à proliferação de firmas mais baratas de turismo de aventura que surgiram em Katmandu nos últimos cinco a dez anos. Essas firmas disputam os dólares dos alpinistas, segundo veteranos, e não são tão criteriosas.

O montanhista Adrian Ballinger, chefe dos guias da Alpenglow Expeditions, disse que sua empresa exige que todos os clientes interessados em escalar o Everest sejam avaliados por um médico se tiverem qualquer problema de saúde que possa dificultar a escalada da montanha. Sua firma rejeita 70% dos candidatos.

“O problema é que muitas das pessoas que rejeitamos para participar de nossos grupos provavelmente encontram uma agência que cobra menos e se dispõe a levá-los”, ele explicou.

A sugestão dele é que o Nepal obrigue qualquer pessoa que queira escalar o Everest, que tem 8.848 metros de altitude, a apresentar provas de que já escalou pelo menos um outro pico com mais de 8.000 metros.

Como o Nepal possui vários outros picos dessa altitude, obrigar os alpinistas a conseguir experiência antes de encarar o Everest poderia trazer renda adicional ao Nepal.

“As pessoas iriam a outras montanhas no Nepal antes de tentarem o Everest”, disse Ballinger, “e as pessoas que escalam o Everest teriam muito mais experiência.”

Chowdhury fez outra sugestão: criar um comitê de organizações internacionais de alpinismo que avaliaria a declaração de intenção dos candidatos e as recomendações sobre eles feitas por guias em escaladas anteriores.

A maior crítica que ele faz ao que acontece no Everest é que cada vez mais alpinistas não tiveram treino anterior e dependem dos guias para fazer todo o trabalho para eles, como carregar seus cilindros de oxigênio.

“Hoje a escalada do Everest não passa de uma viagem com um guia”, ele disse. “É como quando vemos pessoas praticando rafting no rio Colorado ou no Ganges, na Índia –é o guia quem rema. As outras pessoas são apenas passageiros que ficam sentados.”

Os guias nepaleses criticaram a presença de alpinistas inexperientes, mas também criticaram o governo nepalês, dizendo que ele não policia adequadamente a montanha mais importante do país. Funcionários governamentais enviados ao acampamento de base do Everest muitas vezes apresentam mal da montanha e abandonam seus postos, disseram os guias, obrigando as agências de expedições a monitorar o tráfego elas mesmas.

“Seria ótimo se alpinistas inexperientes fossem impedidos de escalar o Everest”, disse Lakpa Dendi Sherpa, um guia nepalês experiente. “Mas quem vai fazer isso? O governo? Duvido. Ele nem consegue tirar o lixo do Everest. Não faz nada senão recolher receita."

Tradução de Clara Allain

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