Mortes no Everest chegam a 11 em meio a engarrafamento de alpinistas

Filas para escalar a montanha mais alta do mundo geram riscos fatais aos viajantes

Katmandú (Nepal) e São Paulo | AFP

Um alpinista americano perdeu a vida durante a descida do Everest, anunciaram as autoridades do Nepal, o que eleva a 11 o número de mortos na maior montanha do mundo nesta temporada.

Christopher John Kulish, 61, alcançou o topo da montanha, de 8.848 metros, e retornou na segunda-feira (27) ao acampamento base mais elevado do Everest.

Foto feita pelo escalador Nirmal Purja mostra engarrafamento de montanhistas no Everest - Project Possible - 22.mai.19/AFP

"Ele teve um problema cardíaco e morreu, de acordo com os organizadores da expedição", afirmou Mira Acharya, funcionário do Departamento de Turismo do Nepal.

A atual temporada, que pode superar o recorde de 807 pessoas no topo do Everest, registrado em 2018, foi a mais letal desde 2015.

Além das 11 pessoas mortas no Everest, nove alpinistas faleceram em montanhas com mais de 8.000 metros de altura na região do Himalaia. No ano passado, cinco pessoas morreram

Várias das mortes são atribuídas aos engarrafamentos na chamada "zona da morte". Estas paradas forçadas aumentam os riscos de congelamento, exaustão e de doenças relacionadas à altitude.

No final de maio termina a chamada "janela de oportunidade", o período de poucas semanas em que as condições são menos extremas no Everest. A consequência é que o número de pessoas que coincidem nesse período na mesma rota para tentar chegar ao topo aumenta. 

Na semana passada, uma foto do alpinista Nirmal Puja mostrando uma fila de alpinistas arrastando suas botas de escalada rodou o mundo.

"Eu não posso acreditar no que vi lá em cima. Morte. Caos. Cadáveres no caminho e nas tendas do acampamento quatro. Pessoas que eu tentei convencer a voltar, mas que acabaram morrendo", relatou no Instagram o montanhista Elia Saikaly.

A alpinista indiana Anuja Vaidya, 21, que alcançou o cume na quarta-feira passada, disse que sua equipe teve que esperar mais de uma hora na descida porque havia uma fila de alpinistas no caminho.

Devido aos engarrafamentos, "os cilindros de oxigênio de muitos montanhistas se esgotam", explicou a montanhista indiana Ameesha Chauhan, 29, que está recebendo tratamento em Katmandu depois de congelar sua mão esquerda.

"Alguns alpinistas morreram devido à sua própria negligência. Eles insistiram em chegar ao topo quando seu oxigênio já estava em um nível reduzido, colocando em risco suas vidas", assegura.

"Eu tive a impressão de que o Everest estava lotado. Apenas os alpinistas com algumas habilidades e certa experiência deveriam receber uma autorização para escalar esta montanha", afirma ela. 

O xerpa Lam Babu, que subiu o Everest sete vezes, alertou sobre os riscos dessa afluência, especialmente se as equipes não tiverem oxigênio extra.

"Havia mais de 200 pessoas em fila, e você não pode ultrapassá-las. Foi muito difícil, vimos equipes esperando por duas ou três horas" na quarta-feira, disse Babu.

A temporada de escalada está quase no fim. "Há apenas alguns alpinistas do lado do Nepal, que vão subir nesta segunda-feira", disse Gyanendra Shrestha, responsável governamental da montanha.

Neste fim de temporada, com o aquecimento global derretendo as geleiras, quatro cadáveres foram recuperados e dez toneladas de lixo foram coletadas, nas rotas entre os acampamentos-base e o topo das montanhas, informaram nesta segunda-feira as autoridades do Nepal. 

Este ano, o Nepal concedeu um registro de 381 autorizações para a temporada de primavera, ao preço de US$ 11 mil cada. A China concedeu cerca de 140 permissões. Cada titular de uma licença é acompanhado por pelo menos uma guia, o que explica os engarrafamentos nas alturas.

Desde que as autoridades nepalesas liberalizaram a subida a esta montanha na década de 1990, as expedições comerciais aumentaram e, portanto, o número de alpinistas.

O pico do Everest foi alcançado pela primeira vez em 1953 pelo neozelandês Edmund Hillary e pelo nepalês Tenzing Norgay.

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