Únicos brasileiros a atingirem cume do Everest neste ano driblaram engarrafamentos

Juarez Soares e Moeses Fiamoncini subiram no contrafluxo para evitar filas

Flávia Mantovani João Perassolo
São Paulo

Quando realizou o sonho de chegar ao cume do Everest, às 3h11 do último dia 22, o brasileiro Juarez Soares, 48, não sentiu uma “explosão de sentimentos”, como imaginava. “Senti uma força muito grande, mas ao mesmo tempo a razão me puxava. Tinha uma montanha para descer, precisava focar na tarefa. É perigoso.”

Tanta concentração tem razão de ser. A aventura de escalar a maior montanha do mundo pode se tornar mortal —nesta temporada, a mais letal desde 2015, foram 11 vítimas, algumas em meio a engarrafamentos de alpinistas. Além disso, acidentes acontecem com mais frequência no caminho de volta, quando a pessoa está mais cansada e baixou a guarda por ter cumprido o objetivo.

Arquivo pessoal
O brasileiro Juarez Soares em expedição ao monte Everest neste ano - Juarez Soares e montanhas com neve ao fundo

Soares, o 24º brasileiro a atingir o topo do Everest na história e o primeiro neste ano, fez o “ataque” ao cume (a subida final) nos dias com mais filas. Sua estratégia foi sair cedo, às 17h, já que a maioria das pessoas deixa o acampamento depois do anoitecer, para chegar de manhã.

“Não pegamos fila porque estávamos no contrafluxo”, contou, por telefone, logo após chegar ao Brasil. “Enquanto o pessoal subia a gente descia.”

No trajeto, viu corpos, dois deles de pessoas mortas havia poucas horas —a dificuldade de acesso complica o resgate.

O brasileiro, que escala há 18 anos e já atingiu o pico de seis das sete maiores montanhas do mundo, tomou vários cuidados. Treinou intensivamente nos seis meses pré-viagem, contratou um guia de confiança e, uma vez no acampamento-base, passou mais de 20 dias se aclimatando à altura (subindo e descendo distâncias gradativamente maiores).

Mesmo assim, um pequeno acidente quase o impediu de continuar. Soares escorregou em um pedregulho coberto de gelo, machucou a coluna e a costela. “Tem que fazer um planejamento impecável, mas sempre vai ter um fator imponderável”, diz.

Conseguiu se recuperar e continuar a empreitada. Ele e seu guia ficaram no cume por 20 minutos, aguentando uma temperatura de -37ºC. “A gente faz aquele esforço todo, enfrenta vento, frio, tira as fotos de praxe, abraça o companheiro, agradece a Deus e desce depressa”, disse.

Na volta, foi relaxando aos poucos. “Até agora a ficha está caindo. É bacana ter chegado ao cume. Mas não tenho a sensação de que conquistei a montanha. Sinto humildade e respeito por ela”, afirmou.

Moeses Fiamoncini, 39, o outro brasileiro que chegou ao pico do Everest nesta temporada, também evitou o engarrafamento de alpinistas na subida. No caso dele, por chegar mais tarde que o fluxo. “Eram 11h30, e a maioria chega às 7h, 8h. Enquanto todos desciam, nós subíamos”, contou ele, que ainda está no Nepal.

O alpinista subiu sem oxigênio suplementar até 8.300 metros e acompanhou o colega chileno Juan Pablo Mohr, que completou o trajeto todo sem esse auxílio, o que tornou seu ritmo mais lento. Foram 15 horas do último acampamento até o topo.

O brasileiro Moeses Fiamoncini e o chileno Juan Pablo Mohr no cume do Everest no dia 23 de maio
O brasileiro Moeses Fiamoncini e o chileno Juan Pablo Mohr no cume do Everest no dia 23 de maio - Arquivo pessoal

“Cada um tem que saber escutar o seu corpo, e a experiência leva a isso. A decisão de tomar ou não oxigênio tem que ser tomada em um estágio consciente físico e psicológico, e não quando a pessoa já está muito mal”, diz.

A descida foi em condições extremas: sob tempestade de neve com ventos de 65 km/h.

Fiamoncini, que escala desde 2008, agora quer completar todos os picos de mais de 8.000 metros do mundo. Foi o primeiro brasileiro a escalar o monte Manaslu, de 8.156 m, também no Nepal, e agora irá para o perigoso K2, no Paquistão, segundo maior montanha do mundo.

Juarez Soares também não se deu por satisfeito com o Everest e tem outros projetos em vista —por exemplo, escalar vulcões no Equador e completar as dez montanhas mais altas do Brasil junto com os filhos, de 15 e 19 anos. “Quando a gente é mordido pelo bichinho da montanha, não consegue ficar longe.”

Guia experiente viu demanda crescer

Veterano de Everest, o alpinista Rodrigo Raineri completou 50 anos no meio de uma expedição à montanha nesta temporada. Raineri, que atingiu o cume em 2008, 2011 e 2013 —fora outras vezes em que chegou bem perto do pico—, voltou ao local após seis anos, com o plano de escalar até o topo e descer de parapente.

Quando estava perto do dia de iniciar a subida final, porém, voltou para o acampamento-base para descansar e comeu algo estragado. Teve diarreia, vômitos, tomou antibiótico, mas acabou com uma pneumonia que o manteve internado em um hospital de Katmandu por quatro dias. Teve que parar a missão e voltar.

“Nunca aconteceu isso na minha vida. Lá no Nepal este ano estava bem complicado, tinha muita gente. As condições de higiene, que já não são muito boas, ficaram ainda mais negligenciadas por conta da alta demanda. Não tem estrutura”, diz.

Ele conta que nos nove dias de caminhada até o acampamento-base, passou por pousadas superlotadas, com cerca de 150 pessoas dormindo na sala de jantar, por falta de vagas.

Uma campanha do Nepal para estimular o turismo após o terremoto que atingiu o país em 2015 pode ter contribuído para o aumento no número de visitantes, afirma. “É um país muito pobre, que teve anos ruins para o turismo em 2015 e 2016. A partir de 2017, com a campanha, cresceu muito a procura por turistas”, afirma.

Segundo ele, a cada ano que passa mais pessoas sem o preparo suficiente tentam escalar o pico. “O Everest é um ícone. Tem gente que quer subir lá para aparecer, acha que é só contratar um guia e pronto. Mas não é um passeio no parque. É uma montanha de respeito.”

Para Raineri, a ansiedade dos alpinistas de aproveitar a primeira janela de clima bom, que permite a subida, contribuiu para os engarrafamentos. Ele recomenda esperar e não ir na primeira janela. “Eu fico aproveitando a montanha, deixo aquele bando de gente passar e subo com calma depois.”

Guia profissional de montanhistas, o brasileiro diz que é contratado “não para levar o cliente para cima, mas para dizer a hora em que ela tem que descer”: “O mais difícil é saber quando não dá mais. Uma pessoa inexperiente não consegue saber.”

Peculiaridades da escalada do Everest

  • Um guia nepalês local, da etnia sherpa, acompanha o alpinista
  • Há dois caminhos possíveis até o cume, um pelo Nepal (rota sul) e outro pelo Tibete, região autônoma da China (rota norte)
  • A rota sul é a mais popular: o caminho é mais direto e mais inclinado do que a rota norte. Porém, o risco de avalanche é maior. Neste percurso, um alpinista pode descer mais rápido caso precise de ajuda, e helicópteros de socorro chegam tanto à base quanto ao acampamento 1 (veja o infográfico abaixo). É mais fácil conseguir permissão do governo
  • A rota norte é tão difícil quanto a sul, porém há menor risco de avalanches. É também um caminho com ventos mais fortes e menos incidência de luz solar. Não circulam helicópteros de emergência. Por ser em um território chinês, é mais difícil de conseguir autorização do governo para a escalada. É mais militarizada do que o caminho via Nepal
  • O alpinista fica de 20 a 25 dias se aclimatando no acampamento-base, o primeiro ponto da escalada, já na montanha. Trata-se de uma minicidade de barracas montada anualmente pelos sherpas para receber os montanhistas. A base, com 5.364 metros de altitude, é mais alta do que a maior montanha da Europa, o Mont Blanc (4.810 m)
  • Entre a base e o acampamento 1 (5.943 m), há a temida Cascata de Gelo do Khumbu –Khumbu é a geleira mais alta do mundo. Blocos de gelo do tamanho de casas podem se quebrar e cair, esmagando os montanhistas. O Khumbu tem também fendas com buracos muito profundos, de onde não se vê o fundo. Sherpas especializados em gelo preparam a travessia dos montanhistas nesta parte com cordas e escadas

  • Depois do acampamento 2 (6.492 m), os alpinistas enfrentam um paredão de gelo chamado Lhotse, a quarta montanha mais alta do mundo. Para atravessar este trecho, eles usam cordas e degraus cavados no gelo por outros montanhistas. É quase impossível que helicópteros de resgate cheguem a este ponto, caso haja algum imprevisto

  • Entre os acampamentos 2 e 3 (7.315 m), existe uma espécie de aranha –as aranhas pulantes do Himalaia–, que se alimentam de insetos trazidos pelo vento e incomodam os montanhistas

  • É recomendável o uso de oxigênio auxiliar a partir do acampamento 3 (7.315 m). Tubos de oxigênio duram até 12 horas

  • O trajeto entre o acampamento 4 (8.000 m) e o cume (8.848 m) é conhecido como “zona da morte”, pois o corpo não se adapta a tanta altura. Há risco de edema cerebral e pulmonar, e quem cai ou desmaia não recebe ajuda por ser perigoso para quem resgata. Há diversos cadáveres neste trecho final, onde ocorre boa parte das mortes
  • O ar no cume contém apenas um terço do oxigênio do nível do mar. Há risco de tontura e os reflexos ficam lentos. Muitas pessoas morrem no caminho de descida, por exaustão

Fontes: Juarez Soares, Rodrigo Raineri e The Washington Post

Erramos: o texto foi alterado

A primeira versão do infográfico apontava incorretamente a nacionalidade do escalador Edmund Hillary como britânica. Ele é, na verdade, neozelandês. No mesmo infográfico, afirmava-se que a morte é certa caso alpinistas permaneçam na chamada "zona da morte" da montanha por mais de 48 horas. O correto é afirmar que há risco de morte dentro de aproximadamente 48 horas. A geleira Khumbu foi identificada como a maior do mundo. Ela é, na verdade, a mais alta do mundo. As informações foram corrigidas.

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