Descrição de chapéu Portugal

Estudantes brasileiros em Lisboa distribuem flores em protesto contra 'caixa de pedras'

Grupo satírico afirma que houve interpretações errôneas sobre instalação na universidade

Manuela Ferraro
São Paulo

Contra pedras, flores. Foi assim que 70 estudantes brasileiros se manifestaram após a instalação de uma caixa de pedras, com os dizeres “grátis para atirar em um zuca [maneira ofensiva de se referir a brasileiros]”, por um grupo de portugueses da faculdade de Direito da Universidade de Lisboa .

Os brasileiros disseram que a manifestação, pacífica e apartidária, quer “deixar claro que a caixa com pedras é um ato xenófobo, e não uma piada”.

“Queríamos dizer que se os portugueses nos atiram pedras, nós revidamos com flores”, afirma Flora Almeida, uma das organizadoras do ato. “Mas também sabemos que a xenofobia vem apenas de uma minoria em Portugal.”

Em solidariedade, também houve manifestações com flores na Universidade do Porto e na Universidade Beira Interior, localizada na cidade de Covilha. 

Manifestação na Universidade do Porto, em solidariedade aos estudantes brasileiros da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa
Manifestação na Universidade do Porto, em solidariedade aos estudantes brasileiros da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa - Divulgação

Em nota publicada nesta quinta (2), nas redes sociais, a direção da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa disse que a caixa de pedras não reflete o “espírito da instituição" e abriu um processo de inquérito. A diretoria organizou uma reunião com o grupo Tertúlia Libertas, autor da caixa, que prometeu retratação.

Junto ao Núcleo de Estudantes Luso-brasileiros (NELB), da Faculdade de Direito, formado para dar apoio a brasileiros na instituição, foi aberta também uma ouvidoria para receber denúncias de abusos e de xenofobia.

O movimento Tertúlia Libertas divulgou dois comunicados, na quarta (1º) e na quinta (2), afirmando que a intenção era satirizar o processo de acesso dos estudantes à universidade, e não a discriminação de brasileiros.

“Nós não somos discriminatórios, somos igualitários, porque gozamos com o mesmo despudor, maioria ou minoria. Isto não é sobre brasileiros, é sobre humor no caos”, afirmou o grupo por meio do jornal “O Berro”, produzido pelo movimento e classificado por eles como satírico.

Estudantes brasileiros protestam em frente à Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa
Estudantes brasileiros protestam em frente à Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa - Divulgação

"Apedrejem-nos a nós, mas então, apedrejem-nos por tudo. Por antissemitismo quando sugerimos viagens a finalistas à Auschwitz, por sugerir atirar pedras a mulheres há dois anos, por enforcar um coelho para receber o, à altura, primeiro-ministro Passos Coelho [...] a realidade é que se uma piada secundária gerou tanto alarido é porque já estava na altura de se falar sobre o tema de maneira séria." 

O grupo, que tem histórico de atuações polêmicas, diz, ainda, que não ultrapassou os limites do exercício da liberdade de expressão, mas que compreende que “devido à descontextualização e a interpretações errôneas acabou ferindo suscetibilidades.”

Os brasileiros criticaram os comunicados. "Apesar de recebermos muito apoio da direção, o comunicado do Tertúlias foi uma justificativa, e não um pedido de desculpas", diz Claudio Cardona, diretor de comunicação do NELB.

Estudantes do Brasil lideram com folga a lista de nacionalidades mais presentes no ensino superior português. São mais de 12,2 mil alunos: quase a mesma quantidade que têm, somados, os outros quatro países do top 5 —Angola, Espanha, Cabo Verde e Itália.

A quantidade de alunos internacionais em instituições portuguesas praticamente dobrou na última década, graças a uma série de iniciativas que facilitaram o acesso. 

Com o aumento do número de estudantes, as queixas de comportamento xenofóbico por parte de estudantes e professores também segue em alta.

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