Onda de calor recorde obriga Alemanha a limitar velocidade nas 'autobahns'

Temor é que asfalto rache devido às altas temperaturas que atingem todo o continente

​William Wilkes Brian Parkin
Bloomberg

Uma onda de calor escaldante levou as autoridades da Alemanha a impor na quarta-feira (26) limites de velocidade no sistema de rodovias de alta velocidade do país (as "autobahns"), no mais recente sinal de como os eventos climáticos vêm afetando a maior economia da Europa.

As autoridades estaduais alemãs estão impondo limites de velocidade de até 100 km/h em alguns trechos das rodovias do país devido a temores de que as temperaturas excepcionalmente altas causem rachaduras perigosas na superfície das "autobahns", anunciou um porta-voz da agência rodoviária alemã.

A temperatura na Alemanha pode ultrapassar o recorde de 38,2ºC registrado para o mês de junho, de acordo com o serviço DWD de meteorologia. O recorde absoluto de temperatura, 40,3ºC , estabelecido em julho de 2015, também pode ser superado.

Criança brinca em fonte na cidade de Colônia, na Alemanha
Criança brinca em fonte na cidade de Colônia, na Alemanha - Thilo Schmuelgen - 26.jun.19/Reuters

Os meteorologistas atribuem a culpa pela temperatura elevada à mudança do clima, que envia jatos de ar quente do deserto do Saara para a Europa Ocidental.

O calor sufocante ecoa uma seca prolongada que atingiu a Alemanha ao longo de 2018, e levou à suspensão da navegação no rio Reno, prejudicou a geração de energia hidrelétrica, causou incêndios nas florestas e fez o país importar grãos pela primeira vez em 24 anos. 

A alta da temperatura torna mais provável a ocorrência de violentas tempestades de verão, o que espelha uma tendência que também foi registrada na região do Meio-Oeste americano.

Mudanças nas correntes de ar, que normalmente trazem ar mais frio do Oceano Atlântico para a Europa, estão contribuindo para a "formação de condições quentes e secas sobre o continente, o que às vezes transforma alguns dias ensolarados em perigosas ondas de calor", disse Dim Coumou, climatologista da Vrije Universiteit de Amsterdã.

O calor de começo de verão já causou incêndios em áreas de vegetação rasteira em torno de Berlim. Em Paris, voluntários distribuíram água a moradores de rua, depois que o governo francês determinou o fechamento de escolas e ativou planos de emergência para proteger os moradores. 

A Cruz Vermelha alertou que calor excessivo pode causar tonturas, convulsões e alucinações, especialmente entre as pessoas mais velhas.

Os preços da eletricidade dispararam em todo o continente, diante da expectativa de que os europeus recorram mais aos ventiladores e aparelhos de ar condicionado para combater o calor.

O calor de junho na Europa —parte de uma sucessão de padrões climáticos extraordinários que inclui temperaturas de mais de 50ºC na Índia, que causaram a morte de mais de 180 pessoas— serve como o lembrete mais recente sobre os efeitos tangíveis da mudança climática.

Como ignorar esses riscos está se tornando mais difícil, as preocupações ambientais ganharam espaço na agenda política. O apoio ao Partido Verde superou o apoio da UDC (democratas-cristãos), a sigla da chanceler Angela Merkel, em algumas pesquisas eleitorais recentes.

As tensões políticas são graves. A polícia alemã removeu à força manifestantes que ocuparam uma mina de carvão a céu aberto controlada pela RWE, uma empresa de infraestrutura alemã que é a maior emissora europeia de dióxido de carbono.

Os manifestantes bloquearam as ferrovias usadas para transportar combustível a usinas de energia próximas, em protesto contra o que veem como ritmo lento de implementação dos planos da Alemanha para abandonar o uso de carvão na geração de eletricidade.

"Nada menos que o nosso futuro está em jogo", disse Nike Malhaus, porta-voz da organização de protesto Ende Gelaende. "Vamos assumir o controle da remoção do carvão, porque o governo não está protegendo o clima".

A onda de calor é a segunda a atingir a Europa este ano, depois que um padrão climático semelhante elevou a temperatura a mais de 20 graus por diversos dias, em fevereiro, gerando incêndios em áreas de mata na Inglaterra e nos Alpes.

Na Suíça, a temperatura está cerca de 10 graus acima do normal para esse período do ano, de acordo com dados compilados pela Bloomberg. As temperaturas elevadas significam que as geleiras devem encolher ainda mais, o que aumenta a probabilidade de que o Reno volte a ficar raso demais para navegação, dentro de alguns meses, de acordo com a agência meteorológica oficial da Suíça.

Enquanto isso, os europeus estão se adaptando ao calor desta semana com uma mistura de grandes e pequenas mudanças. Bruxelas suspendeu os passeios de carruagem para turistas. A decisão foi tomada em respeito ao bem-estar dos animais, disse Fabian Maingain, o diretor de planejamento econômico da capital belga ao jornal Le Soir, Decisões semelhantes foram tomadas pelas cidades de Antuérpia e Ostend.

Em Hemer —cidade cerca de 35 quilômetros a sudoeste de Dortmund (Alemanha)— no sábado um homem tirou a roupa na área de alimentos congelados de um supermercado, para escapar ao calor, que deve atingir um pico na quarta-feira. Outros clientes alertaram o pessoal do supermercado, e o homem apanhou um banana e uma lata de cerveja antes de tentar fugir do local, a polícia de Hemer informou no Twitter.

Tradução de Paulo Migliacci

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