Patrulhas aéreas aumentam risco de conflito acidental entre potências

Missão russo-chinesa quase foi abatida por sul-coreanos; número de interceptações cresce

São Paulo

Na terça-feira passada (23), bombardeiros da Rússia e da China fizeram sua primeira patrulha regular conjunta na história. As versões sobre o ocorrido ao longo das 11 horas da ação divergem, mas é certo que a resultante quase foi um confronto armado com caças da Coreia do Sul.

O episódio jogou luz sobre uma crise em curso a respeito de diversos espaços aéreos disputados no mundo: em 2018, só nas fronteiras da Europa, a Otan (aliança militar ocidental) fez 300 voos de interceptação de aeronaves russas.

Em todos os casos, o caça enviado acompanha o avião em atitude suspeita passando ao longo do espaço aéreo adversário e fica por isso.

avião russo no ar
Bombardeiro estratégico Tu-95 russo que participou de voo com chineses na segunda (23) - Forças de Autodefesa do Japão - 23.jul.2019/Reuters

Na segunda, não foi o que ocorreu, segundo o relato sul-coreano, visto como o mais crível por analistas militares.

A missão não era inédita só na parceria: russos nunca estiveram por lá antes. Ocorrem patrulhas mais ao norte, perto de ilhas que Moscou disputa com Tóquio, e um terço dos cerca de mil voos de interceptação realizados pelos japoneses anualmente são feitos por ali.

Voaram juntos quatro bombardeiros estratégicos, dois Tu-95 russos e dois H-6 chineses, acompanhados de um avião-radar A-50 de Moscou. Eles passaram sobre ilhas contestadas por Seul e Pequim, e aí começou a confusão.

Pelo relato coreano, um dos Tu-95 invadiu duas vezes o espaço aéreo do país, o que Moscou nega. Caças F-16 e F-15 despachados por Seul fizeram então 380 disparos de advertência, uma etapa acima do contato por rádio no protocolo de interceptação, o que os russos também dizem ser falso.

A intrusão, se ocorreu como a Coreia do Sul diz, pode ter sido acidental. As fronteiras aéreas na região são nebulosas, pois tanto o país quanto a China e o Japão têm suas próprias Adiz (sigla inglesa para Zona de Identificação de Defesa Aérea).

Essas Adiz existem em cerca de 20 países, e são basicamente áreas contíguas ao espaço aéreo do país no qual sua Aeronáutica se dá o direito de requisitar a identificação de aviões estrangeiros muito próximos da fronteira.

No caso oriental, as Adiz dos três países se sobrepõem, gerando um curto-circuito que não existe em outros locais sensíveis, como o Alasca.

Lá, americanos vasculham 320 km além de seu espaço aéreo atrás de aviões russos.

Neste caso, este ano também registra um aumento de incidentes: foram seis até aqui, o mesmo que em 2018 inteiro. São episódios em que bombardeiros russos testaram a rapidez de reação de caças americanos na região, simulando o caminho que fariam em um ataque.

A interceptação geralmente é de um bombardeiro, às vezes com escolta. Em 20 e 21 de maio, contudo, a escala impressionou. Seis Tu-95, mastodontes voadores da Guerra Fria capazes de lançar mísseis e bombas atômicas, fizeram o teste escoltados por modernos caças Su-35.

Além de Coreia do Sul e Alasca, o Japão também teve um inédito caso de quatro Tu-95 em suas fronteiras, em fevereiro. Isso sugere uma atividade maior do Kremlin.

Mas o grosso das interceptações segue ocorrendo na Europa, a linha de frente da disputa entre Rússia e Ocidente que às vezes sedia enganos.

Foi o que ocorreu em 6 de junho com o analista militar russo Ruslan Pukhov. Ele integrava uma comitiva do Conselho Público do Ministério da Defesa que tinha visitado instalações navais perto de Kaliningrado, região encravada entre a Polônia e a Lituânia.

Na hora de voltar, embarcou num velho quadrimotor a hélice de transporte Il-18. “Estávamos sobre o mar, voltando para a Rússia, quando eu olhei pela janela e vi um ponto se aproximar”, conta Pukhov. Era um F-18 finlandês em patrulha pela Otan.

Depois de alguns minutos, o avião se foi. Mais à frente, perto de águas territoriais suecas, foi a vez de um caça Gripen. “Éramos quase só civis, mas o avião poderia parecer um aparelho espião. Obviamente, ninguém ficou muito confortável a bordo”, disse.

No caso do Gripen, a Suécia não integra a Otan, mas tem sua própria Adiz na região. Já o F-18 fazia parte da força regular de patrulhamento da Otan na área, uma vez que os países bálticos membros da aliança não têm Aeronáutica própria.

Segundo informou por nota o Comando Aéreo Aliado da Otan, a cada momento há 60 caças da aliança no ar para casos como esse. As 300 interceptações anuais se referem a missões, não ao número de aviões abordados no ar.

Os russos voltaram a fazer patrulhas de longa distância com seus Tu-95 e Tu-160, esse um bombardeiro supersônico com capacidade nuclear, em 2007. Mas foi a partir da anexação da Crimeia, em 2014, que a movimentação ficou feérica: houve um salto de 70% nas interceptações.

Houve também picos pontuais, como nos cerca de 700 casos de 2016, que decorreram da intervenção russa na Síria —vizinha da Turquia, um país-membro da Otan que inclusive derrubou um caça russo em seu espaço aéreo no começo da ação, em 2015.

Os dados precisos não são divulgados pela Otan. Consultado, o Comando Aeroespacial do Ministério da Defesa não se pronunciou. Reportagens russas afirmam que há cerca de mil interceptações anuais.
A logística russa é complexa, o que é natural para quem tem o maior território do mundo. Um foco de preocupação é o mar Negro, onde fica a Crimeia. Lá, há registro de duas dúzias de missões contra aviões de patrulha marítima americanos P-8 Poseidon.

Derivado do Boeing-737, o aparelho é o esteio de operações que incluem espionagem e monitoramento, além de guerra submarina. A frota americana subiu de 18 para 75 de 2014 a 2018.

A Otan costuma reclamar de procedimentos russos como voar sem o aparelho que dá a localização e identificação exata do avião ligado.

Mas também faz seus testes. Em 14 de maio, um bombardeiro B-52 estacionado no Reino Unido voou até perto de Kaliningado numa simulação de ataque nuclear, sendo interceptado por caças russos.

Crescem casos de interceptação
Defesa aérea Cerca de 20 países, como EUA, Rússia, China, Japão e Coreia do Sul têm Zonas de Identificação de Defesa Aérea

O que é?
Faixa além do espaço aéreo do país em que aviões estrangeiros são obrigados a se identificar

Por quê?
São zonas em regiões que potencialmente podem ser invadidas por inimigos, como rotas até alvos

O que acontece?
Se o avião não se identifica, ele é abordado por caças do país, que o acompanham até deixar a fronteira oficial

E se ele não se afastar?
Sem resposta de rádio ou sinalização do piloto, o caça dá tiros de advertência; depois, pode até derrubar o invasor, no limite

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