Prisão de Chapo amplia crise de popularidade do presidente do México

Violência, encolhimento da economia e crise migratória fazem AMLO perder apoio

Sylvia Colombo
Buenos Aires

O presidente do México deixou uma plateia de jornalistas espantada ao comentar a condenação do narcotraficante Joaquim “Chapo” Guzmán à prisão perpétua, nos EUA, no último dia 17.

Na entrevista coletiva diária, conhecida como “la mañanera”, o esquerdista Andrés Manuel López Obrador, disse: “Não desejo mal a ninguém, não gosto de fazer lenha a partir de uma árvore caída. É um princípio bíblico. Eu preferia que não houvesse gente nas prisões, sou um idealista.” 

O presidente do México, Andrés Manuel López Obrador, durante coletiva de imprensa
O presidente do México, Andrés Manuel López Obrador, durante coletiva de imprensa - Xinhua

E acrescentou: “É uma vida ingrata ter uma família e não poder vê-la, isso não é vida. Uma condenação para estar na prisão por toda a vida, numa prisão hostil, dura, não humana, me comove.”

 

A mensagem mansa com relação ao mais perigoso traficante mexicano não foi bem recebida pela opinião pública, que começa a retirar seu apoio a AMLO, como ele é conhecido.

Dos 80% de aprovação em seu primeiro mês, passou a 70% no primeiro semestre. Segundo pesquisa divulgada em 20 de julho pelo Consulta Mitofsky, o mandatário mexicano tem agora, pouco mais de um ano após sua eleição, 60,7% de apoio.

As declarações quase poéticas sobre o destino do Chapo também geraram ruído porque as medidas tomadas por AMLO para combater a violência ligada ao narcotráfico não têm funcionado. 

Segundo dados de julho da Secretaria Executiva do Sistema Nacional de Segurança Pública, a violência no mês de junho foi a maior em 22 anos. 

E, desde que AMLO assumiu, em dezembro passado, 20,6 mil pessoas foram assassinadas. Já desde o início de 2019, a média é de 113 mortes violentas por dia. O aumento é de 4,4% em relação ao mesmo período do ano passado.

Em marcha contra presidente do México AMLO, manifestantes levam cartazes pedindo sua renúncia
Em marcha contra presidente do México AMLO, manifestantes levam cartazes pedindo sua renúncia - Pedro Pardo/AFP

Como resposta, AMLO criou a chamada Guarda Nacional (GN), que supostamente seria um órgão civil ligado ao Executivo. A falta de efetivos disponíveis, porém, levou-o a formá-la, temporariamente, com membros do Exército e das polícias locais. Em um segundo momento, diz o governo, a ideia é que a GN seja integrada por civis que estão sendo treinados.

Segundo a ONG Insight Crime, que monitora a violência na América Latina, o Cartel de Sinaloa, antes comandado pelo Chapo e agora nas mãos de seu número 2, Ismael Zambada García, e de seus filhos, segue sendo o principal do país, ao lado do Cartel de Jalisco, comercializando, além de cocaína e heroína, opioides para os EUA.

Mas a violência não é o único elemento a impactar na queda de popularidade de AMLO. 

Há também as dificuldades de lidar com a pressão dos Estados Unidos para manter imigrantes centro-americanos em seu território e o encolhimento da economia —o FMI reviu a previsão de taxa de crescimento do país de 1,6% para 0,9% neste ano.

No último mês, surgiu uma nova frente de crise: seu relacionamento com a imprensa. Ao abrir o espaço da mañanera, no qual qualquer jornalista credenciado pode fazer perguntas, AMLO fechou outros.

De acordo com jornalistas locais, o presidente tornou-se a única fonte de informação oficial. Seus ministros e funcionários mais próximos não dão entrevistas. E, mesmo na “mañanera”, AMLO fala mais do que ouve perguntas.

“Quando um governo é quem pauta a agenda dos meios de comunicação, como vem fazendo AMLO com sua entrevista coletiva matinal, a situação se complica”, diz o jornalista Esteban Illades. 

“Além disso, o Executivo está formando um cerco em torno das informações oficiais. Há uma impressão de transparência, porque ele fala todos os dias, mas na hora de se investigar o governo, está mais difícil.”

O presidente mexicano também tem usado o espaço matinal para acusar jornais de não investigarem escândalos de corrupção de presidentes anteriores, nomeando casos como “sugestão” de pauta, entre as quais supostas irregularidades na privatização de parte da Pemex (Petróleos Mexicanos) e favorecimentos a empresários amigos durante a gestão de Enrique Peña Nieto (2012-2018). 

AMLO chegou a acusar jornalistas independentes de receber suborno para não tratar dos casos. O mandatário também promoveu um corte de 50% da verba publicitária estatal para meios privados, o que afeta principalmente os veículos tradicionais impressos.

Meios de comunicação públicos também sofreram cortes. “Há muitos canais e rádios, mas não há política de Estado para a comunicação social. É isso que vamos fazer”, afirmou AMLO ao anunciar as medidas.

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