Alexa era um nome comum no Reino Unido até surgir a Alexa

Segundo levantamento britânico, pais têm evitado batizar filhas como xarás de robô da Amazon

Anna Virginia Balloussier
Rio de Janeiro

A pergunta feita em 2018 num fórum virtual causou comoção na comunidade alexana, como uma representante que chorou estas pitangas: “A pior parte são as piadas terríveis! Sei lá por que raios as pessoas acham que são as mais espirituosas no mundo quando dizem coisas tipo ‘Alexa, qual a temperatura?’, ou ‘Alexa, toque a música tal’”. Não foi sempre assim.

Os gracejos com as portadoras desse nome cresceram junto à fama de uma assistente virtual lançada há cinco anos pela Amazon, mas que só recentemente engatou —em janeiro, a empresa anunciou a venda de 100 milhões desses dispositivos similares à Siri dos aparelhos da Apple.

O batismo dessa inteligência artificial que responde a comando de voz: Alexa. Não à toa o relatório com os nomes mais populares do Reino Unido, divulgado nesta quinta (29) pelo Departamento de Estatísticas Nacionais britânico, mostra que cada vez menos mamães e papais querem chamar suas filhas assim.

A caixa de som na qual funciona a assistente virtual Alexa, que ainda não chegou ao Brasil - Grant Hindsley/AFP

Se em 2017 nasceram 301 Alexas por aquelas bandas, no ano passado foram 118. A queda de 60% vem sendo atribuída justamente à confusão entre o que é nome de gente e o que é nome de robô. 

Alexa Benson, por exemplo, reclama: no último Natal, a família comprou dois Amazon Echo, caixa de som que reage quando a pessoa interage com ela, sendo que é preciso, primeiro, ativá-la chamando-a pelo nome (“Alexa, coloque meu despertador para as 8h”).

O dispositivo já tem versões brasileiras em teste, mas ainda não está no país. Na Inglaterra, custa 120 libras (R$ 610).

Voltando ao drama da homônima natalina, compartilhado na internet: “Que porra é essa? Causa tanta confusão aqui em casa! Toda vez que alguém me chama, o aparelho responde: ‘Desculpe, não entendi o que você quer’”. 

Alexa é a nova componente de uma espécie de clube dos nomes malditos: batismos que, por um contexto histórico específico, passam a ser mal vistos pela sociedade.

Registros oficiais mostram que, na Alemanha, de 2006 a 2013, apenas 13 bebês vieram com Adolf na certidão de nascimento. A reputação do nome foi arruinada devido ao ditador nazista Adolf Hitler. (Nos últimos anos, contudo, talvez pela ascensão de movimentos neonazistas locais, os Adolfs já passam de 40.)

E quem já tinha um nome que começou a ser considerado no mínimo controverso? Em 2018, uma mulher batizada Dilma recorreu à Justiça para mudar o registro civil: dizia-se alvo de bullying desde o impeachment da presidente homônima e do clima pestilento e polarizado.

Nem todos chegam a uma atitude tão drástica, até porque a encheção de saco pode ser temporária. Caso das moças que atendem por Jennifer, como a protagonista encontrada no Tinder da música de Gabriel Diniz, morto em maio.

Outro caso, ou melhor, o caso clássico no Brasil é o dos Bráulios. Em 1995, o Ministério da Saúde colocou no ar uma campanha para motivar a população a usar camisinha.

Na época, a Igreja Católica chiou com a propaganda de um autor que conversa com o próprio pênis, a quem se refere como Bráulio. Tinha até musiquinha: “Bráulio é safado/ Grosso, metido e velhaco/ Entra em qualquer buraco/ Ele é um grande gozador”.

Não é coincidência que o nome, que teve o melhor desempenho nos anos 1980 (1.964 homens), brochou vertiginosamente desde então: segundo dados do Censo 2010, nos anos 2000 só 121 Bráulios vieram à luz no país.

No outro lado do mundo, a família real continuou influenciando o registro nos cartórios. Meghan Markle se casou com o príncipe Harry em 2018, e no mesmo ano o dobro de xarás (101 menininhas) nasceu no Reino Unido.

Harry, aliás, está no top 10 dos batismos masculinos mais comuns, junto com Charlie (como seu pai) e George (o mesmo do filho do irmão, o príncipe William, que ficou de fora). No topo do ranking aparece Oliver (5.390 novos membros desse clube). A ala feminina é encabeçada pela variação Olivia (4.598).

O Departamento de Estatísticas Oficiais, contudo, destacou outros nomes masculinos que bateram Oliver em algumas regiões. Como Muhammad, a escolha mais pop em 4 de 9 regiões inglesas.

Se o instituto compilasse variações deste nome de origem árabe e que significa Maomé, o principal profeta do islã, seria o nome mais recorrente entre bebês britânicos em 2018. Há, por exemplo, muitos Mohammeds recém-nascidos no Reino Unido, onde comunidades muçulmanas são fortes.

“Há uma justificativa clara para isso, já que cada grafia simplesmente reflete uma transliteração alternativa de nomes em outros idiomas para o inglês”, explica Nick Stripe, estatístico da casa cujo nome está há mais de uma década fora do top 100.


Os 10 nomes mais comuns no Reino Unido em 2018

Meninos
1. Oliver
2. George
3. Harry
4. Noah
5. Jack
6. Leo
7. Arthur
8. Muhammad
9. Oscar
10. Charlie


Meninas
1. Olivia
2. Amelia
3. Ava
4. Isla
5. Emily
6. Mia
7. Isabella
8. Sophia
9. Ella
10. Grace

Fonte: Office for National Statistcs UK

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