Israel busca saída para impasse político após eleição terminar sem maioria

Para analista, única solução é formação de governo de união entre Netanyahu e centro-esquerda

Daniela Kresch
Tel Aviv

Um dia depois das eleições parlamentares em Israel, que não coroaram um vencedor imediato, o país enfrenta uma espécie de ressaca política nesta quarta-feira (18), tentando decifrar o recado das urnas e, principalmente, os possíveis cenários políticos.

Com 95% das urnas apuradas, os resultados oficiais apontam que o partido de centro-esquerda Azul e Branco, do ex-comandante do exército Benny Gantz, foi o mais votado, conquistando 33 das 120 cadeiras do Knesset (o Parlamento israelense).

O primeiro-ministro israelense, Binyamin Netanyahu, durante discurso para jornalistas em Jerusalém
O primeiro-ministro israelense, Binyamin Netanyahu, durante discurso para jornalistas em Jerusalém - Ronen Zvulun/Reuters

Ele é seguido de perto pelo partido conservador Likud, do atual primeiro-ministro, Binyamin Netanyahu, que conseguiu abocanhar 32 assentos.

Nenhuma das duas forças políticas têm chance de formar uma coalizão com maioria no Knesset (61 cadeiras).

Diante do impasse, a fábrica de rumores e conjecturas políticas funciona com força máxima, enquanto analistas esperam os próximos passos dos jogadores. Netanyahu anunciou que não irá discursar na Assembleia Geral da ONU, que ocorre na próxima semana, em Nova York, justamente para tentar resolver o imbróglio político.

Ele também convocou uma reunião de emergência entre Likud e aliados pertencentes a partidos religiosos e à direita radical. A decisão foi formar um bloco de direita único, com 55 cadeiras, para tentar dar base a um governo, mesmo sem maioria no Knesset. 

Se tiver êxito, Netanhyahu espera receber do presidente israelense, Reuven Rivlin, a incumbência de formar o novo governo, o que lhe daria vantagem nas negociações futuras.  

Gantz pode, em tese, formar um bloco unindo o Azul e Branco com siglas de esquerda e com a Lista Árabe Unida, que representa a minoria árabe e que ficou em terceiro lugar nas eleições.

Essa coalizão, porém, ficaria com 56 cadeiras, incapaz de formar o governo. Os líderes árabes também já indicaram que não pretendem entrar em um bloco e que preferem seguir independentes. 

O consenso, no entanto, é que, antes tido como “mago político”, Netanyahu perdeu o dom pela primeira vez em dez anos.

Mesmo sabendo de sua capacidade de tirar coelhos da cartola quando se trata de sobrevivência política, a maior parte dos analistas afirma acreditar que o único cenário real seria a formação de um governo de união nacional entre Azul e Branco e Likud.

Nesse caso, Gantz serviria como primeiro-ministro por dois anos, e Netanyahu o substituiria nos dois anos seguintes.

“Realisticamente, não há outro cenário, porque, por mais que você olhe para os números, ninguém tem maioria. Portanto, a única opção é um governo de união nacional”, diz o professor e cientista político Emmanuel Navon, da Universidade de Tel-Aviv e do Centro Interdisciplinar de Herzliya.

"Acho que, na verdade, é isso que a maioria dos israelenses quer: um governo centrista, estável e com pessoas em quem confiam, sem radicais e extremistas”, afirma.

Já houve um precedente. Em 1984, o Likud e o Partido Trabalhista se viram em impasse similar e decidiram formar governo em conjunto, com cada legenda liderando por dois anos.

O líder trabalhista Shimon Peres assumiu o cargo de primeiro-ministro antes, substituído, em 1986, por Yitzhak Shamir, do Likud.

Mas, agora, parece que essa costura é mais complicada. Um dos motivos é a promessa de campanha de Gantz de que não integraria uma coalizão com o Likud sob liderança de Netanyahu, que pode ser indiciado a qualquer momento em casos de corrupção.

Trocando em miúdos: ele aceitaria um governo com o Likud, mas liderado por outra pessoa —um cenário improvável.

“Os mais veteranos do Likud estão cansados de Netanyahu. Só se mantinham fiéis enquanto ele vencia eleições. No momento em que ele não o fez –e esse pleito foi uma derrota–, a rebelião começa a borbulhar. Vai acontecer”, aposta Navon.  

“Junta-se a isso o possível indiciamento e o fato de que as pessoas estão frustradas por ele ter sido cruel ao eliminar qualquer líder em potencial do partido nos últimos 20 anos. Possíveis sucessores apenas esperam a hora de puxar o tapete e se livrar dele”, diz o cientista político. 

Há dúvidas ainda se Netanyahu aceitaria trair a confiança de seus aliados tradicionais ao se unir a Gantz e também, provavelmente, a Avigdor Lieberman, do partido Israel Nossa Casa.

Lieberman, maior defensor do governo de união, jurou a seus eleitores seculares que não entraria em coalizões com partidos religiosos. 

“É um problema para o Likud, porque, a longo prazo, o partido sabe que precisa de sua aliança com os ultraortodoxos para formar coalizões futuras”, diz Navon.

Além disso, foi a recusa de Lieberman de se unir ao bloco de Netanyahu após o pleito de abril que levou o premiê a convocar a eleição de terça. 

O governo de união até poderia deixar o Israel Nossa Casa de lado, mas ficaria com apenas 65 cadeiras, quatro a mais que o necessário. Com os oito assentos que Lieberman conquistou, a coalizão atingiria 73 assentos, dando mais estabilidade ao governo. 

Caso esse plano dê certo, a Lista Unida possivelmente se tornaria a maior força de oposição, com 12 cadeiras —seria a primeira vez na história israelense que um líder árabe assumiria o comando da oposição.

A performance da legenda foi uma das surpresas do pleito.

Para Navon, Netanyahu errou ao realizar uma campanha eleitoral com incitações contra a minoria árabe-israelense (20% da população). 

O resultado foi o comparecimento em massa de eleitores árabes às urnas, elegendo a Lista Unida como a terceira maior força do país. "Nesse sentido, Netanyahu realmente deu um tiro no pé com sua campanha”, diz Navon. 

Mas o cientista político e outros comentaristas sabem que, quando se trata de Netanyahu e do Likud, é sempre possível esperar por surpresas.

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