Pesquisas de boca de urna mostram resultado indefinido em eleição de Israel

Duas das consultas mostram partido de oposição à frente do de Netanyahu

Daniela Kresch
Tel Aviv

Segundo pesquisas de boca de urna divulgadas pelos principais canais de TV de Israel, o futuro do primeiro-ministro Binyamin Netanyahu é incerto depois das eleições realizadas nesta terça-feira (17).

Os números não dão vitória a nenhum candidato, o que complica as perspectivas de formação do próximo governo e leva o país a mais uma temporada de instabilidade política. 

Esse é o segundo pleito em menos de cinco meses no país. Após as votações realizadas em abril, Netanyahu não conseguiu maioria para formar governo.

São necessárias 61 das 120 cadeiras do Knesset (o Parlamento de Israel) para que uma coalizão tenha o poder de indicar o premiê —enquanto um novo líder não for definido, Bibi, como Netanyahu é conhecido, segue no cargo.

De acordo com duas das pesquisas divulgadas, os opositores de centro-esquerda do Azul e Branco, encabeçado pelo ex-chefe do exército Benny Gantz, receberam mais votos do que o governista Likud. 

Na terceira, as duas forças políticas empataram.

As seções eleitorais abriram às 7h e fecharam às 22h (horário local; 16h em Brasília) sem registros de problemas durante a votação. A divulgação dos resultados oficiais será iniciada nesta quarta (18), mas pode ser concluída apenas na quinta-feira (19).

Os números divulgados até aqui fortalecem as perspectivas de que Netanyahu não consiga chegar a seu quinto termo consecutivo. Tampouco deixam claro se Gantz conseguirá costurar o próximo governo. 

“É difícil que tenhamos uma conclusão neste momento, é uma noite dramática”, afirma o analista político Amit Segal, do Canal 12.

Gantz comemorou: “Vamos esperar os resultados finais, mas Netanyahu não conseguiu realizar sua missão, e nós conseguimos provar que a ideia do Azul e Branco é um sucesso e está aqui para ficar”, disse.

Netanyahu também disse que vai esperar os resultados finais, mas dedicou seu primeiro discurso após a votação para atacar a imprensa e mostrar preocupação com um possível governo de esquerda apoiado por parlamentares árabes.

“Israel precisa de um governo forte, estável e sionista. Um governo comprometido com Israel como o Estado do Povo Judeu”, afirmou, dizendo que quer “impedir um governo antissionista perigoso, que ameaça Israel”.

O fiel da balança dessa disputa será o partido ultranacionalista Israel Nossa Casa, que não faz parte de nenhum dos blocos.

O líder do partido, o ex-ministro da Defesa e ex-chanceler Avigdor Lieberman, ganhou força, com perspectiva de conquistar entre oito e nove assentos, de acordo com os levantamentos.

Ele deverá ser o político mais cortejado das próximas semanas.

Netanyahu, 69, é o premiê israelense que ocupou o cargo por mais tempo. Tendo exercido a função inicialmente de junho de 1996 a julho de 1999, ele vem se mantendo no posto desde março de 2009.

Assim, se estabeleceu como um importante representante da direita na política mundial. 

Foi dessa maneira que se tornou um aliado de primeira hora do presidente brasileiro, Jair Bolsonaro. Ele também mantém ótimas relações com o mandatário americano, Donald Trump.

Em meio à indecisão, o mais importante é a distribuição das cadeiras pelas coalizações de centro-direita e de centro-esquerda.

Contra Gantz, pesam as divergências com o Israel Nossa Casa, enquanto Netanyahu tem em seu histórico uma crise com o líder da legenda, um ex-aliado.

Lieberman fez exigências de uma coalizão com partidos de extrema-direita e religiosos. O atual primeiro-ministro não conseguiu contemporizar e teve de convocar novas eleições.

Desta vez, caso seja indicado novamente para formar o governo, o premiê terá que trabalhar por um acordo com o líder ultranacionalista.

Já Gantz, na busca pelos 61 assentos, teria que convencer a Lista Árabe Unida, terceira maior força política do país, que conquistou entre 13 e 15 cadeiras, segundo as pesquisas de boca de urna, a apoiar formalmente a coalizão encabeçada pelo Azul e Branco. 

Desde a criação de Israel, em 1948, os partidos árabes-israelenses nunca aceitaram fazer parte de governos. O líder do legenda, Ayman Odeh, já disse que ficará na oposição, minguando as chances de uma coalizão de esquerda. 

O cenário incerto dá continuidade ao caos político iniciado na primeira votação deste ano, em 9 de abril, quando Netanyahu e Gantz empataram com 35 cadeiras cada um. 

O premiê parecia ter levado a melhor, recebendo a chance de montar a coalizão por ter sido indicado por mais bancadas eleitas, mas não conseguiu costurar um governo viável. 

A partir do novo pleito, Netanyahu pode “roubar” parlamentares do Azul e Branco —uma aliança com os partidos Resiliência, Há Futuro e Telem—, fechar com o ex-general Gabi Ashkenazi, mais à direita, e conseguir uma coalização que dê a ele as 61 cadeiras que precisa.

Outra possibilidade é que Likud e Azul e Branco formem um governo de união nacional com quase 70 cadeiras. Mas, para isso acontecer, tanto Netanyahu quanto Gantz teriam que aceitar dividir o poder e alternar no cargo após dois anos.

Esse seria o melhor caminho, segundo o professor da Universidade Hebraico de Jerusalém Yonathan Freeman.

“A votação, ao que tudo indica, mostrou que os israelenses estão se voltando cada vez mais para os grandes partidos. Eles anseiam por estabilidade política”, diz Freeman. 

O professor, no entanto, afirma que é preciso esperar a contagem oficial para começar a contabilizar alianças, já que os votos dos soldados —sempre contabilizados ao final— podem dar vantagem ao Likud. 

Após a divulgação dos resultados oficiais, caberá ao presidente de Israel, Reuven Rivlin, decidir qual líder tem mais chance de formar um governo viável. 

Caso ninguém seja bem-sucedido na missão, é possível que seja convocada uma nova eleição para o início de 2020, no que seria a terceira votação em menos de 12 meses. 

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