Descrição de chapéu The New York Times

Polônia preparou castelo real, mas Trump cancelou outra viagem internacional

Presidente americano, aliado do líder polonês, ficou nos EUA para monitorar chegada de furacão

Varsóvia (Polônia) | The New York Times

Escoltas militares elaboradas estavam a postos. Os chefs trabalhavam em um jantar de estado grandioso no castelo real.

Um concerto foi programado para transmissão pela televisão e o rádio. A comemoração anual do início da Segunda Guerra Mundial foi transferida de Gdansk para Varsóvia, capital da Polônia, onde as multidões seriam maiores.

O partido no governo da Polônia, Lei e Justiça, tinha coreografado cuidadosamente um dia de pompa e cerimônia para receber o presidente Donald Trump neste fim de semana —um lembrete poderoso para sua população, apenas seis semanas antes das eleições nacionais, sobre o forte vínculo entre o governo local e o atual em Washington.

Exceto que Trump não esteve lá.

Ele anunciou na quinta-feira (29) que permaneceria nos Estados Unidos para monitorar um furacão iminente, com previsão de atingir a Flórida nesta semana, e enviou o vice-presidente Mike Pence em seu lugar.

Foi um golpe para a liderança em Varsóvia, que esperava aproveitar o momento para reforçar sua posição e desviar as críticas de que está solapando a Constituição do país.

Os Estados Unidos e seu presidente são vistos mais positivamente na Polônia do que em qualquer outro lugar da Europa, onde a confiança na liderança americana caiu sob Trump, e ele geralmente é analisado de forma negativa.

Portanto, em um momento em que os líderes de muitas nações aliadas tomam cuidado para não parecer muito próximos dele, o partido Lei e Justiça o abraça.

Mesmo que a Polônia tenha entrado em conflito com a União Europeia e seus países membros em um amplo leque de questões, da política ambiental à independência judicial, ela continuou a criar —e a se gabar— de laços estreitos com o governo Trump.

O presidente Andrzej Duda, em entrevista logo depois de voltar de sua segunda visita à Casa Branca neste verão, descreveu seu relacionamento com Trump como "a cooperação internacional mais eficaz de todas as que tenho".

"Acho muito fácil e bom cooperar com o presidente Donald Trump", afirmou. "Porque ele é muito pé no chão, muito concreto. Ele me diz o que quer; ele me pergunta o que pode obter de nós."

Em junho, os dois países concordaram em adicionar mil soldados ao destacamento de 4.500 americanos na Polônia, país membro da Otan.

Isso provocou uma reação irada da Rússia e elogios de líderes poloneses, que também pediram a construção de uma nova base americana, prometendo até chamá-la de Fort Trump.

Na sexta-feira (30), Mariusz Blaszczak, ministro da Defesa da Polônia, anunciou um acordo sobre seis locais onde as forças dos EUA estarão baseadas —notícia que o governo esperava dar, com algum alarde, na presença de Trump.

Ele disse que o cancelamento de Trump é compreensível.

Críticos do governo temiam que a visita de Trump desviasse a atenção das preocupações de que o Lei e Justiça tivesse colocado o país em um curso perigoso desde que assumiu o poder, em 2015, minando a Constituição, alimentando a divisão cultural, pintando gays e lésbicas como inimigos do Estado, atacando a imprensa livre e se afastando perigosamente da sociedade democrática que o país tanto lutou para garantir depois de décadas de regime comunista.

O governo Trump tem sido geralmente silencioso sobre essas questões.

Em vez disso, elogiou constantemente a Polônia como um dos poucos aliados da Otan a cumprir os compromissos de gastos militares.

Quando Trump fez sua primeira visita a Varsóvia, em 2017, e multidões foram trazidas de ônibus de todo o país para aplaudi-lo, ele elogiou a Polônia como defensora da civilização ocidental, tanto quanto o Lei e Justiça, mas não mencionou a reforma judicial que já irritava a nação.

Se ele continuasse nessa linha de elogios, o selo implícito de aprovação de sua visita poderia ter tido um real valor político para o partido, como temiam seus críticos.

Em uma carta aberta a Trump divulgada na segunda-feira (19), 23 ex-diplomatas poloneses pediram ao presidente dos EUA que reafirmasse a importância de uma Europa unificada e os valores fundamentais da democracia ocidental, que, segundo eles, seu país estava perdendo.

"Uma Polônia isolada, cercada por inimigos, entrou em conflito com seus vizinhos e, como foi o caso antes da Segunda Guerra Mundial, dependendo apenas de alianças geograficamente distantes, está a caminho de mais uma catástrofe", escreveu o grupo Conferência dos Embaixadores da Polônia.

"Senhor presidente, o senhor está vindo para um país onde o Estado de Direito não é mais respeitado", escreveram os ex-diplomatas.

"Sua voz poderosa exigindo tolerância e respeito mútuo, bem como o cumprimento das disposições da Constituição e outras leis, pode ter um significado histórico."

Trump, no entanto, não mostrou sinal de que compartilha as preocupações; em vez disso, busca uma política externa transacional, com acordos comerciais e compra de armas no primeiro plano de sua agenda.

Ele elogiou líderes autocráticos, criticou aliados democráticos e minou as instituições internacionais que foram construídas depois da Segunda Guerra Mundial para promover a segurança e a prosperidade.

Os meios de comunicação na Polônia que são amigáveis ao governo rapidamente condenaram a carta dos diplomatas dissidentes.

"Eles não conseguem aceitar o fato de que novas pessoas têm o direito de criar a política externa polonesa", disse o sociólogo e diplomata Ryszard Zoltaniecki ao site de notícias de direita wPolityce.

O Lei e Justiça e seu líder, Jaroslaw Kaczynski, o político mais poderoso da Polônia, encontraram em Trump um raro líder ocidental com afinidade natural pelo governo de Varsóvia.

Ambos construíram uma base de apoio entre os conservadores, com apelos ao nacionalismo, um sentimento de protesto e oposição à imigração.

Antes que as multidões de Trump gritassem "construa o muro", antes de ele falar sobre a "invasão" de nações latino-americanas e barrar a entrada de muçulmanos, Kaczynski usou a crise migratória de 2015 —que teve pouco efeito na Polônia— para pintar a imagem de um continente sitiado, com a Polônia desempenhando o papel de defensora da cristandade.

Kaczynski e Trump reuniram eleitorados apelando aos que sentem que foram marginalizados, suas vozes frustradas pelos sumos sacerdotes do politicamente correto, suas tradições ameaçadas por forças globais fora de seu controle.

Seu apoio é especialmente forte nas cidades menores e nas áreas rurais, cujas fortunas ficaram para trás enquanto as cidades prosperaram.

Duda disse que o partido no poder antes de 2015, Plataforma Cívica, "era politicamente orientado para um modelo de desenvolvimento em que investimentos maciços seriam feitos nas grandes cidades, na esperança de que seu desenvolvimento se irradiasse por toda parte".

"Infelizmente isso falhou", acrescentou. "E, como resultado, produziu disparidades maciças entre cidades grandes e pequenas."

Duda disse na entrevista que suas conversas com Trump em Washington se concentraram quase exclusivamente em questões de segurança, energia e economia.

A principal preocupação de Trump, disse ele, é a razão pela qual "os contribuintes americanos deveriam gastar tanto dinheiro para a defesa europeia se o contribuinte europeu não está inclinado a gastar tanto".

Trump criticou outros países da Otan por não atingirem a meta de gastar 2% de sua produção econômica em defesa, embora a aliança tenha estabelecido a meta de atingir esse nível em 2024.

O presidente chegou a falar em desistir da Otan —perspectiva preocupante para a Polônia, que vê a associação como uma medida de proteção contra seu vizinho intimidador, a Rússia.

Duda endossou a meta de gastos em termos que poderiam ter vindo diretamente da Casa Branca.

"Atribuo grande importância a esses gastos de 2% do PIB e quero intensificar e intensificar esses gastos na Polônia", disse ele, "porque se queremos ter essas garantias de segurança dos EUA e da Otan (...) tudo se resume a uma divisão justa de encargos".

Perguntas sobre o compromisso de seu país com os princípios democráticos não surgiram na reunião com Trump, acrescentou Duda.

"O que eu acho muito doloroso são todas essas acusações de que a democracia está realmente abalada na Polônia, de que estamos mudando para algum regime autoritário", disse ele. "Leva tempo, as pessoas estão aprendendo a democracia."

Na sexta-feira, os líderes poloneses já manifestavam a esperança de que Trump remarcasse sua visita, e para breve.

As escoltas militares, o castelo, os chefs e os músicos, sem dúvida, estarão prontos se ele o fizer.

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