Descrição de chapéu The New York Times

Populistas da Polônia escolhem os gays como seus maiores inimigos

Sigla governista e líderes católicos se dizem contrários a direitos para comunidade LGBT

Maciej Gosniowsk (esq.) prepara fantasias que usa em performances em Varsóvia
Maciej Gosniowsk (esq.) prepara fantasias que usa em performances em Varsóvia - Anna Liminowicz/The New York Times
Marc Santora
Varsóvia | The New York Times

Quando Maciej Gosniowski estava crescendo numa cidade pequena no sul da Polônia, parte de uma família religiosa e de uma comunidade conservadora, as pessoas viviam dizendo que havia algo de errado com ele.

“Seria melhor eu mudar meu jeito de ser”, ele se recorda de ouvir de seus professores. “Seria melhor se eu me comportasse mais como menino. Isso facilitaria minha vida.”

Gosniowski levava surras de outros alunos, que o xingavam usando palavrões homofóbicos que ele ainda não entendia. Ele não quer que outras crianças ou adolescentes sofram como ele sofreu, por isso saudou a decisão do prefeito de Varsóvia, no mês passado, de fazer uma declaração promovendo a tolerância.

Mas as reações contra a declaração o deixaram abalado.

O partido governista da Polônia, Lei e Justiça, aproveitou a declaração e toda a questão dos direitos dos gays na campanha que está fazendo para as eleições de representantes na União Europeia, em maio, e para as eleições nacionais, no próximo outono.

No passado o partido atacava migrantes, vendo-os como ameaça à alma do país. Mas nas últimas semanas os homossexuais viraram seu inimigo público número um.

Isso espelha uma tendência crescente na Europa central e do leste, onde partidos nacionalistas e populistas vêm cada vez mais recorrendo a questões culturais –e a ataques a gays— para mobilizar seus seguidores.

Desde a Romênia, onde o governo tentou mas não conseguiu emendar a Constituição para proibir o casamento homossexual, até a Hungria, onde homossexuais são vilipendiados e descritos como ameaça à família tradicional, a sigla LGBT vem sendo repudiada. Isso ocorre no contexto de uma luta mais ampla contra o que nacionalistas e populistas descrevem como “valores europeus”.

Jaroslaw Kaczynski, líder do partido Lei e Justiça e político mais poderoso da Polônia, usou a convenção da sigla em março para declarar que a guerra à homossexualidade é uma guerra que a Polônia precisa vencer para poder sobreviver.

“Como hoje já sabemos, trata-se da sexualização das crianças desde a primeira infância”, ele disse. “Precisamos combater isso. É preciso defender a família polonesa. Precisamos defendê-la furiosamente, porque esta é uma ameaça à civilização, não apenas da Polônia mas da Europa como um todo, uma ameaça a toda a civilização baseada no cristianismo.”

O chamado mobilizou as bases do partido.

“Acho que a Polônia vai se tornar uma região livre de LGBTs”, comentou Elzbieta Kruk, candidata do partido a uma cadeira no Parlamento Europeu. “Espero que sim.”

Outras organizações ecoaram os ataques, muitas vezes usando linguagem mais radical.

Durante uma partida de futebol no mês passado os torcedores de um dos clubes mais populares do país, o Legia Varsóvia, agitaram uma bandeira contendo um insulto homofóbico. Nada foi feito contra a bandeira durante o jogo. O clube disse mais tarde que não queria se envolver em “disputas políticas e ideológicas” e que a bandeira “não reflete a posição do Legia”.

Lideranças polonesas na Igreja Católica, ela própria abalada por revelações sobre abusos sexuais cometidos por clérigos, também aderiram à campanha.

O conhecido padre católico e educador Marek Dziewiecki disse a uma emissora de rádio local em entrevista recente que o sinal de “+” na sigla LGBTQ+ representa “pedófilos, zoófilos, necrófilos” e que o objetivo final é “converter as pessoas em “erotomaníacas inférteis”.

Quando 1.500 seguidores de organizações de direita radical foram a Czestochowa, o maior santuário religioso da Polônia, este mês, o reverendo Henryk Grzadko avisou as pessoas reunidas no local que a Polônia vive “uma invasão civilizacional”.

Durante sua homilia numa missa no encontro ele disse: “Eles agitam uma bandeira de arco-íris e procuram roubar nossos valores internos, como verdade, amor, vida humana, família baseada no matrimônio e moralidade fundamentada no Evangelho e nos Dez Mandamentos”.

Rafal Trzaskowski, o prefeito de Varsóvia, que divulgou a declaração de tolerância, disse que já previa uma reação cínica do governo mas acha preocupante o tipo de propaganda política produzida por emissoras públicas.

Segundo ele, foi esse mesmo tipo de material carregado de ressentimentos e ódio que levou um homem a apunhalar o prefeito de Gdansk, Pawel Adamowicz, na televisão ao vivo este ano, o matando.

“Eles baseiam sua política no medo”, ele disse em entrevista dada na sede da prefeitura. “Começaram alguns anos atrás com refugiados, pintando um quadro assustador, dizendo que seríamos invadidos por centenas de milhares de migrantes que iam estuprar nossas mulheres e introduzir doenças na Polônia. Estão fazendo exatamente a mesma coisa agora.”

Mas Trzaskowski acha que não vai funcionar. Em 2015, quando o partido Lei e Justiça chegou ao poder, uma maioria avassaladora de poloneses concordou com a ideia de que era preciso fazer mais para proteger as fronteiras da Europa contra a chegada de migrantes.

Essa ameaça em grande medida já desapareceu, e a questão dos migrantes não mobiliza as pessoas como mobilizava antes, segundo sondagem de opinião divulgada na semana passada pelo Conselho Europeu de Relações Externas.

“A migração ainda é importante para alguns eleitores, mas não é o único campo de batalha onde se disputarão votos antes das eleições para o Parlamento Europeu”, disse a entidade em comunicado à imprensa.

Trzaskowski, o prefeito de Varsóvia, não acredita que atacar gays seja uma arma tão eficiente quanto a campanha contra os migrantes.

“A maioria da população polonesa não vai aceitar a ideia de que os homossexuais colocam nossa cultura e nossos valores em risco”, ele opinou.

Um candidato abertamente gay, Robert Biedron, formou um novo partido liberal e vem encontrando apoio amplo para sua mensagem, mesmo fora dos centros urbanos.

Uma pesquisa recente de opinião pública conduzida pela Ipsos para o site OKO.Press concluiu que 56% dos poloneses não são contra as uniões civis; dois anos atrás, eram 52%.

Ao mesmo tempo, porém, os poloneses continuam a se opor à adoção de crianças por casais gays: apenas 18% das pessoas são a favor da ideia.

Oktawiusz Chrzanowski, 36, que teve uma participação crucial na redação da declaração de Varsóvia, e seu companheiro, Hubert Sobecki, disseram que um dos elementos mais ofensivos da campanha do governo foi o esforço para retratar a homossexualidade como um perigo para as crianças.

“O mais chocante e revoltante é o modo como alegam que os membros da comunidade LGBT são pedófilos”, disse Sobecki.

A declaração de Varsóvia prevê educação sexual nas escolas que siga as diretrizes da Organização Mundial de Saúde e determina a criação de um abrigo na cidade para pessoas rejeitadas e expulsas por suas famílias e comunidades.

Chrzanowski espera que algum dia no futuro não distante todas as escolas contem com a figura de um “guia”, alguém a quem os estudantes possam pedir conselhos e orientação sem o receio de serem julgados.

Gosniowski, que decidiu sair do armário depois de ser espancado no colégio e que é uma das poucas drag queens do país, disse que hoje sente-se confiante em sua sexualidade.

Num almoço recente em um café de Varsóvia, ele usou moletom cor-de rosa e brincos dourados de argola, com os cabelos loiros compridos. É uma tomada inequívoca de posição em um país onde o inconformismo ainda pode ter custo elevado.

Tradução de Clara Allain

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