Presidente do Equador cede e derruba alta dos combustíveis

Reunião entre lideranças indígenas e governo ocorreu em meio a cidade deserta devido a toque de recolher

Sylvia Colombo
Quito

Após um dia de expectativas pelo diálogo dos manifestantes que protestam há 11 dias no Equador com o governo de Lenín Moreno, o presidente recuou e revogou o decreto que retirava o subsídio aos combustíveis. A medida deve pôr fim aos distúrbios que atingem o país.

A alta de até 123% na gasolina e no diesel foi o estopim dos atos realizados nas principais cidades equatorianas.

Depois da conversa com os líderes indígenas e de um intervalo de mais de uma hora, Moreno declarou que é inválido o decreto 883, e que este será substituído por um novo texto, a ser redigido por uma comissão formada na noite deste domingo (13).

Manifestante segura bandeira do Equador diante de barricadas em protesto contra o governo, em Quito - Henry Romero/Reuters

Moreno havia sido pressionado pelo líder indígena Jaime Vargas, presidente da Conaie (Confederação de Nacionalidades Indígenas do Equador), que disse que o grupo não continuaria conversando e manteria os protestos de rua caso o decreto não caísse.

"O bem mais valioso que temos é a paz, e eu valorizo a paz como valorizo o sacrifício dos irmãos indígenas", afirmou Moreno, com tom mais calmo e conciliatório do que no início da reunião. "Aprendi a amar os indígenas quando era pequeno, sempre admirei sua sabedoria e respeito sua cultura."

Antes da decisão que deve mudar o cenário turbulento, o Equador viveu um dia de incerteza. Indígenas e governo começaram a conversar no fim da tarde (início da noite no Brasil), num local nas redondezas de Quito.

Com a cidade militarizada, o acesso à reunião era restrito, sem permissão de participação da imprensa.

A retirada dos subsídios aos combustíveis era parte de um pacote de ajustes para cumprir metas acertadas com o FMI (Fundo Monetário Internacional), ao qual o Equador pediu um empréstimo de US$ 4,2 bilhões.

Para os indígenas, a derrubada do decreto que retira o benefício era item essencial para seguir conversando. O governo primeiro disse que não o anularia e ofereceu outras medidas para amenizar os efeitos do aumento.

Depois, diante da violência dos atos, afirmou que "poderia rever" partes do decreto, até por fim ceder aos manifestantes.

No início das conversas deste domingo, Moreno afirmou que "os mais ricos e os traficantes de gasolina" eram os que mais se beneficiavam do subsídio aos combustíveis.

"Se isso também está afetando os mais humildes, temos que dialogar. Mas não é justo que esses grupos poderosos fiquem ainda mais poderosos com o subsídio", disse o presidente.

Representando os manifestantes, o líder indígena Vargas declarou que "foram violados direitos humanos e artigos da Constituição". "Pedimos que isso seja incluído nessa discussão."

Mais tarde, o mediador do encontro perguntou a Vargas se aceitaria integrar uma comissão de trabalho pela paz. Ele respondeu que não tinha sentado ali para entrar em comissões, e sim para convencer Moreno a voltar atrás sobre os combustíveis.

E ameaçou: "Basta derrubar o decreto que as manifestações acabam. Senão, continuaremos mobilizados".

O começo do dia em Quito foi de cidade deserta, devido à ampliação do número de militares e ao toque de recolher imposto na véspera. A medida vigoraria até as 15h de domingo; depois, foi estendida até as 5h desta segunda (14).

Mesmo com essa determinação, alguns grupos continuaram nas ruas e houve confusão, com o incêndio de um veículo da polícia e distúrbios registrados nos arredores de Quito, como nos municípios de Tumbaco e Cumbayá, onde casas e comércio foram atacados por grupos de encapuzados.

No domingo, as estradas para entrar ou sair da cidade estavam fechadas, e era necessário obter uma permissão para atravessar os bloqueios montados pelos militares.

Todos os voos internacionais foram cancelados, e turistas tiveram de prolongar a sua estada.

Segundo a Defensoria do Povo, o número de mortos na repressão subiu para 7, todos eles manifestantes.

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