Equador está mais polarizado depois de Rafael Correa, diz cientista política

Para acadêmica, antecessor de Lenín Moreno abriu precedentes perigosos

Quito

Para a cientista política equatoriana Gabriela Polit-Dueñas, da Universidade do Texas (EUA), a diferença entre o atual levante indígena e os anteriores, que foram fatores determinantes para a queda de três governos, é que a sociedade está mais polarizada após os dez anos de governo de Rafael Correa (2007-2017).

Em entrevista à Folha, por telefone, a estudiosa diz que o antecessor de Lenín Moreno abriu “perigosos precedentes, como a ideia disseminada de que o uso da força é válido para o jogo político, tanto do lado dos indígenas quanto do lado do governo, e de que a imprensa é sempre uma inimiga”. 

Policiais e manifestantes aparecem em meio a nuvem de fumaça numa rua de Quito
Manifestantes entram em choque com policiais durante os protestos em Quito - Daniel Tapia - 11.out.19/Reuters

Polit-Dueñas tem críticas para ambos os lados. Afirma que Moreno se equivocou ao lançar um pacote de ajustes, que inclui o polêmico decreto que derruba o subsídio a combustíveis, “tão severo, e sem apoio de uma maioria legislativa ou mesmo de prefeitos ou autoridades que tenham respaldo popular”. 

Também considera que a mudança temporária da capital do país de Quito para Guayaquil é simbolicamente um ato de covardia, além de um erro político, “pois em Guayaquil a direita é mais forte, ali vivem seus opositores”, disse, em referência à prefeita da cidade, Cynthia Viteri, e ao ex-prefeito Jaime Nebot.

Por outro lado, considera exageradas as ações do grupo de líderes mais radicais, que promoveram, por exemplo, a detenção de jornalistas e policiais. Para a acadêmica, esse tipo de atitude não ajuda a avançar o diálogo.

Polit-Dueñas pode classificar algumas das decisões dos manifestantes indígenas como exageradas, mas não de manipuladas, o que seria, segundo sua visão, “de um racismo impressionante”.

“Sim, pode haver elementos pró-Correa ou pró-Venezuela em alguns grupos, mas afirmar que o movimento indígena é manipulável, que pode ser usado para servir a propósitos de terceiros é um absurdo”, diz a equatoriana. 

Para ela, os elementos de distúrbio mais severos nos protestos sempre surgem nesse tipo de atos, mas não fazem parte da tradição desses povos.

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