Isentar chinês de visto é positivo, mas pode atrair imigração ilegal, dizem especialistas

Presidente Bolsonaro anunciou dispensa durante visita ao país nesta quinta (24)

Flávia Mantovani
São Paulo

A isenção de visto para os chineses anunciada pelo presidente Jair Bolsonaro pode trazer benefícios para o Brasil, mas deve vir acompanhada de outras medidas para atrair de fato os viajantes e pode facilitar também a imigração irregular de chineses, opinam especialistas consultados pela Folha.  

Os chineses são o futuro do turismo global. Existe uma classe média chinesa emergente que está descobrindo o mundo, e o Brasil precisa se adaptar a isso”, diz Oliver Stuenkel, professor da Escola de Relações Internacionais da FGV.

“Reduzir a burocracia é um primeiro passo simbólico importante, mas deve haver uma política para atrair esse turista e uma estrutura para recebê-lo.”

O presidente da República, Jair Bolsonaro, recebe uma lembrança de artesão chinês durante visita ao país
O presidente da República, Jair Bolsonaro, recebe uma lembrança de artesão chinês durante visita ao país - Isac Nóbrega/Divulgação Presidência da República

Como exemplo, Stuenkel cita a França, que já tem atendentes fluentes em mandarim em lojas e grandes restaurantes de comida chinesa para atender esses turistas, que tradicionalmente viajam em grupo e não dominam o inglês.

Também menciona o México, que triplicou o número de viajantes chineses em seu território com campanhas de atração —sem isentá-los de visto, porém. 

“O visto é só um dos elementos. A infraestrutura vai ter que se adaptar. Uma delegação chinesa já reclamou comigo que em São Paulo não há atendentes que falam mandarim mesmo nos hotéis mais caros”, conta, acrescentando que o Brasil é um dos poucos países grandes a não ter voo direto para a China, por ser também uma das nações mais afastadas geograficamente de Pequim. 

A China é o país que mais envia turistas para o mundo, com 141 milhões de pessoas por ano viajando para o exterior. Em 2030, o número deve chegar a 300 milhões. O Brasil, porém, recebe poucos deles: são 60 mil chineses anualmente, segundo o Ministério do Turismo. 

A advogada especialista em migração Agnes Christian, professora da PUC-Rio, não acredita que a liberação do visto afete significativamente a chegada de chineses aqui.

“O Brasil vai perder dinheiro, porque eles vão vir de qualquer maneira, com ou sem visto. A Rússia teve um aumento estrondoso na chegada de chineses e nem por isso abriu mão do visto.” 

Ela chama a atenção para o risco de a medida facilitar a imigração irregular —inclusive para fins de trabalho escravo. “Vira e mexe vemos casos de escravidão de chineses aqui. Sem o visto, isso vai piorar.” 

Stuenkel concorda que existe essa chance. “Fica mais difícil de monitorar. Tanto que quem sempre se opôs à isenção dos vistos foi a Polícia Federal, que considera a China um país de risco migratório. É um risco, mas é difícil quantificar.” 

Agnes afirma que que seu celular não parou de tocar desde o anúncio de Bolsonaro, com clientes chineses que vivem no Brasil querendo informações. “Eles querem trazer familiares, mas estou explicando que nada vai mudar para quem deseja viver no Brasil”, diz. 

Ela considera negativa a falta de reciprocidade da medida. “Deveria ser uma via de mão dupla. É como convidar alguém para a sua casa, mas você não poder ir à casa dessa pessoa. Mas eles não vão aceitar fazer o mesmo, porque são muito rigorosos com a questão migratória.”

Stuenkel também acredita ser pouco provável que a China dê a contrapartida ao Brasil, porque o país é pouco aberto a estrangeiros alegando questões de segurança nacional.

“Isentar sem exigir que se retire o visto do outro lado vai contra a tradição diplomática do Itamaraty, e o ideal seria que houvesse a reciprocidade. Por outro lado, atrair o viajante chinês traz muitas vantagens. Não é uma solução fácil.”

Para a advogada Diana Quintas, diretora da Abemmi (Associação Brasileira de Especialistas em Migração e Mobilidade Internacional), o principal benefício virá com a chegada de mais viajantes de negócios. “A China é um grande parceiro comercial, e essa medida fará muita diferença, porque o consulado de lá é hoje bastante burocrático para emitir vistos para o Brasil”, afirma. 

Segundo ela, estudos feitos em outros países mostram que uma maior abertura migratória leva a um aumento do fluxo comercial. 

A advogada diz que ficou surpresa com a sinalização do governo para uma dispensa total do documento.

“Esperava-se que houvesse uma simplificação burocrática primeiro. Mas só saberemos o teor da medida quando houve o decreto.”

O governo não informou se vai exigir visto eletrônico ou se derrubará totalmente a exigência e não deu detalhes sobre a medida.


Quem não precisa de visto para o Brasil?

Nacionais de mais de cem países podem entrar no território brasileiro sem visto.

Escandinavos, europeus e latino-americanos de forma geral podem permanecer no país por até 90 dias usando apenas passaporte.

Países dispensados de visto por Bolsonaro
Austrália
Canadá
Estados Unidos
Japão

Países que devem receber a isenção
China
Índia

Nacionais de países membros e associados do Mercosul podem entrar no Brasil usando apenas documento de identidade.

A Venezuela está suspensa do bloco, mas venezuelanos também podem entrar no Brasil usando documento de identidade

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