Descrição de chapéu

Líder do Estado Islâmico morto tinha peso simbólico que Bin Laden jamais teve

Trump tenta desmistificar figura do chefe terrorista, autoproclamado califa

Washington

Acuado em um túnel, esperneando e aterrorizado. O presidente americano, Donald Trump, descreveu assim neste domingo (27) a morte do líder do Estado Islâmico, Abu Bakr al-Baghdadi.

Os detalhes são macabros e, ademais, indignos do título de califa, que Baghdadi clamava para si. Com isso, Trump tenta desmistificar a figura desse chefe terrorista.

É fundamental para a estratégia de combate ao terrorismo garantir que, com a morte de Baghdadi, o Estado Islâmico tenha por fim perdido sua rosa dos ventos sangrenta.

De fato, o golpe dado neste fim de semana pela administração de Trump é forte. Baghdadi tinha um peso simbólico que Osama Bin Laden, o temido líder da Al Qaeda, morto em 2011, jamais teve.

 

Ao contrário de Bin Laden, que se apresentava com uma imagem sóbria, Baghdadi colocou em suas costas o pesadíssimo manto de califa. Esse título tem um significado especial. Um califa, afinal, é um sucessor legítimo do profeta Maomé, que fundou o islã no século 7. 

Baghdadi nem sempre teve tamanhas ambições. Segundo o pouco que se sabe de sua vida, ele não foi aceito no serviço militar porque enxergava mal. Também não conseguiu estudar direito, curso que era a sua primeira opção na universidade.

Acabou na área de teologia, em que concluiu o doutorado. Os estudos —e o fato de que dizia descender do profeta Maomé— lhe davam uma autoridade que outros líderes terroristas não tinham. 

Envolvido em milícias radicais depois da invasão do Iraque em 2003, Baghdadi foi preso pelas tropas americanas em 2004 —jogava futebol tão bem que, no presídio, foi apelidado de Maradona.

Foi com essa aura de teólogo radical que Baghdadi subiu ao púlpito da Mesquita al-Nuri, em Mossul, para anunciar em 2014 o estabelecimento de um califado que se esparramava em partes da Síria e do Iraque.

Baghdadi vestia roupas pretas e ostentava um turbante, como a tradição diz que Maomé apareceu em seu último discurso. Subiu devagar, emulando a paciência do profeta. Limpou os dentes com um graveto de madeira, com isso seguindo também um suposto hábito de Maomé.

O líder do EI, vale lembrar, não era de fato um califa. Não era reconhecido como tal pela comunidade islâmica. Mas os militantes que acreditavam naquele título tinham, assim, uma razão adicional para seguir os seus ditames.

O Estado Islâmico se alimentou justamente desse tipo de retórica apocalíptica, satisfazendo guerreiros que pensavam estar próximos do juízo final.

Nesse sentido, sim, a morte de Baghdadi sacode os alicerces do Estado Islâmico. Certamente encerra um capítulo na história da organização terrorista. Mas essa facção radical existia antes de Baghdadi e não há como ter certeza, por ora, se nós já chegamos ao fim da história.

 

A organização surgiu em 1999 nas mãos de Abu Musab al-Zarqawi. Ele tampouco foi seu grande ideólogo. Em termos religiosos, o grupo dependia de Turki al-Binali. Zarqawi morreu em 2006, e Binali, em 2017. A facção não desapareceu.

Com a humilhante morte de Baghdadi, o Estado Islâmico perdeu um de seus bens simbólicos mais importantes. Mas é este o poder dos símbolos: eles podem ser recriados, enquanto as condições materiais que sustentaram a facção por todos esses anos não forem alteradas. 

O Estado Islâmico se alimentou do escanteio de tribos sunitas no Iraque após a invasão americana em 2003, por exemplo, assim como da pobreza e da falta de perspectivas da população iraquiana e síria.

Pesou, ainda, o atrito entre diferentes ramos étnicos e religiosos naqueles dois países, em parte fomentado por atores externos como Arábia Saudita e Irã.

O autoproclamado califa está morto. Resta garantir que ninguém vai vestir seu manto negro outra vez.

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