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Multidão na Etiópia queima livros de vencedor do Nobel da Paz em protesto

Ato é demonstração de solidariedade com líder opositor

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Manifestantes no leste da Etiópia queimaram cópias do mais novo livro do primeiro-ministro do país e vencedor do Prêmio Nobel da Paz, Abiy Ahmed, em uma demonstração de solidariedade a um líder opositor, Jawar Mohammed.

Mohammed disse que o governo estava retirando o esquema de segurança de sua casa na capital, Adis Abeba, o que autoridades etíopes negam.

Após a declaração do opositor, protestos eclodiram ao redor de sua casa e em diferentes partes do país.

Apesar de elogiado por suas reformas, Ahmed vem se esforçando para conter as crescentes rivalidades étnicas no país.

E, ainda que a polícia tenha negado a informação sobre a retirada do esquema de segurança, a declaração de Mohammed acabou alimentando frustrações já existentes contra o governo.

Membro da juventude Oromo grita slogans do lado de fora da casa de Jawar Mohammed
Membro da juventude Oromo grita slogans do lado de fora da casa de Jawar Mohammed - Tiksa Negeri/Reuters

Na capital, apoiadores se ofereceram para atuar como seguranças de Mohammed, e manifestantes foram ouvidos gritando: "Abaixo Abiy". A queima de livros ocorreu na cidade de Dadar.

 

Cópias do livro de Abiy, "Medemer", publicado no sábado (19), foram distribuídas por todo o país. A obra se concentra na filosofia política do primeiro-ministro e em sua visão para a Etiópia.

Explosão de seguidores

Mohammed usou sua empresa de comunicação, a Oromo Media Network (OMN), para relatar a onda de protestos de 2016-18 contra o governo do primeiro-ministro anterior, Hailemariam Desalegn.

Durante essas manifestações, a OMN ganhou muito prestígio entre pessoas da comunidade de Oromo, o maior grupo étnico da Etiópia, que se sentiu marginalizada política e economicamente.

Naquela época, o jornalista nascido na Etiópia morava nos EUA, de onde tem cidadania.

Mas ele voltou ao país depois que Abiy assumiu o poder em abril do ano passado e começou a cobrar reformas.

Entre as medidas, implementadas em 2018, estavam a libertação de milhares de presos políticos, o fim do Estado de emergência e a redução do número de partidos políticos.

O primeiro-ministro também permitiu maior liberdade de imprensa em um país criticado internacionalmente por grupos de direitos humanos por sua repressão a jornalistas.

Abiy Ahmed, Nobel da Paz e primeiro-ministro da Etiópia, um dos maiores países da África - Mohamed Nureldin Abdallah/Reuters

Problemas de paz

Antes de Ahmed ascender ao poder, o governo mantinha um controle ferrenho sobre as tensões entre as numerosas comunidades étnicas da Etiópia. Mas muitas dessas tensões acabaram se tornando um conflito aberto.

O primeiro-ministro, que é da etnia Oromo, foi acusado de ignorar os interesses de alguns grupos.

Apesar de voltar do exílio, Mohammed criticou Abiy, o que teria irritado o político. "Os donos da mídia que não possuem passaporte etíope estão fazendo joguinhos", disse o premiê, segundo a agência de notícias Reuters.

"Quando há paz, você está brincando aqui, e quando estamos com problemas, você [não] está aqui." Muitos interpretaram a declaração de Abiy como uma crítica a Mohammed.

Abiy recebeu o Prêmio Nobel da Paz de 2019 no início deste mês por resolver o conflito de fronteira da Etiópia com a Eritreia e por promover a paz e a reconciliação em seu próprio país e na região.

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