Descrição de chapéu

Nobel coroa trajetória de conto de fadas para país africano

Desafio para Etiópia, porém, será alternância de poder do partido que governa há décadas

Fábio Zanini
São Paulo

O prêmio Nobel da Paz para Abiy Ahmed, primeiro-ministro da Etiópia, coroa uma trajetória de conto de fadas para um dos maiores e mais importantes países da África.

O século 20 foi trágico para os etíopes, um povo orgulhoso, que nunca foi colonizado.

Invadida pelos fascistas na década de 1930 e submetida a um regime marxista fanático a partir dos anos 1970, e Etiópia virou sinônimo de pobreza e instabilidade.

Abiy Ahmed, primeiro-ministro da Etiópia, um dos maiores países da África
Abiy Ahmed, primeiro-ministro da Etiópia, um dos maiores países da África - Michael Tewelde/AFP

As imagens de crianças esquálidas, mostradas pela TV, chocaram a consciência mundial e levaram à mobilização de artistas pop que culminou no concerto Live Aid.

A intenção pode ter sido boa, mas foi devastadora para a imagem de um país que teve dificuldades para se projetar como a nação dinâmica que é, dona de uma das culturas mais ricas da África.

É o único país da África subsaariana que não usa uma língua europeia como seu primeiro idioma, mas sim o amárico, com seu alfabeto peculiar.

Também tem sua própria variante do cristianismo ortodoxo, seguida por 60% da população, e uma grande minoria muçulmana. Livre da ditadura de esquerda nos anos 1990, a Etiópia viveu novos dissabores.

A traumática independência da Eritreia levou a uma guerra civil entre os dois países por questiúnculas de fronteira.

O regime se fechou durante o período do primeiro-ministro Meles Zenawi (1995-2012), uma figura carismática e vista com bons olhos em alguns círculos internacionais por reformas importantes que fez, sobretudo na área de desenvolvimento rural.

Mas internamente o comportamento do governo era autocrático, com prisão de dissidentes e repressão a manifestações.

A economia seguia sendo uma das mais fechadas do continente, completamente estatizada.

Há meros dez anos, enquanto a África vivia sua revolução digital baseada na telefonia celular, a Etiópia seguia na Idade da Pedra da internet.


No poder desde o ano passado, Ahmed aproveitou-se da saída de cena de Zenawi (morto em 2012) e de um novo ambiente social e político no país, que tem uma população jovem e crescente e uma classe média estabelecida.

A fadiga do conflito com o vizinho eritreu (que, aliás, segue sendo governado de forma ditatorial) abriu caminho para a paz. Opositores foram libertados e o cerco à imprensa, relaxado.

O prêmio é merecido, mas o grande teste para a Etiópia ainda está por vir.

O EPRDF (Frente Democrática e Revolucionária do Povo Etíope), partido de Ahmed que há décadas governa o país, é uma coalizão de chefes locais e ex-líderes militares que está enraizada nos negócios do Estado e não largaria esse privilégio de forma tão fácil em caso de uma vitória da oposição.

Apenas quando houver alternância de poder a fábula etíope estará completa.

Erramos: o texto foi alterado

Uma versão anterior desta análise deixou de especificar que a Etiópia é o único país da África subsaariana (e não do continente inteiro) que não usa uma língua europeia como seu primeiro idioma. O texto foi corrigido.

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