Manifestantes indígenas capturam policiais e jornalistas no Equador

Todos foram liberados depois de dez horas sem poder sair da Casa da Cultura

Sylvia Colombo
Quito | Reuters e AFP

Em dia em que os indígenas radicalizaram discurso e fizeram policiais e jornalistas de reféns, o governo equatoriano insistiu na tese de complô internacional envolvendo a Venezuela. 

Grupos indígenas que protestam desde a semana passada capturaram nesta quinta (10) sete policiais (seis homens e uma mulher) e um grupo de jornalistas em Quito. Eles foram libertados depois de dez horas.

A imprensa havia entrado na Casa da Cultura, onde os ativistas estão acampados, para reportar a situação. Os jornalistas estrangeiros foram liberados antes. 

Protesto de indígenas contra o presidente Lenín Moreno, do lado de fora da Casa da Cultura, em Quito - Martin Bernetti/AFP

"Em nome do governo nacional, demandamos que qualquer diálogo se realize após a liberação deles e num clima de paz", pediu o secretário-geral da Presidência, José Augusto Briones.  

A apreensão aconteceu após o local ser invadido pela polícia na madrugada. Os agentes desrespeitaram um acordo entre manifestantes e governo que estipulava a Casa da Cultura como uma zona de paz, ou seja, uma área de repouso dos ativistas.

Os policiais também entraram em outras zonas de paz —a Universidade Pública Salesiana e o acampamento no parque El Arbolito, no bairro de El Ejido, onde está localizada a Casa de Cultura—, aumentando a repressão contra os indígenas no oitavo dia de manifestações em repúdio às medidas de austeridade determinadas pelo presidente Lenín Moreno.

As forças de segurança lançaram bombas de gás lacrimogêneo e agrediram manifestantes com golpes de bastão, em uma tentativa de dispersar os ativistas. Pela manhã, havia restos de objetos queimados e de barreiras recém-derrubadas no parque El Arbolito.

O levante, o pior no Equador em anos, ocorre devido a um acordo assinado com o FMI (Fundo Monetário Internacional), que garantirá um empréstimo de US$ 4,2 bilhões (R$ 17,05 bilhões) ao país.

Em contrapartida, o governo concordou em adotar medidas como o corte de subsídios a combustíveis, em vigor há quatro décadas.

A decisão gerou um aumento de até 123% nos preços da gasolina e do diesel e revoltou a população. Na terça (8), o presidente disse que não voltará atrás nem renunciará.

Moreno responsabilizou seu antecessor e ex-mentor, Rafael Correa, pela crise no país e o acusou de se aliar ao ditador da Venezuela, Nicolás Maduro, para "desestabilizar o Equador". 

Brasil, Argentina, Colômbia e mais quatro países latino-americanos também culparam o venezuelano pela onda de protestos. O Itamaraty afirmou em nota na terça que Maduro estaria tentando "estender as diretrizes de seu governo nefasto aos países democráticos da região".

A ministra do interior María Paula Romo afirmou que a polícia deteve um grupo de 17 pessoas no aeroporto da capital —a maioria delas seriam venezuelanos. Eles teriam informações sobre os deslocamentos do presidente e do vice-presidente.

Romo escreveu em uma rede social que as prisões confirmam "todos os interesses que estão por trás do caos no Equador", em alusão ao suposto envolvimento de Maduro na crise. 

Nesta quinta, as lideranças indígenas negaram o início de diálogos de paz com o governo —como o presidente Lenín Moreno havia informado no dia anterior. 

Além disso, a Conaie (Confederação de Nacionalidades Indígenas), principal organização indígena do país, convocou seus membros a radicalizarem as manifestações. "Nada de diálogo com um governo assassino", afirmou o presidente da entidade, Jaime Vargas, em um comunicado.

Um indígena foi morto nas manifestações de quarta (9). É a quinta morte desde o início dos protestos. Mais de 800 pessoas foram presas, e mais de 400 ficaram feridas durante confrontos em atos.

No centro da cidade, o movimento do comércio começou a ser retomado, após ficar quase completamente fechado na quarta (9), em função dos protestos e de saques em mercados em Quito e em Guayaquil.

Logo cedo, comerciantes levantavam as portas metálicas de seus estabelecimentos e retomou-se, em parte, o serviço de transporte público, embora muitas caminhonetes ainda circulassem pela cidade com passageiros na carroceria.

O presidente regressou a Quito na quarta à noite para monitorar a situação com os manifestantes. Ele estava na cidade costeira de Guayaquil, a 400 km da capital, para onde transferiu a sede do governo devido à violência dos protestos na capital.

Apesar disso, o clima nas ruas de Quito ainda é tenso. A poucas quadras do Palácio de Carondelet, sede do Executivo, havia bloqueios policiais. Além de placas de metal, o cerco era reforçado com arame farpado.

A maior barreira se encontrava na esquina das ruas Guayaquil e Olmedo, cenário de um dos mais duros confrontos da última semana. Ali, os policiais cobriam os rostos enquanto montavam as barreiras. O cheiro de gás lacrimogêneo era forte e fazia arder os olhos.

Houve várias passeatas pequenas entre a região central e no bairro de El Ejido, áreas em que se concentram os protestos. Eram grupos pequenos, de menos de cem pessoas, cada um carregando bandeiras de suas etnias e nações indígenas.

Agressões a jornalistas

Organizações internacionais condenaram nesta quinta-feira (10) as agressões contra jornalistas durante os protestos no Equador. A SIP (Sociedade Interamericana de Imprensa) divulgou um comunicado no qual pede que os profissionais dos meios de comunicação tenha condições de realizar seu trabalho. 

Segundo a ONG Fundamedios, ao menos 59 jornalistas já foram agredidos nos protestos. 

A CPJ (Comissão para a Proteção dos Jornalistas) também emitiu comunicado requisitando às autoridades equatorianas a interrupção do assédio aos meios de comunicação.

O órgão se expressou por meio de um documento em parceria com organizações de direitos humanos locais, como a Inredh (Fundação Regional de Assessoria em Direitos Humanos), a Comissão Equatoriana de Direitos Humanos, o Observatório de Direitos e Justiça e a Fundamedios.

A CIDH (Comissão Interamericana de Direitos Humanos) também demonstrou preocupação em relação às agressões sofridas pelos profissionais de mídia.

“Lembramos aos Estados que eles devem atuar sobre a base da legalidade dos protestos e com a premissa de não constituir uma ameaça à ordem pública. Para contribuir com a não repetição desses fatos, convocamos o Estado a avançar em seus esforços na abertura de diálogo e com absoluto apego aos direitos humanos”, afirmou a comissão. 


CRONOLOGIA DOS PROTESTOS

21.fev
Equador e FMI acordam pacote de R$ 17 bilhões; órgão exige que país adote medidas de austeridade

3.out
Governo põe fim a subsídios de combustíveis, e preços sobem até 123%. Protestos começam e Executivo declara estado de exceção

4.out 
Mais de 350 pessoas são presas e 21 policiais ficam feridos. Grupo de 47 militares fica retido em comunidade indígena

5.out 
Trabalhadores do setor de transporte anunciam fim da greve, mas indígenas e sindicatos seguem mobilizados. Presos já são 379, e agentes feridos, 59

6.out 
Vinte são presos por cobrar preços abusivos de alimentos. Um homem morre após ambulância ficar bloqueada em estrada
 
7.out 
Presidente transfere sede do governo para Guayaquil e acusa seu antecessor, Rafael Correa, de tentar um golpe de Estado

9.out 
Indígenas lideram greve geral no país

Com AFP

Erramos: o texto foi alterado

Uma versão anterior desta reportagem afirmava que 59 jornalistas haviam sido presos. Na verdade, eles foram agredidos. O texto foi corrigido.

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