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Indígenas estão presentes há décadas em momentos de instabilidade no Equador

Pacificação de grupos é essencial para garantir governabilidade no país

Sylvia Colombo
Buenos Aires

Assim como na Bolívia, os movimentos e sindicatos indígenas no Equador se organizaram na década de 1990 e, desde então, promovem protestos por igualdade de oportunidades, demarcação de terras e outras demandas. 

Enquanto na Bolívia o presidente Evo Morales —que concorre à reeleição no próximo dia 20— integrou esses grupos ao jogo político, com diversos estímulos assistencialistas, cotas no Parlamento e até a criação de um sistema judicial à parte, o mesmo não ocorreu no Equador.

Excetuando-se alguns momentos de trégua, o fator indígena esteve presente nos momentos de instabilidade que provocaram as saídas antecipadas de vários presidentes, como Abdalá Bucaram (1997), Jamil Mahuad (2000) e Lucio Gutiérrez (2005). 

Manifestantes entram em confronto com forças de segurança durante protestos em Quito
Manifestantes entram em confronto com forças de segurança durante protestos em Quito - Ivan Alvarado/Reuters

Quando chegou ao poder, Rafael Correa (2007-2017), que estudou nos EUA e é casado com uma belga, esforçou-se para mostrar que sabe falar quéchua e que seu governo seria de integração. Os indígenas, afinal, são 4,5 milhões de pessoas —25% da população total. 

Isso não ocorreu de todo e, durante sua gestão, houve manifestações de indígenas, marcadas por bloqueios de estradas, atos em grandes centros urbanos e greves devido às seguidas autorizações do governo a mineradoras multinacionais.

Ainda assim, com sua mão de ferro populista, ele foi capaz de contê-los e enviar ao mundo a mensagem de que seu governo era um aliado dos movimentos indígenas. 

O Equador foi declarado como Estado plurinacional e intercultural, e Correa incentivou a participação indígena, ainda que de forma controlada, nos governos regionais e no Parlamento. Também aumentou o gasto social para melhorar o acesso dessa população à saúde e à educação públicas.

Para a comunidade internacional, bastava a imagem geral de que Correa havia pacificado os anseios indígenas e dado algo de estabilidade ao país, que desde 1830 teve 21 Constituições e que, desde os anos 1970, não viu nenhum partido político se reeleger.

Correa conseguiu durante sua década como presidente. Já com seu sucessor, Lenín Moreno, um herdeiro político que se tornou um de seus maiores inimigos, a história está sendo diferente.

Primeiro, porque a situação econômica do país já não é tão boa. O fim do “boom das commodities” e a queda do preço do petróleo fizeram com que Moreno tivesse de apertar o cinto do gasto social e promover ajustes em tarifas como a que fez eclodir a mais recente série de manifestações

E, em tempos de crise, a pobreza se nota ainda mais discrepante. Se esse índice entre a população total é de 37%, entre os indígenas a cifra é bem mais alta —73% deles estão abaixo da linha de pobreza.

Os próximos passos de Moreno serão cruciais. Ou busca uma saída negociada e conciliadora com os grupos indígenas, ou pode integrar a lista de outros presidentes que deixaram o poder mais cedo.

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